Houve um tempo em que o Cinema lançava modas e alterava comportamentos. Temido por ditadores e outros agentes da moral pública e privada, tinha a arte de pôr as mulheres a fumar como Bette Davis e os rapazes a copiar os gestos rebeldes de Marlon Brando e James Dean. Até os furiosos dramáticos, que preferiam o palco a qualquer outro espetáculo, acabavam por ceder à sedução do grande ecrã, como acontece à personagem de Chico, na popular comédia de António Lopes Ribeiro, O Pai Tirano. Apaixonado pela jovem Tatão, caixeira na Perfumaria da Moda e impenitente cinéfila, Chico, que era a “estrela” no grupo dramático Os Grandelinhas, mostra-se disposto a tudo pela sua amada. Até ao que, para ele, era o maior dos sacrifícios: “E eu que não gramo as fitas, era capaz de ir contigo ao Éden”.

Inaugurado em 1937, o Éden, exemplo da arquitetura de Cassiano Branco, que o desenhou, encerrou portas na derradeira noite da década de 1980. Mas no meio século em que esteve de portas abertas, com os seus enormes cartazes, pintados à mão, a dominar a Praça dos Restauradores, foi um dos vários palácios do Cinema que faziam as delícias dos cinéfilos lisboetas. Acompanhavam-no, nessa galeria de luxo, Monumental, Império, Condes, Tivoli, Alvalade ou São Jorge. Lugares onde a cenografia do espaço exterior e interior anunciava já a entrada numa dimensão maior do que a vida.
Esta realidade sociológica parece ter ficado arrumada no século XX.
Em 2025, o setor da exibição cinematográfica em Portugal atingiu números críticos, com 10,9 milhões de espectadores, o que representa uma quebra de 8,2% em relação a 2024, no que é o número mais baixo do século, excluindo os anos da pandemia. Esta descida representa o pior registo desde 1996, com as receitas a sofrerem uma redução de 3,9%, fixando-se nos 70,5 milhões de euros.
Nuno Sena, subdiretor da Cinemateca Portuguesa, compreende o alarme causado por estes números, mas adverte para o facto de estes traduzirem, afinal, uma crise que se anunciava há muito.
“A partir dos anos 1990 apostou-se numa modalidade de exibição que opera como os eucaliptos nos pinhais: Seca tudo à volta. Com a maior parte das salas concentradas em centros comerciais, apostou-se nos blockbusters norte-americanos, deixando o cinema independente para um nicho cada vez mais restrito. O problema é que agora a crise também chegou aos blockbusters.”
Nuno Sena, Cinemateca
Ante este cenário, Nuno Sena admite que é difícil recuperar público para as salas, numa época em que o acesso ao Cinema se divide por numerosas plataformas de streaming e suportes de home cinema.
Mas acredita que há sinais de esperança: “É notável o trabalho que muitos cineclubes fazem em prol da exibição em sala. O mesmo se pode dizer de alguns exibidores independentes, como a Medeia ou a Midas, que têm apostado em programação diferenciada como modelo de negócio.”
A estes exibidores, podem juntar-se ainda dois cinemas históricos, tutelados pela Câmara de Lisboa, que apostam numa programação alternativa. São os casos do São Jorge e do Roma.
O Cinema São Jorge, tutelado pela EGEAC, aposta claramente em festivais como a Monstra, a Festa do Cinema Italiano, o DocLisboa, o Queer Lisboa ou o MotelX, entre outros, e em sessões especiais, com sucesso, como demonstram os 162.411 espectadores registados em 2024.
É um dos poucos palácios do Cinema que restam na capital e foi recentemente classificado pela Time Out UK como uma das 100 mais belas salas do mundo. Lista em que também surge a Cinemateca portuguesa.

O Roma, por sua vez, tem vindo a ser dinamizado com temporadas de exibição de clássicos a cargo de um grupo de cinéfilos autodesignado Cine Pop. Uma boa notícia para quem frequentou ambas as salas na infância.
Inaugurado em 1957, o cinema Roma é indissociável da expansão urbana e social dos bairros de Areeiro e Alvalade, onde também surgiram salas históricas como o Londres ou o próprio Alvalade (hoje em funcionamento, depois de anos de abandono e, finalmente, de remodelação). Dotado de ecrã panorâmico de 14 metros e mais de mil lugares, foi, ao longo de décadas, uma das salas nobres de Lisboa.
Cinema Nimas e Ideal: o sucesso da programação diferenciada
Em Lisboa, o Nimas parece navegar em contraciclo, tal como acontece, aliás, com o Cinema Trindade, no Porto. Localizado na Avenida 5 de Outubro, o Nimas foi inaugurado a 10 de Outubro de 1975 (ano em que foram também abriram os Cinemas Quarteto e Cinebolso) e é explorado desde 1993 pela Medeia Filmes, beneficiando da experiência anterior de Paulo Branco como exibidor numa sala com as mesmas características, em Paris.
António M.Costa, da Medeia fala-nos de 88.512 espectadores em 2025, o que representa um crescimento de 31,5% face a 2024. “Temos vindo a subir há vários anos. Vínhamos com uma dinâmica muito boa anterior ao confinamento imposto pela COVID e acabámos por não sofrer demasiado com a pandemia.”
O modelo de exibição difere um pouco do tradicional: “Hoje temos, grosso modo, cinco sessões por dia, sem que algum filme se repita no mesmo dia. Além disso, apresentamos filmes em estreia e ciclos temáticos sobre cineastas clássicos, nacionais e estrangeiros. Julgamos interessante que a produção atual se confronte com a História do Cinema.”

Neste tipo de programação, há títulos que nunca falham (António M. Costa fala de Paris, Texas, de Wim Wenders e de O Leopardo, de Luchino Visconti, que esgotam sempre), mas também há riscos assumidos e boas surpresas.
É o caso do recente ciclo dedicado a João César Monteiro: “Muitas sessões têm estado a esgotar, frequentadas também por um público novo, que não era nascido quando estes filmes estrearam. Vêm mesmo às sessões de sábados e domingos, que começam às 10.30 e 11 horas da manhã. Além disso, temos um público que se foi fidelizando.”
E acrescenta: “Apostamos na redescoberta de filmes e realizadores que, muitas vezes, não tiveram a devida visibilidade na altura da estreia. E, de repente, temos filmes difíceis, como Barry Lindon, do Kubrick, que tem mais de três horas de duração, e Branca de Neve, do João César Monteiro, em que o écran está quase sempre a negro, com salas cheias e muito atentas ao que estão a ver.”
Neste momento, a programação do Nimas põe em confronto dois cineastas franceses pouco conhecidos em Portugal: Jean Eustache e Philippe Garrel, seguindo-se, no Verão, a obra integral de Agnès Varda, Michael Haneke e, no último trimestre de 2026, Otar Iosseliani.

Gentrificação e streaming: os grandes inimigos da sala de cinema
Longe dos multiplexes dos grandes centros comerciais está também o Cinema Ideal, da Midas Filmes, dirigida por Pedro Borges. A meio caminho entre o Chiado e o Bairro Alto, este cinema de portas abertas para a rua do Loreto funciona num dos primeiros lugares do país reservado à exibição cinematográfica, já que aqui, em 1904, foi inaugurado o Salão Ideal.

Depois de várias encarnações (em que foi Cine Camões e Cine Paraíso), o Ideal abriu no final de Agosto de 2014. Pedro Borges conta que, depois disso, “houve 5 anos normais até à pandemia. 2019 foi o nosso melhor ano, com 41 900 espectadores. Estamos em 2026 e ainda não voltámos a esse número.”
A esta dificuldade não é estranha a gentrificação desta zona da cidade. Pedro Borges conta-nos como aqui tudo mudou depressa demais: “Em 2012 havia muita gente que morava ou trabalhava no Chiado ou no Bairro Alto, a que se somavam os lisboetas que vinham passear ao fim-de-semana. Hoje, os portugueses evitam esta zona: os restaurantes de sempre fecharam, os alfarrabistas também. Em 10 anos, perdeu-se mais de 30% de eleitores. Agora, só há turistas e estes não vêm ao Cinema.”

Apesar do preço cobrado por esta falsa centralidade, o exibidor considera que consegue “ter uma operação equilibrada, mas sempre com escolhas muito ponderadas porque é um facto que os filmes, em geral, têm menos espectadores e, por isso, têm de rodar mais depressa. São duas coisas que estão a acontecer por todo o lado, mas não sei se serão saudáveis a médio e longo prazo.” Para prolongar as carreiras dos filmes, ao mesmo tempo que diversifica a oferta, o Ideal aposta, por isso, em sessões alternadas.
Pedro Borges está, no entanto, consciente do desafio que é renovar o público que vê cinema em sala: “A média etária dos nossos espectadores está na casa dos 40 anos. São pessoas que se habituaram a ir ao Cinema nas décadas de 1990 e 2000 e que continuam a vir. Os mais novos não têm esse hábito.”
Ao longo destes anos, o Ideal tem estreitado a colaboração com a junta de freguesia da Misericórdia, através de atividades pedagógicas para crianças e séniores. Recentemente, a junta “lembrou-se de ajudar na aquisição de um novo projetor, sem que tenhamos pedido alguma coisa”, sublinha Pedro Borges. “Isto tinha sido conversado com o Instituto do Cinema e do Audiovisual, mas o apoio que acabaram por nos propor não era suficiente, contra toda a razoabilidade. Recordo que é nesta sala que os produtores e realizadores vêm fazer testes dos seus filmes, desde grandes nomes até miúdos das curtas-metragens. Não cobramos o serviço, é algo que estamos a fazer em prol do do Cinema português. Julgo que também por isso merecíamos outro tratamento por parte do Ministério da Cultura.”
O papel da Cinemateca na renovação de públicos
“Foi na década de 1980 que o cinema perdeu a sua hegemonia nos consumos culturais”, diz-nos Nuno Sena, subdiretor da Cinemateca, demonstrando, assim, que a perda de espectadores não é um fenómeno novo. “Houve uma primeira crise nessa época, quando surgiu o vídeo. Esse fenómeno dizimou centenas de salas em todo o país, arrastando consigo todo um ecossistema relacionado com aquela sala, sobretudo nas pequenas e médias cidades. Com o cinema, fechava também o café ou o restaurante frequentado por espectadores antes e depois das sessões.”

Em Lisboa tanto fecharam “grandes salas como cinemas de bairro.” Foi a época em que a cortina desceu para sempre em autênticos palácios como o Monumental, Éden, Europa ou Roma. Alguns, como o Império ou o Condes, arrastaram-se durante mais algum tempo num prelúdio de morte. Mas também os cinemas de bairro, como o Royal Cine, na Graça, foram substituídos pela comodidade das cassetes alugadas no clube de vídeo.
“Nos anos 1990 – conta Nuno Sena – houve um crescimento exponencial das salas de Cinema nos grandes centros urbanos, através dos multiplexes em centros comerciais. Mas foi um falso crescimento porque a desertificação cinematográfica do país não foi estancada. Dou-lhe o exemplo de uma cidade como Silves, onde não há uma sala de Cinema há 45 anos. Mas há muitas mais nessas condições.”
Além da concentração geográfica, o que este tipo de exibição favoreceu foi o cinema mais comercial, sobretudo o de origem norte-americana, em detrimento de outras cinematografias, “que se tornaram mais de nicho.” Mas hoje até esse modelo está ameaçado, como evidenciam os números de 2025. “As salas comerciais são um desastre. Mesmo os multiplexes passaram a ter menos sessões e menos écrans. Podemos lamentar o que aconteceu recentemente às salas NOS do Alvaláxia, mas a verdade é que não estavam a fazer um bom serviço ao Cinema, já que tinham afunilado muito a oferta.”
Na origem desta queda está, para o subdiretor da Cinemateca, a não renovação de públicos. “Os miúdos encontram em streaming tudo o que há. O Cinema está, por isso, a perder terreno para outras formas de entretenimento.” Mesmo admitindo que as condições técnicas não são comparáveis às do espetáculo em sala (“sou da geração que saía assoberbada depois de ver Star Wars a 15 metros de altura, no segundo balcão do Condes”, lembra), Nuno Sena esclarece que “já existem sistemas de home cinema bastante razoáveis”, que permitem uma experiência de emersão total no filme.
Em resultado desse afunilamento, o cinema de autor há muito que vinha perdendo espaço: “Nos anos 90, qualquer filme de Pedro Almodóvar fazia facilmente 100 mil espetadores em Portugal. Quando comparamos com a bilheteira dos últimos três filmes dele, os números são incomparavelmente mais baixos.” O mesmo é válido para o Cinema português: “Um cineasta como Manoel de Oliveira, no auge da sua produção, nos anos 90, quando realizava um filme por ano, fazia qualquer coisa como 50 mil espectadores. Hoje, nenhum filme português pode almejar mais de 5 mil pessoas em sala.”
Nuno Sena não pensa, todavia, que este seja o fim dos tempos para o Cinema de sala. No inferno dos números de 2025, encontra alguns sinais de esperanças: “Vejo de maneira muito positivo o trabalho desenvolvido por pequenos exibidores independentes, mas também o esforço feito em vários pontos do país pelos cineclubes. Por outro lado, festivais como o Indie, o DocLisboa ou as festas do cinema francês e italiano têm visto crescer o número de espectadores.”
Acreditando talvez que ninguém é bom juiz em causa própria, Nuno Sena não acrescenta o papel desempenhado pela Cinemateca Portuguesa, mas vai dizendo que 2025 foi o melhor ano em termos de espectadores desde 2011. “Procuramos ser um farol para a atividade. Neste momento, já dispomos de um catálogo de filmes portugueses, devidamente restaurados, que está disponível para exibidores de todos os pontos do país.”
Na Cinemateca Júnior, aposta-se, por outro lado, na tão falada renovação dos públicos: “É também aqui que temos notado a diminuição dos hábitos de ver Cinema em sala”, diz Nuno Sena. “Muitos dos alunos do 1º ciclo, que vêm aos nossos programas com escolas, dizem-nos que esta é a sua primeira ida ao Cinema. Quanto muito, só viram filmes de animação. Isto era impensável há 15 ou 20 anos.”
Estaremos diante do fim do ritual da ida ao Cinema, substituíndo, assim, o ato comunitário de atenção focada no grande écran pelo zapping, tendencialmente mais individualista, a partir do sofá? Ou, pelo contrário, voltaremos àquilo a que Herberto Helder chamou as “comunidade das pequenas salas de cinema, não muita gente, e a que houver tocada em cheio como o coração tocado por um dedo vibrante, tocada, a pequena assembleia humana, por um sopro noturno, uma ação estelar”?
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*Artigo atualizado a 12 de março de 2026, com informação relativamente ao cinema São Jorge

Maria João Martins
Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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