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Para Mário Lúcio, ex-ministro da cultura de Cabo Verde, cantor, compositor músico, escritor e poeta, “a sociedade portuguesa tem tanto de africanos como nós temos, mas também tem de mouros, de judeus e já lá atrás tiveram de godos, de visigodos, de celtas”. Foto: Rita Ansone

Crioulo na rádio, crioulo na música, crioulo nas ruas de Lisboa. Não é novo, tem sido assim ao longo de séculos de culturas juntas pela História. Devido à expansão do português em tantas geografias, há vários crioulos espalhados pelo mundo e que regressam a Lisboa: em Cabo Verde, na Guiné, em São Tomé, mas também em Malaca (papiá cristão), um pouco em Macau. Os que mais se ouvem na cidade são o crioulo guineense e o cabo-verdiano – línguas correntes nos seus países de origem, ainda que não oficiais, e que se espalham pelas comunidades desses países que moram em Lisboa.

Há cerca de 14 mil guineenses e 25 mil cabo-verdiano na zona de Lisboa (e estes dados não contam com os seus descendentes). Não se sabe quanto, até porque oficialmente não há números, mas em algumas zonas da cidade não é de estranhar que o crioulo seja a segunda língua, quando não a primeira.

Isso acontece sobretudo onde há originários ou descendentes, no fundo herdeiros destas línguas que tiveram origem no cruzamento das culturas e línguas africanas com a portuguesa, no século XV, e que continuam a cruzar culturas no século XXI. Ambos os crioulos, ou suas variantes têm base lexical portuguesa, e nasceram da necessidade de se comunicar e de se relacionar com o outro.

Na tese de Mário Lúcio, ex-ministro da cultura de Cabo Verde, cantor, compositor músico, escritor e poeta, que laçou na semana passada o seu livro Manifesto à Crioulização em Lisboa, na Fundação José Saramago, o crioulo nasce do que ele chama de “dilema.” “No encontro dos portugueses com os negros africanos há africanos que não são negros e não estavam nos barcos negreiros.” Uns eram do continente africano, outros do continente europeu. E surge o dilema: “Que língua falar, que música tocar?”.

Foto: Orlando Almeida

Teria havido um questionamento sobre a situação geográfica e a sua própria identidade. “Onde estamos? Quem somos?” E a resposta levava a “várias raízes”. “Então muitos de nós temos na mesma pele o carrasco e a vítima. Isso cria dilemas muito grandes. Então vamos resolver este dilema com respostas como: criar a nossa língua, a nossa própria música, o nosso próprio espaço de existência.” Completa.

Tony Tcheca (António Soares Lopes) como é conhecido este escritor, jornalista e poeta guineense radicado em Lisboa, também defende que a escravatura é um assunto crucial na crioulização. “Nós temos que ir lá beber, até para perceber certas manifestações socio culturais que até hoje acontecem”.

Leia mais sobre o projeto crioulo da Mensagem aqui.

Música em Lisboa

É na música que, na atualidade em Portugal, a veia do crioulo se solta mais livre, e fala de tantas dessas coisas, e de outras, em tantas melodias de cantores que aqui fizeram cidade natal ou aqui aportaram. Lisboetas, portanto. Ao longo dos anos e anos, espaços musicais como o B.Leza potenciaram através da música e de outras expressões artísticas os encontros e cruzamentos que sustentaram a inter-culturidade em Lisboa e contribuem para a divulgação e integração do crioulo.


Músicos como o Tito Paris, a banda guineense Tabanka Djaz e agora Dino D’Santiago, Lura, ou Julinho KSD para citar apenas uns poucos nomes que contribuem para esta difusão e integração. No caso de Dino, há uma proposta que vai além da língua para a própria integração cultural. Nele, o crioulo é verdadeiramente a língua franca da amizade e do sentido de pertença.

Numa altura em que a abertura para a multiculturalidade em Lisboa é cada vez maior, a cultura e a língua crioulas ganham atenção.

Dino d’Santiago e Julinho KSD em Kriolu

Da proibição à renascença

Mas nem sempre foi assim. Tony fez parte do primeiro grupo do pós-independência da Guiné-Bissau que começou a ter discussões sobre o crioulo, língua, o papel do crioulo guineense nas primeiras sessões de “criolofonia”, termo usado para debater sobre a língua e sua oficialização.

Tony nasceu na época colonial e conta como era. “Sou de uma geração que apanhou o período colonial na sua fase mais terrível, desgastante, que era a proibição de falar o crioulo.”

Na antiga Guiné portuguesa, o crioulo era proibido pelo sistema colonial. Mas na sua infância Tony teve o primeiro contacto com a língua portuguesa apenas na escola. Conta que enquanto a professora falava, ficavam atentos, a tentar chegar a essência da lição, mas “quando virávamos para o lado para falar com o colega falávamos em crioulo.”

“Os meninos da escola eram maioritariamente portugueses, os que não eram portugueses eram minoria, mas mesmo a comunicação entre os filhos de portugueses e nós, os guineenses, era em crioulo. As nossas brincadeiras eram em crioulo, o contar de uma história de um acontecimento era em crioulo.”

Tony Checa conta que brincava em crioulo até com os amigos portugueses, na infâcia. Foto: Inês Leote

Paula Torres de Carvalho, jornalista do primeiro jornal cabo-verdiano “Voz di Povo”, também assistiu ao debate sobre a oficialização do crioulo cabo-verdiano logo após a independência. Filha de pai português e mãe portuguesa, diz que é o exemplo do que é ser crioulo. “Eu sempre coexisti nas duas culturas. Meu pai era português e minha mãe era cabo-verdiana. Eu nasci numa comunidade que misturava estas duas formas de estar na vida. Eu comia cachupa e pratos portugueses, falava português na escola, com o meu pai e falava crioulo com a minha mãe e com toda a família da minha mãe.”

Paula Torres de Carvalho: “O crioulo dá-nos uma visão muito global e integradora.” Foto: Rita Ansone

A coexistência destas duas culturas faz com que Paula Torres de Carvalho tenha “uma visão do mundo muito global e muito integradora do que são os valores das duas culturas”: “ultrapassa muito a língua no sentido da língua crioula que se fala nas várias ilhas de Cabo-Verde. É precisamente a ideia de que estas duas culturas no sentido lato do termo têm a ver com hábitos, costumes, língua, gastronomia e música. E tudo isso de facto define o que é uma cultura de um povo.”

Ou seja, crioulo não é só língua, nisso estão todos de acordo. É modo de ser, modo de estar. Mário Lúcio, defende que o crioulo é “identidade e como identidade inclui primeiro, um percurso histórico e daí fala das origens do crioulo e no que resulta hoje na sua síntese: as facetas que definem uma identidade como a língua crioula ou os crioulos, a música, a culinária, as roupas, as formas de comunicação e de estética.”

É disso que fala no seu livro e na tese da sua vida. Para Mário Lúcio, os crioulos “têm grande experiência nas relações sociais entre pessoas, entre humanos.” Segundo ele, “cedo começamos a lidar com os nossos próprios conflitos com os nossos próprios inimigos, com as nossas antíteses. Então nós temos uma experiência boa para partilhar com o universo.”

Mário Lúcio até considera que, tanto caminho andado, já não se pode falar de integração. Termos como “tolerância”, “integração” já estão ultrapassados, “Integrar alguém é dizer venha cá, mas seja como nós e tolerar é dizer “não tenho mais o que fazer, tenho de te aceitar”, defende.

Então, por onde ir? Ele reforça que “o crioulo já traz em si várias raízes, inclusive as que eram antagónicas no início, ou seja, os crioulos já venceram o antagonismo e agora querem partilhar isso com os outros.” Querem “fazer os outros compreenderem assuntos sobre os quais ainda não se debruçaram, mas nós sim e queremos dizer: ‘vocês são tão crioulos como nós’”.

E somos. “A sociedade portuguesa tem tanto de africanos como nós temos, mas também tem de mouros, de judeus e já lá atrás tiveram de godos, de visigodos, de celtas. E isso resultou numa sociedade particular interessante e que acabaria por levar a independência de Portugal, assim como o fenómeno da crioulização acaba levando às independências, porque nenhuma cultura gosta de estar submetida a outra.”

“O crioulo já traz v´rias raízes, inclusive as que eram anagónicas…”, diz Mário Lúcio. Foto: Rita Ansone

Lisboa crioula, como canta Dino D’Santiago?

Sim, diz o ex-ministro cabo-verdiano. “É importante que em Lisboa, cidade cosmopolita que tem, antes de todas as cidades europeia, nos genes, a crioulização, se entenda que nós não estamos a falar só dos pretos e dos mestiços ou só da diáspora. Tudo isso faz parte, mas faz parte também explicar aos outros que eles também são crioulos e que sofreram o mesmo processo que nós. Porque crioulo não é uma questão de cor, é uma questão de percurso na formação de uma sociedade. E quando os outros perceberem que sim, é como se fosse a oportunidade de um abraço. Estás a ver que não há diferença? E nós podemos nos abraçar exatamente lá no ponto onde achávamos que éramos desiguais.”

Isso mesmo que Paula diz ter vivido: uma cultura de igualdade, em que nenhuma parte da sua história se apresentava como superior à outra. E com um sentimento de pertença pelas duas partes. “Tão próxima de uma coisa como doutra, tão pertencente a um mundo como o outro. É isso que define o que é de facto uma cultura crioula”.

Mário Lúcio, defende que “a língua é uma grande ferramenta da identidade” e que isso quer dizer que uma pessoa pode ser crioula e falar norueguês. “Basta ver o exemplo de cabo-verdianos que nasceram em Portugal e que nunca falaram crioulo”. Para ele o que pode acontecer é dizer “nós temos uma língua franca também e tu podes aprender” porque o crioulo tem mais de 90% de léxico português.

É isso que acontece em camadas mais jovens que elegeram o crioulo como língua franca.

O crioulo em Lisboa

Apesar de ser falada maioritariamente em Cabo Verde e em grande parte na Guiné Bissau, o crioulo não é língua oficial, nem num lado nem noutro, numa luta que já dura desde a independência dos dois países.

Ainda recentemente o eleito presidente da República, José Maria Neves, discursou em crioulo e português, e reservou uma sua “preocupação fundamental” para o final da tomada de posse: a língua cabo-verdiana. “Vou estar na linha de frente do combate para a oficialização do nosso crioulo”, disse, fazendo referência às variantes de todas as ilhas.

O mesmo acontece na Guiné Bissau, onde o crioulo está em permanente estado de oficialização. Para Tony Tcheca “nós temos necessidade de fomentar o ensino do crioulo a par da língua portuguesa. Não faz sentido tendo embaixadas a funcionar aqui com conselheiros para a cultura, mas na prática não se faz nada. E espanta-me que haja uma política de avestruz que faz de conta que não há nada”, diz.

Tony Checa diz que tem “observado jovens que vieram para cá bebés e outros que já nasceram cá, mas que não falam nem o português nem o crioulo.” Foto: Inês Leote

Do mesmo modo, diz Mário Lúcio, também é importante que quem estuda português perceba que “desde o seculo XVI para cá não mais existirá a língua portuguesa sem as línguas crioulas” assim como “nós já sabemos que não existe a língua crioula sem a língua portuguesa.” Nesse sentido, “é preciso a grande contribuição da sociedade portuguesa e de todos os que têm a ver com a promoção da defesa da língua. Que entendam que falta trabalhar com uma língua filha”.

Ou seja, conhecer e dar conhecer o crioulo, em Lisboa como em qualquer lugar, é crucial para “conhecer o outro.” E dá o seu exemplo: “Eu sou bilingue de nascença, mas não tenho o mesmo domínio da língua portuguesa que eu tenho do crioulo. Então se eu for obrigado a falar exclusivamente a falar o português como acontecia nas ex colónias, é uma diminuição do outro porque o outro não está a conseguir expressar-se com a matéria que ele melhor domina que é sua língua materna, sua língua de todos os dias. Então fica numa diminuição em relação ao outro.

Tony explica que tem “observado jovens que vieram para cá bebés e outros que já nasceram cá, mas que não falam nem o português nem o crioulo. Eles têm um elemento de comunicação com base em outros símbolos e de vez em quando e as vezes vamos apanhando um “bué” e um “tchiu”.

Diz que “gostaria de poder aprofundar este aspeto até para perceber a dimensão desta nova realidade tanto na comunicação como na necessidade de se fazer uma ponte que nos ligue sempre às nossas raízes. Pode ser que esteja a surgir um novo crioulo em termos linguísticos que junte o “bué”, com o “maningue” e o “sabura”. Isso é uma dinâmica natural que tem que ser enquadrada numa política assumida.” Essas outras palavras têm origens africanas diferentes, moçambicanas e angolanas.

Mesmo tendo em conta, e não ignorando, “como o sistema colonial combatia o crioulo”, é preciso dar um passo em frente: “capitalizar isso na integração, incluir o crioulo e suas novas expressões, até para evitar que as pessoas se sintam marginalizadas, já basta a pobreza e o divórcio com a escola.” A escola continua a não querer ver, e “continua de costas voltadas para realidade e nós não podemos ignorar esta realidade e um Portugal das mestiçagens, de várias línguas, de várias histórias,” conclui.

A crioulização no combate ao racismo

“Esta perspetiva de crioulização é um grande contributo na luta contra o racismo estrutural, porque as pessoas estão ali juntas num objetivo de estar a favor dos direitos humanos e contra a discriminação social e contra o racismo. Ela une a pessoas nessa luta,” defende Paula Torres de Carvalho.

O crioulo une as pessoas contra o racismo, diz Paula Torres de Carvalho. Foto: Rita Ansone

Exatamente. É o que diz Mário Lúcio no seu novo livro, num novo pensamento que fornece novas narrativas sobre o racismo e que “oferece várias vias para chamar “o monstro pelo nome”, mas com correção para que haja uma linguagem a volta disso e que não haja por onde fugir para “juntos combatermos essa questão”. “Esta é a contribuição básica de desterritorializar, de tirar a cor da pele da essência da crioulização, tirar a religião, tirar tudo isso e deixar que o indivíduo pelo seu percurso, pelas suas misturas opte voluntariamente por viver numa relação que aceite, primeiro, que todas as culturas atuais são síntese de várias culturas”, conclui. Que assim seja.


Karyna Gomes

É a jornalista responsável pelo projeto de jornalismo crioulo na Mensagem, no âmbito do projeto Newspectrum – em parceria com o site Lisboa Criola de Dino D’Santiago. Além de jornalista é cantora, guineense de mãe cabo-verdiana, e escolheu Lisboa para viver desde 2011. Estudou jornalismo no Brasil, e trabalhou na RTP, rádios locais na Guiné-Bissau, foi correspondente de do Jornal “A Semana” de Cabo verde e Associated Press, e trabalhou no mundo das ONG na Unicef e SNV.

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3 Comentários

  1. Adoro falar crioulo. Em casa não falo, mas mal vejo os caboverdianos vou logo falar. Com as minhas primas só falamos crioulo. Pelo telefone com a minha irmã tambem crioulo. Falo uma mistura de Fogo e Praia. Adoro.

  2. Apreciei este artigo de jovens para a minha idade mas já nos meus longínquos anos da infância e da juventude éramos como descrevem. E vivo em Portugal há mais de 59 anos.

  3. Muito bom este artigo e o projecto que do Jornal está associado, excelente trabalho. Vivi 50 anos na Damaia e muito dos meus amigo são de Cabo Verde ou falam crioulo.

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