
Olá, vizinha/o!
O meu avô adorava a Baixa – é a Catarina Carvalho que vos fala hoje. Ele era dos Açores e fez tudo para morar na capital. Para ele a Baixa era Lisboa e Lisboa era a Baixa. Além das vezes que vinha à Baixa porque inventava o que fazer, vinha também fazer nada. Só passear. Adorava o barulho e o burburinho. Agora que reparo, penso que nunca lhe perguntei o que o atraía tanto.
Quando eu descobri a Baixa, no início da idade adulta, nos passeios que me proporcionavam as horas de fecho bem cedo, do Diário de Notícias e quando não havia internet para alimentar a toda a hora, a Baixa não era assim tão bonita. Nos anos 90, era um lugar abandonado – e degradado, até.
Senhorios sem expectativa de aumentar rendas – amarrados por uma lei antiga – não faziam obras, ou deixavam as casas vazias, à espera de melhores dias. O comércio definhava – sem clientes (o meu avô era dos fiéis), que tinham substituído a calçada por pisos lisos e ar condicionado de centros comerciais. Aos fins de semana, então, era um deserto.
Lisboa mudara-se para a periferia – por necessidade, por gosto, por desgosto, por falta de gosto. Lembro-me de amigos que não queriam apartamentos que não fossem a estrear. Entre 81 e 91, Lisboa perdeu 17,9% de população, e entre 81 e 91, 14,9%. Foi o verdadeiro êxodo. E Lisboa tornou-se um donut, o que é um clássico do urbanismo nesses anos.
Como me explicava o arquiteto André Caiado Guerreiro, na entrevista que lhe fiz a propósito do quarteirão da Suíça, “primeiro, o centro foi abandonado, porque a qualidade de vida era um desastre, pela poluição, tráfego, porque as casas estavam em mau estado, os esgotos não funcionavam… Então a cidadania começa a afastar-se do centro da cidade e esse centro fica perdido.”
O que ficou na Baixa foi a muito óbvia beleza deste conjunto organizado e racional de ruas e prédios todos iguais, iluminados pelo sol de Lisboa, a dar-lhe o ventinho noroeste da beira Tejo… Um autêntico monumento à ideia de Cidade – do iluminismo do Marquês de Pombal.
E do que estávamos à espera para que fosse descoberto?
Aconteceu no final dos anos 2000, com o fim da crise, o boom do turismo, ancorado na democratização das viagens. Coincidiu com o encolher demográfico. E com mudanças na organização do trabalho que se acentuaram com a pandemia.
Era óbvio o que iria acontecer. Lisboa encheu-se de gente de fora que a va com olhos ingénuos em toda a sua beleza. E Lisboa, velha cidade, limitou-se a ir ao sabor da corrente – corrigindo o rumo só para se adaptar ainda mais. Raras vezes não foi assim (uma delas foi no pombalismo).
“O que vemos é a cidade a autorregular-se”, dizia Caiado Guerreiro. “Vimos os bancos desaparecer da Avenida da Liberdade. E o aparecimento de lojas de comércio de roupa, um negócio de alto rendimento. Isto acontece lentamente, numa cidade madura, desenvolvida, do mundo ocidental.”
A Baixa é o caldeirão onde todas as questões da atualidade de Lisboa se vertem: habitação, comércio, leis de rendas, ambiente, turismo, gentrificação, património, mobilidade…
Podia ser diferente? Claro que podia! É o que temos dito na Mensagem:
“A Baixa pode voltar a ser o lugar onde as pessoas gostam de estar, viver, trabalhar. Ainda estamos a tempo de recuperar o tempo perdido, mas é necessário que a autarquia olhe para o Centro Histórico e com uma equipa cosmopolita, culta, experiente em diversas valências defina um plano estratégico para o comércio, serviços e lazer. Temos muita gente com grande conhecimento e capacidade para uma tal empreitada, só falta decisores políticos que tenham coragem e vontade para avançar”, disse o António Moura, empresário, neste texto.
“Temos exemplos em mundos mais jovens em que há o conceito de placemaking. Criar o conjunto de coisas necessárias para dar a qualidade de vida à cidade. Uma loja de gelados, aliás, é um muito bom exemplo para mostrar o que é uma cidade: quase todos nós sabemos qual é a nossa gelataria preferida. E deslocamo-nos propositadamente a essa gelataria. É a criação de um destino”, disse o arquiteto Caiado Guerreiro na já referida entrevista.
“O futuro próximo dos Centros Históricos far-se-á, em boa parte, de regeneração urbana, devendo esta ser entendida como um mix de componentes a potenciar – o património, os valores, as tradições, os afetos e as denominadas funções de proximidade – a habitação, o lazer, a cultura, o turismo, o comércio, os serviços, etc.”, disse o especialista em comércio, João Barreta.
Entre outros trabalhos sobre a Baixa fizemos estes:
A Mensagem é na Baixa de Lisboa. Essa relação de vizinhança faz com que toda a redação lhe dedique especial carinho.
E como dizia o Miguel Esteves Cardoso num artigo no Público, “não podemos abandonar os lugares que adoramos. Deixá-los aos turistas é matá-los. Só há uma maneira de combater o efeito dos turistas sobre as coisas tradicionais das nossas cidades: é acompanhá-los. Para contrariá-los, é preciso competir com eles, indo aos lugares onde eles vão e, como clientes locais que somos, defender o gosto tradicional das coisas, como coisas feitas a pensar na clientela portuguesa, para convencê-las a gastar dinheiro nelas.”
Vem esta longa newsletter – e por isso peço-lhe desculpa – a propósito da inauguração da nova Zara no Rossio.
Uma loja desta dimensão altera inevitavelmente o ecosistema de um bairro como a Baixa. Colocá-la ali devia ser frito de um planeamento sobre o que é a Baixa, o que queremos que seja, o que sonhamos para o seu futuro. No mínimo, pensamento. O que acontecer na Baixa definirá o futuro de Lisboa – e parece que não estamos muito conscientes disso. Sobre isto tudo falou bastante o António Moura, empresário e morador na Baixa, neste texto.
Dito isto, com alguns dias de Zara, temos verificado um frenesim à volta de uma loja e uma inauguração como já não havia há tempos. E não só estrangeiros. Imensos portugueses curiosos, mostrando que a Baixa até os tem, e que aderem a novas propostas, desde que existam.
O entusiasmo que se viu deu ares da Baixa de há muitas décadas. E uma esperança numa cidade renovada.
Posso fazer-lhe um convite? Venha à Baixa! Cá o/a esperamos.
Catarina Carvalho
PS1: E deixo-lhe aqui mais uma curiosidade deste bairro especial:
PS: Se combinarmos isto com a descoberta de novas lojas na zona do Chiado, cada vez mais e mais diferentes, e, já agora, as tertúlias de volta à nossa Brasileira, podemos ter a esperança de uma nova cidade a nascer?

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