O Heden, em Santa Apolónia, reúne freelancers, nómadas digitais e empresas. Foto: Rita Ansone

É uma “alma sem fronteiras”, diz Manuel Bastos de si próprio. A sua própria linguagem elimina-as, ao tropeçar tantas vezes em anglicismos. Já andou um pouco por todo o mundo: Londres, Paris, Milão, Amesterdão, Roma, Tóquio, Osaka, Nova Iorque, Sidney, Califórnia e, finalmente… Lisboa.

Mais precisamente o Rossio, destino final, por agora, depois de ter poisado em vários outros lugares da cidade: Graça, Chiado. Foi nestes bairros que instalou pequenos pedaços do seu sonho: os co-workings Heden, espaços de trabalho partilhados que fundou em parceria com o amigo de longa data, o húngaro László Varga, que também se mudou para Lisboa. “O László sempre adorou a comida, o sol, o lifestyle de Lisboa. Aqui tem outra qualidade de vida, outra paz de espírito”, conta.

Esta é uma tendência que foi acelerada pela pandemia, cruzando em Lisboa línguas, culturas e ideias. Em todos os bairros onde o Heden se instalou, o mesmo contraste: o de uma cidade que se afirma cosmopolita, cheia de vida e dinamismo, mas que também assiste ao envelhecimento progressivo da sua população.

Manuel Bastos, fundador da Heden, viajou por todo o mundo mas escolheu Lisboa para criar um espaço de coworking. Foto: Rita Ansone

Agora, o Rossio, portanto. Há um novo Heden prestes a surgir na estação de comboios, por onde todos os dias passam turistas com as suas câmaras ao pescoço – mas quem Manuel e o sócio querem que fique por ali são os trabalhadores, nómadas ou não, os que se apaixonam o suficiente por Lisboa para aqui viver, nem que seja temporariamente, ou os portugueses que já não encontram um escritório, por serem demasiado caros.

Do mundo para Lisboa, com uma ideia

No Rossio isso será a suficiente ignição para ajudar a Baixa a não ter apenas turistas, mas a recuperar os que aqui trabalhavam, e que lhe davam vida local?

Veremos. Em Santa Apolónia, num dos quatro espaços da Heden que já existem, no Terminal de Cruzeiros, os turistas ocasionais cruzam-se com os que fazem do Heden um local de trabalho.

Aqui é possível ver-se o rio e a sua luz fulgurante, os cruzeiros prestes a zarpar pela cidade fora. Por todo o piso do Terminal veem-se post-its coloridos nas salas envidraçadas – como daqueles workshops de design thinking – e olhares colados aos computadores. No refeitório, as plantas adornam o espaço e as portas abrem-se para uma varanda, onde se fazem pausas de trabalho para contemplar a vista.

É a energia de uma cidade cosmopolita. Aqui, reúnem-se os tão famosos nómadas digitais, freelancers e, cada vez mais, empresas. Dá para perceber porquê. É o estilo, a vibe e a consciência sustentável que tornam estes lugares comuns bem mais apetecíveis do que qualquer outro espaço de trabalho convencional.

Mas vamos ao início de tudo: a Heden nasceu quando Manuel, que estudou Economia em Lisboa, foi para Londres, com a ideia de percorrer mundo como comissário de bordo, a “fotografar e escrever”. Aí, na cidade do nevoeiro, encontrou László, um arquitecto de Budapeste, na Hungria, que fugira com a família para o outro lado da cortina de ferro ainda em pequeno, tendo passado grande parte da sua adolescência na Alemanha.

“Temos um percurso bastante global”, diz Manuel. “O László faz Budapeste, Frankfurt, Detroit, Londres, Suíça, Barcelona, Roterdão. É arquiteto saltimbanco”. Em 2012, perante a crise financeira, o português regressa a Lisboa, e apanha com o boom turístico da recuperação. Lisboa estava em plena transformação, e Manuel presenciou a conversão da cidade num centro dinâmico, cada vez mais trendy e apelativo.

Começou a trabalhar no The Independente Collective, um espaço no Bairro Alto, frente ao Jardim de São Pedro de Alcântara, que hoje é um hotel, hostel, venue, restaurante e bar, e bebeu dessa nova atmosfera lisboeta.

Manuel Bastos e László Varga conheceram-se em Londres e, anos mais tarde, fundaram a Heden. Foto: Heden

Começou a trocar ideias com Lázsló que vivia do outro lado do mundo (na Califórnia), e trabalhava para a Google. “Falámos sobre a hipótese de criar um espaço de coliving e de coworking”, diz Manuel. Essa era uma realidade que já lhes era bem conhecida: a Manuel, por trabalhar no The Independente, e a László, que fora dos primeiros hóspedes de um desses espaços em Santa Cruz, na Califórnia.

“Queríamos juntar os freelancers, os nómadas digitais, as pessoas dispostas a viver a cidade de outra maneira”, resume o fundador. “Mas também queríamos um espaço que fosse uma plataforma cultural e de intercâmbio – que não servisse só os estrangeiros, mas também os locals, que se inserisse no tecido cultural da cidade”.

Revitalizar uma Lisboa envelhecida

A ideia estava lançada. E Lisboa… tinha outros atributos. Sol, gastronomia e até as tradições. Em 2017, a procura por um espaço onde uma plataforma de coworking se pudesse materializar arrancou com a busca de um bom nome, uma das tarefas que tantas vezes dá dores de cabeça aos fundadores.

“Éden” nasceu de “uma epifania noturna.” Manuel sorri, como quem viaja até essa mesma noite. Paraíso? “Éden como um espaço de encontro, de fertilidade, de novidade, meio idílico. Pode ou não ser real, mas que não é óbvio. Que é meio subtil, meio subliminar”. Mas o grande “twist” surgiu num “date” com uma rapariga holandesa.

Os amigos tinham encontrado um espaço, na Graça, numa travessa pequena e escondida, e a ideia surgira: fundir “Éden” com a palavra “hidden” (“escondido” em inglês). Manuel contava isto mesmo à rapariga, quando esta lhe respondeu que essa mesma palavra (“heden”) existia em holandês, e significava “today”: “hoje/agora”.

A Manuel e a László, tal pareceu-lhes um sinal divino, uma espécie de “serendipity”, como Manuel lhe gosta de chamar. Coincidências com sentido.

Os espaços do Heden, este no Chiado, querem trazer “sangue novo” à cidade de Lisboa.

O modelo imaginado para a Heden foi então testado no espaço da Graça, com coworking no rés-do-chão, ateliers para artistas com luz natural na cave e ainda uma sala de yoga. Sempre que havia um evento, esse mesmo espaço era convertido em bar, sala de cinema ou sala de concertos. “Era uma coisa dinâmica, multiusos. Foi assim que criámos o nosso ADN”.

“Adoro vir para o bulício da cidade”

O Heden da Graça abriu oficialmente no início de 2018, com um concerto de Luís Severo e April Marmara, e com a presença da DJ Tempos Livres. Desde logo o objetivo era marcar o caráter artístico e cultural do empreendimento. Houve sessões de cinemas e talks – eventos que continuam, até porque um dos novos espaços (o de Santa Apolónia) tem um auditório que pode ser reservado por empresas para talks e team buildings. Assim se ajudou a criar “uma comunidade sólida, solidária e colaborativa”, garantem.

Nómadas digitais e freelancers, lisboetas e estrangeiros, que queriam explorar a nova cidade que estava a ser criada, multicultural e moderna, revitalizando-a.

No espaço de Santa Apolónia, aberto mais recentemente, verifica-se precisamente esta confluência de culturas e experiências, que veio agitar a zona. Débora Amaral, Growth Marketer da IronHack, uma empresa que ocupa grande parte do espaço de Santa Apolónia, disponibilizando cursos trimestrais para alunos, é rápida a afirmar que a partilha do espaço tem aberto horizontes aos alunos da empresa, especialmente aos estrangeiros, que têm a possibilidade de contactar com “pessoas de outras áreas e de outros mercados”.

O mesmo pode corroborar Stefan, que veio de propósito da Holanda para abrir um escritório da empresa onde trabalha em Portugal, que acabou por escolher a Heden como local de trabalho. O grande objetivo? Recrutar profissionais portugueses, explica Stefan.

Este sangue novo parece correr nas veias de todos os que aqui trabalham. Guilherme Ribeiro, da Gympass, é brasileiro. Diz que num espaço destes não se sente fechado numa “bolha”. Conta que adora “pegar o trânsito, pegar o metro, sentir o ar na cara” quando sai de casa de manhã e vem para o rebuliço do centro da cidade. É esse que empresas como esta podem ajudar a reanimar.

O novo paradigma das empresas: a busca por um espaço cool

Esta ideia de um espaço coworking surgia numa altura em que, mesmo antes da pandemia, o mundo do trabalho estava a mudar. Havia cada vez mais gente a trabalhar como freelance e fora de locais de trabalho mais tradicionais. Manuel diz que era claro que “o mercado ia aquecer.” Em 2019, o Jornal Económico noticiava que o “coworking chegou para ficar”, baseando-se no estudo Barómetro sobre os novos modelos de trabalho, realizado pelo departamento de Investigação & Desenvolvimento do Avila Spaces ainda durante o ano de 2018.

De acordo com a Statista, existiam já 18 700 espaços de coworking em todo o mundo em 2019, e, segundo o estudo Global Coworking Growth Study 2020, pela Coworking Resources em parceria com a Coworker.com, estima-se que este número ultrapasse os 40 mil em 2024.

O Heden, em Santa Apolónia, veio trazer algum fulgor à zona.

Especialmente as empresas tecnológicas – habituadas a lidar com outros métodos de trabalho mais digitais – já procuravam espaços como o Heden. E havia muitas que queriam abrir escritório em Portugal. “Isso dita um bocadinho a nossa adaptação”, explica o fundador. “Claro que há nómadas digitais, mas o negócio não é realmente sustentável se não houver empresas como âncoras, porque há muita volatilidade com freelancers e nómadas”. Entre esses clientes a Heden conta hoje com empresas como a Grover, Gympass e Loggi. “As empresas obrigaram-nos a crescer, a suprir as necessidades de espaço”.

O problema com o qual depararam numa fase inicial prendeu-se mesmo com esta nova procura: o primeiro espaço da Heden, por se situar na Graça, não era central, nem acessível por transportes, e portanto não tão atrativo para estas empresas. Depois veio o espaço no Chiado, no Largo Bordallo Pinheiro, pertencente ao Clube Português de Artes e Ideias, que – quis o acaso – andava à procura de um inquilino.

Entretanto, com a procura de cada vez mais empresas tecnológicas estrangeiras, a Heden abria, em 2019, um espaço no Intendente dedicado a uma empresa só, a alemã Marley Spoon. “Desenvolvemos o espaço em conjunto com eles”, explicita. E, não muito mais tarde, surgia a oportunidade de abrir espaço no Terminal de Cruzeiros.

Dar um novo uso ao edificado de Lisboa

Enquanto cria os seus espaços, a Heden reabilita os seus edifícios de acordo com as regras da sustentabilidade. Foi o que aconteceu com o espaço em Santa Apolónia, que dantes se encontrava absolutamente degradado.

O espaço de Santa Apolónia foi completamente reabilitado para a construção do Heden. Foto: Rita Ansone

“A lógica é encontrarmos espaços que possam ser reciclados. A cidade não precisa de nova construção, precisa de renovar o que já existe, recuperar o património que se tornou decadente”, diz Manuel Bastos com convicção, o que está mais do que confirmado pelos dados. Em 2020, o Expresso noticiava que Lisboa dispunha de 2970 edifícios totalmente devolutos – Manuel anda sempre à procura de novos para expandir o negócio.

“Encontrar espaços no centro da cidade, de fácil acesso, e que cubram uma zona para onde as pessoas se possam deslocar a pé, de bicicleta ou de transportes públicos” é o grande propósito.

Rossio, a nova paragem

A próxima paragem, por agora, é a estação do Rossio. A abrir em dezembro, vai ocupar a antiga sede da Uniplaces. “É o centro nevrálgico da cidade”, assume Manuel. Sim, e tem 1200 metros quadrados e capacidade para receber cerca de 160 pessoas. O investimento é de 400 mil euros.

O espaço do Heden em Santa Apolónia. Foto: Rita Ansone

As vantagens são muitas: a estação é, afinal, um ponto de chegadas e partidas, que facilmente atrai pela sua acessibilidade. Para além disso, dispõe de um hostel, o Lisbon Destination Hostel, e de um Starbucks, por onde geralmente andam só turistas, mas que também já agrega alguns jovens trabalhadores nas suas mesas. Até agora, as empresas confirmadas para ocupar o espaço são a Reaktor, a PinMeTo e a QualityMatch.

Quanto ao espaço da Graça, vai ficar dedicado a um coletivo de artistas plásticos, músicos e fotógrafos. Há planos para mais um projeto na capital, e discute-se a expansão da empresa para o Porto. O que faz todo o sentido, hoje, com as empresas à procura de lugares diferentes, a lutarem para atrair e reter talento, e com as cidades a tentar mudar de vida, a reinventarem-se.

A cidade – e a sua evolução – é muito importante para a Heden. “Não queremos ser estanques e viver só dos membros, queremos abrir o espaço à cidade”, garante Manuel.

Lisboa é a cidade que Manuel e László já tornaram deles, mesmo que as suas vidas tenham passado por diferentes países e continentes… Manuel diz que tem sempre os olhos postos no Tejo – a sua luz.

Atrás dele há uma nova cidade, de jovens que teclam nos computadores enquanto uma música de fundo, vibrante, pinta um novo cenário, que quer resgatar a velha Lisboa dos escombros.

Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 24 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *