Olá e bom dia da cidade, caro Vizinho ou Vizinha!

Nunca tinha ido às Marchas, confesso já. Não nasci num bairro popular, não sou fã da estética nem da música tipo charanga. Mas este ano algumas coisas conjugaram-se para a estreia, e vieram de lugares diferentes.

  • Primeiro o entusiasmo culto da Maria José Oliveira, cronista da Mensagem, investigadora e jornalista, ferrenha habitante de Alfama, super fã de Lisboa, das marchas e da sua história. Comecei a perceber que há muito do que é Lisboa nesta tradição – sim, já sei que é recente e tal.
  • Depois, a despudorada paixão do António Brito Guterres, pelo seu Alto do Pina – se ele, que é um insuspeito progressista, percebeu que há aqui qualquer coisa, talvez haja mesmo.
  • Mais ainda: o excelente novo disco do Pedro Mafama, inspirado nas Marchas, ele, que foi o autor da de Alfama. Dei por mim a bater o pé e a dançar com a alegria descoberta de que ele tanto fala na entrevista que deu à Mensagem. Sim, e se a música portuguesa não fosse só triste? Mafama está a recuperar a música popular portuguesa na melhor tradição do que fez Zeca Afonso ou Fausto ou José Mário Branco. E nisso a ensinar-nos a amar-nos melhor a nós próprios, como somos, sem vergonha.
  • Depois tivemos a marcha do Bairro Alto na apresentação do livro de BD do Ferreira Fernandes e do Nuno Saraiva – ele que desenha os troféus das Marchas.
Nuno Saraiva com o troféu do ano passado. Foto: Ines Leote

Tudo culminou num convite da Câmara de Lisboa para que a Mensagem assistisse às Marchas deste ano na tribuna do júri e da Presidência. E porque não? Dei por mim a divertir-me e a emocionar-me a sério. Estarei a ficar velha?

Talvez, mas quem olha a realidade com o coração não pode deixar de mover-se com a garra dos que passam meses das suas vidas na construção daquilo que é, no fundo, uma homenagem à cidade.

Ou melhor dizendo: na construção de uma cidade. De momentos comuns. Entre os que assistem – e eram muitos na Av. da Liberdade – e os que constroem esta homenagem. Na bancada, uma mistura saudável de representantes de partidos e de presidentes de Juntas de várias origens, VIPS, estrelas da música, atores, produtores, etc.. E até a D. Dolores, mãe do Cristiano Ronaldo.

A Mrcha do Bairro Alto no evento da Mensagem da Feira do Livro. Foto: Inês Leote

E a desfilar, os que dedicam horas das suas vidas a isto. Cada detalhe de uma saia, os arcos, a imaginação dos passos, tanto amor, dedicação. E, nisso, meses e meses de trabalho conjunto. De civismo – por muito aguerrida que seja a disputa, é isso. E falo aqui da raiz da palavra – civismo. Trabalho de cidadãos que são parte e constroem uma cidade. A cidade que não é alcatrão ou apenas ciclovias. É a cidade das pessoas, de carne e osso. Aqui, nestas marchas a que assisti embevecida, de ponta a ponta, está essa cidade.

E não é uma qualquer, é Lisboa. A Maria José Oliveira explica ao longo da sua cobertura no twitter, que a Mensagem partilhou toda a noite de ontem, como é isso, historicamente. E aquilo que vemos, nos figurinos e na história que as marchas contam, é o presente de Lisboa.

O orgulho mas também as dores e mágoas. Não é à toa que as marchas que ganharam a melhor letra, Bica, com Um Cantinho para a Gente (de Tiago Torres da Silva, letrista de truz), e Alfama, com A Sina do Estivador (lá está, de Pedro Mafama) falam da mudança dos bairros tradicionais, onde já quase não consegue morar quem marcha.

Daqui não saio daqui ninguém me tira, dizia o cartaz que Alfama trouxe. A Bica tinha corações trespassados por chaves de casas.


É uma mudança rápida com que não estamos a saber lidar, nem combater, nem abraçar. Marchas de protesto, essa talvez seja também uma novidade, o que de certa maneira dá conta da vitalidade desta tradição.

Inependentemente dos julgamentos sobre a cidade que está a ser criada, era interessante que as marchas, além de protestarem, se abrissem à mudança. Seria pedir muito, talvez, aos que vêm os seus bairros irreconhecíveis e isso dói-lhes. A Mensagem deu conta do despejo ds coletividades na Bica, por exemplo.

Mas haverá certamente como fazê-lo, segundo as regras naturais do adapta-te ou morres. Algumas dessas mudanças têm a ver com o abraçar da diversidade, com entrada de novos vizinhos, de todas as cores e feitios, dos loiros aos morenos, com integração de populações, com presença de outros bairros, com qualificação e inovação: social, humana, urbana, artística. É bom para as Marchas e é bom para a cidade. E também para a construção de comunidades.

O que gostaríamos de ver a desfilar também era essa Lisboa misturada, a vários níveis.

A que está no metro e não na bancada VIP, e pouco ainda, nas marchas na Avenida. Este ano, o Alto do Pina deu o exemplo com o seu “O amor entre o povo e a fidalguia”, cujo tema era a integração da comunidade cigana, muito presente nessa zona da cidade.

Essa, uma das muitas Lisboas Crioulas. Olha, aí está um belo tema para o ano, cara Egeac, caro Carlos Moedas: Lisboa Crioula. Deste lado pode contar com total apoio da Mensagem.

Catarina Carvalho

Co-fundadora e diretora

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