Cinemas de bairro ou cinemas piolho. A história de Lisboa confunde-se com a destes lugares: salas de cinema já distantes do centro da cidade, algumas delas bastante precárias, até onde chegavam as fitas dos filmes estreados nos grandes edifícios da Baixa. Lugares de convívio, ponto de encontro para os fregueses dos bairros que sonhavam com as cenas de James Stewart ou Bruce Lee. É sobre eles o novo documentário da Mensagem, produzido por Ana da Cunha, realizado por Inês Leote, com o apoio da bolsa Lisboa, Cultura e Media da Lisboa Cultura/CML.

Um projeto que conta com testemunhos inéditos, como o de Vítor Oliveira, que viveu dentro do velho Cinema Paris, em Campo de Ourique, “durante seis, sete anos”. “Os funcionários eram a minha família”, conta. Talvez por isso se tenha tornado projecionista.
Recuemos até Paris, em 1895. Foi nessa data que os irmãos Lumière projetaram, pela primeira vez na história, imagens em movimento no Salon Indien du Grand Café. O público recebeu com espanto tal invenção, assustando-se até com o comboio em movimento que surgia no grande pano. Um ano depois, em Lisboa, foi a vez do animatógrafo estrear-se no Real Coliseu de Lisboa, na rua da Palma.

Desse dia em diante, novos operadores e máquinas foram aparecendo na Baixa da cidade, em salas como o São Luiz ou o Teatro D. Amélia. Mas o cinema não ficou confinado ao eixo Baixa-Chiado.
Os cinemas piolho surgiam na Mouraria, na Penha de França, no Alto do Pina, em Campo de Ourique, em Alcântara… O primeiro deles abriu portas entre 1915/1916 em pleno Martim Moniz: o Salão Lisboa. Em 1932, escrevia-se na revista O Cinéfilo:
“O ‘Salão Lisboa’, o popular cinema da Rua da Mouraria, reputado, e com razão, um dos mais típicos e curiosos da capital, constitui a alegria das classes pobres do referido bairro. Todas as noites se esgota a sua pequena lotação, sobretudo quando nos seus programas figuram filmes de aventuras.”
Por trás dele, dois empreendedores: Henrique O’Donnell e Victor Alves da Cunha Rosa, que se tinham conhecido enquanto trabalhavam na Companhia dos Tabacos. O cinema já não era novidade para eles: quatro anos antes, tinham inaugurado, em conjunto com Leopoldo O’Donnell, o cinema Olympia, no n.º 27 da Rua dos Condes.
Victor Alves da Cunha Rosa estaria envolvido na exploração de várias salas deste género ao longo do século XX. São exemplos disso mesmo o Cinema Paris, em Campo de Ourique, e o Salão Portugal, na Ajuda. Mas havia muitos mais espalhados pela cidade, como o Cinema Popular, em Marvila, o Cinema Lys, na Avenida Almirante Reis, o Cine Rex, na Mouraria, o Cinema Imperial, em Arroios, e o Cine-Éden, em Alcântara.
Espaços que foram fechando, e muitos deles votados ao abandonado, com a disseminação da televisão e o surgimento dos cinemas nas grandes superfícies comerciais.
No ano passado, o Salão Lisboa, que tinha sido convertido numa loja de tecidos, foi posto à venda pelos seus mais de 100 herdeiros. Entretanto, o Cinema Paris mantém-se uma ruína, que aguarda uma solução há anos. O Cinema Popular foi demolido, e ainda é possível ver-se os destroços junto a um posto de bombeiros. O Salão Portugal está hoje ocupado pelo Comité Olímpico de Portugal. O Cine-Éden é um edifício abandonado e os moradores dizem que poderá ser transformado num hotel.
Veja aqui o documentário da Mensagem:
Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Arquivo: blogue Restos de Colecção e Youtube

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

Inês Leote
Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 23, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. É fotojornalista e responsável pelas redes sociais na Mensagem.

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