1. O lixo

Olá vizinhos e vizinhas e bem vindo(a)s de volta.

Quem vos escreve é a Ana. Há dias, estava eu sentada no sofá da sala, a ler descansada um livro, quando o meu colega de casa irrompe pelo espaço, muito aflito: “Não reparaste em nada de estranho na tua cama, pois não?”

Eu abanei a cabeça, tanto quanto sabia estava tudo bem com a minha cama. Mas não estava com a dele.

Todas as manhãs, ele acordava com estranhas borbulhas no corpo. Primeiro, pensou que fossem mosquitos, mas por muito que se assegurasse que as janelas e as portas estavam bem fechadas à hora de deitar, no dia seguinte acordava com mais manchas vermelhas nos braços.

Era um mistério.

A resposta, veio a descobrir, estava debaixo do colchão: não eram mosquitos, mas antes malditos percevejos.

Mal ouvi isto, corri ao meu quarto, à procura dos bichos sugadores. Felizmente livrei-me da praga. Livrei-me eu, mas não se livrou Lisboa.

Foi sobre isto que escrevi na semana passada. O lixo. Procurei respostas para um dos grandes problemas da cidade e o que certamente estaria na base dos problemas do meu colega de casa.

Falhas na recolha, atrasos nos contratos de delegação de competências entre a Junta e a Câmara, turismo, falta de civismo nas ruas. E, claro, ratos, baratas e percevejos. Podem ler tudo aqui:

2. A limpeza

A Catarina Reis andava pelo Bairro Branco, no Beato, à procura de uma história, e como sempre acontece em Lisboa, encontrou outra.

Esta:

Nesta história vemos como a cidade ainda se move a diferentes velocidades: para alguns, o grande problema são os contentores a abarrotar, na rua. Para outros, é a falta de um banho, em casa.

Foi sobre estas últimas pessoas que a Catarina Reis escreveu. Cândido e Maria Rosa mudaram as suas vidas com um simples banho graças ao balneário da associação Viver Melhor no Beato.

Ao ler a história dela pensei também como as desigualdades ainda subsistem em Lisboa: para o meu colega de casa, não foi difícil livrar-se dos percevejos. Contratou uma equipa de desparasitação que fez do quarto dele estufa e matou os bichos.

3. As bicicletas

Continuei a pensar nisto, com a reportagem que publicamos hoje: pedalar numa bicicleta não é igual para todos em Lisboa:

Foi ao percorrer as ruas de Chelas com Andrea, advogada que se desloca de bicicleta da Baixa a Chelas. Neste bairro faltam ciclovias, bicicletas Gira e trotinetas elétricas.

Como podem os seus moradores encontrar alternativas para se mover pela cidade? Eles, os que mais precisam. Se as áreas centrais da cidade beneficiam dos sistemas de partilha e de mais rede de ciclovia, por que é que os moradores destes bairros continuam a ser excluídos?

4. E uma conclusão comum

Por onde começar para ter uma cidade mais justa?

Talvez por aqui mesmo: garantido ruas limpas, corpos lavados e as mesmas oportunidades de mobilidade.

Ontem à noite, quando regressava do trabalho, decidi vir de Gira para casa. Ao deslizar pela ciclovia que vai dar a Santa Apolónia, apercebi-me de como é libertador ter uma bicicleta mesmo à mão. E do meu privilégio.

Já pensou qual é o seu?

Tenha um bom fim-de-semana!

– Ana da Cunha

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