Os nove idealizadores do Alvalade Cineclube posam diante da nova "casa", a sala Fernando Lopes, na Universidade Lusófona: novidades para 2022. Foto: Inês Leote

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Para nove cinéfilos lisboetas, a magia do cinema não termina quando se acendem as luzes da sala de exibição. Nem a magia nem o trabalho.

Amigos de longa data, Sónia Trincheiras, Bruno Castro, Ana Pinto Gonçalves, Cláudia Lomba, Sofia Machaqueiro, Julieta Pracana, João Borges, Inês Bernardo e José Mário Silva são as estrelas do Alvalade Cineclube, um projeto concebido com as pretensões de uma curta-metragem, mas que após dois anos cresceu e agora programa uma sequela com espírito arrasa-quarteirão.

Os criadores do Alvalade Cineclube no conforto da nova casa. Após dois anos, a nova temporada promete. Foto: Inês Leote.

Até dezembro, o cineclube ocupou o teatro do Centro Cívico Edmundo Pedro, um simpático prédio de arquitetura modernista, antiga sede da Junta de Freguesia de Alvalade e hoje um centro de convivência comunitária. A reforma programada para o espaço, entretanto, forçou uma mudança de morada e a partir de 13 de janeiro as sessões semanais acontecem na sala Fernando Lopes, na Universidade Lusófona.

A sala Fernando Lopes abrigará os futuros ciclos do cineclube, Foto: Inês Leote.

A mudança não representa apenas uma alteração de cenário. “Pretendemos fazer deste desafio uma oportunidade e dar um passo à frente”, adianta o gestor de projetos Bruno Castro, um dos nove fundadores do cineclube. O guião para a nova temporada prevê o retomar das sessões infantis aos domingos e a criação de uma campanha de fidelização de sócios para ajudar a cobrir os custos operacionais.

A memória dos cinemas de rua

Concebido a “dezoito mãos”, o cineclube não está em Alvalade por acaso. Todos os nove integrantes viveram no bairro em alguma fase da vida – quatro ainda vivem – e guardam lembranças afetivas da freguesia, além das memórias das tardes de cinema numa das várias salas que se estendiam pela avenida de Roma.

Entre elas, o mítico Cine Alvalade, na esquina com a avenida dos Estados Unidos da América, próximo de outro ex-libris do bairro, o café Vá-Vá. Aberto na década de 1950, com lotação para 1.485 espectadores, o espaço funcionou até meados dos anos 1980, quando os cinemas dos centros comerciais começaram a “matar” as salas de rua.

Destino semelhante conheceram outros cinemas, como o Quarteto, na vizinha rua Flores de Lima, e os cine Vox (depois, King), Roma e Londres, já nos limites com o Areeiro. Atualmente, há apenas um cinema de rua em Alvalade, o Cinema City, com quatro salas a funcionar desde 2009, no número 100 da avenida de Roma.

“O cineclube nasceu para manter viva a tradição lisboeta dos cinemas de rua, de bairro”, conta Bruno. Isso em parte explica a principal estratégia de divulgação dos filmes, através de cartazes fixados em cafés e demais estabelecimentos comerciais de Alvalade, para além das postagens nos perfis do cineclube no Facebook e Instagram.

A atmosfera do cineclube de ponto de encontro entre os vizinhos confirma-se pela familiar repetição de rostos a cada sessão ou quando um dos cineclubistas é reconhecido por um dos frequentadores durante um passeio pelas ruas de Alvalade. “Apesar disso, há pessoas que vêm da Margem Sul, por exemplo. Além dos estrangeiros, é claro”, explica Bruno.

A expetativa dos cineclubistas é a de que os frequentadores fiéis acompanhem a mudança para a sala de cinema Fernando Lopes

Os estrangeiros, aliás, encontram no Alvalade Cineclube a possibilidade de assistirem a uma sessão de cinema mesmo sem o domínio completo da língua portuguesa. Como muitos filmes passam ao largo do circuito comercial de Portugal, às vezes chegam à programação com legendas noutros idiomas, como o inglês ou o francês.

Os cineclubistas Bruno e Inês: em nome da memória dos cinemas de rua. Foto: Inês Leote.

Foi o caso da longa E a vida continua, que fechou o ciclo “Godard vai morrer”, o último de 2021, uma produção iraniana do realizador Abbas Kiarostami, legendado em inglês. “Às vezes, é a única opção para um casal composto por um cinéfilo português e um estrangeiro de irem ao cinema juntos”, comenta Bruno.

A expetativa dos cineclubistas é a de que os frequentadores fiéis acompanhem a mudança do cineclube do teatro do Centro Cívico Edmundo Pedro para a sala de cinema Fernando Lopes, na Universidade Lusófona. “Há sempre um risco, mas penso que as pessoas entenderão e vão aprovar as vantagens da nova casa”, aposta Bruno.

As vantagens da nova “casa”

As vantagens da nova “casa” são realmente uma boa aposta. Se o centro cívico teve o mérito de reconhecer o valor do projeto e abrigá-lo durante os primeiros dois anos, o cineclube precisou de lidar com algumas restrições inerentes a um espaço pensado para ser um teatro e não um cinema, o que de certa forma é a razão da reforma.

A reportagem acompanhou a última sessão na antiga casa e percebeu as limitações na acústica da sala e no sistema de som – na qualidade e no volume – e testemunhou o esforço de uma das cineclubistas ao operar o projetor do tipo datashow para acionar o ficheiro com o filme. Um pormenor que nestes dois anos em nada desmotivou os organizadores, cientes do perfil “guerrilha cultural” do cineclube.

“O tempo no centro cívico foi fantástico, mas a verdade é que agora estamos realmente numa sala de cinema”, reconhece Bruno, em relação à nova casa. Para já, as projeções estarão a cargo de um profissional da universidade, a partir de um projetor igualmente profissional. A sala Fernando Lopes também tem a acústica própria para a exibição audiovisual e as poltronas são mais confortáveis do que as cadeiras do teatro.

Sem falar na ampliação da capacidade, já que o número de assentos duplicou, de 80 do teatro para os 160 lugares do cinema.

Os herdeiros de Fernando Lopes

Para além das vantagens técnicas e ergonómicas, a mudança tem para dois dos cineclubistas um sabor especial: os irmãos Sofia Lopes Machaqueiro e João Lopes Borges são netos do realizador Fernando Lopes, que dá nome à sala de projeção da Universidade Lusófona.

“A escolha do local foi uma coincidência, mas não deixa de ser um orgulho”, diz Sofia, posando ao lado do irmão e dos filhos, Carmo e Vasco, diante da efígie do avô estampada na entrada da sala.  “O meu avô aprovaria o cineclube. Ele nunca deixou de partilhar conhecimento. Sempre que um estudante de cinema o parava, na rua ou num café, pacientemente conversava, ouvia, explicava algo, tirava uma dúvida”, recorda-se.

Sofia, o irmão Pedro e os netos Carmo e Vasco: ADN cinematográfico no nome que batiza a nova casa do cineclube. Foto: Inês Leote

Nem Sofia nem o irmão, entretanto, assistiram a filmes na sala que ostenta no nome o ADN dos seus apelidos. “É uma falha, mas agora não faltarão oportunidades”, diz a neta que na infância ia ao cinema na companhia do avô. Neste sentido, o cineclube pode tanto ajudá-la a corrigir a tal “falha” como lembrar-se das matinées em família.

Afinal, a sala Fernando Lopes abriga a memória de uma das grandes “catedrais” da sétima arte em Lisboa, o cine Monumental.

“As poltronas e o projetor vieram da sala 2 do cinema, graças a uma parceria com o produtor Paulo Branco”, revela o professor e diretor do departamento de cinema da Lusófona, José Manuel Damásio.

As poltronas da sala Fernando Lopes são uma herança do cinema Monumental, uma das “catedrais” da sétima arte em Lisboa. Foto: Inês Leote

Damásio explica que a sala, inaugurada em 2019, foi aberta para que os alunos da graduação e pós-graduação em cinema da universidade pudessem assistir aos filmes que produziam durante o curso não no pequeno ecrã de uma televisão ou computador, mas na escala e condições profissionais de um grande ecrã.

A sala recebeu filmes de festivais como o Leffest e chegou a ter programação própria, interrompida pela pandemia, mas com promessa de ser retomada 2022.  Atualmente, acolhe um outro cineclube, de caráter académico e destinado aos alunos da instituição. “A chegada do Alvalade Cineclube reforça a vocação da sala como um espaço de debate, reflexão e amor ao cinema”, resume José Manuel Damásio.

Um novo ciclo para o cineclube

O Alvalade Cineclube estreia-se na nova casa com o início de um novo ciclo temático, “Vai Brasil?”, como o nome sugere, dedicado ao cinema brasileiro. Até o fim de fevereiro estão programados sete filmes, a começar por Cinema Novo, no dia 13 de janeiro, seguido de A Grande Cidade, Paraíso, Pendular, Terra em Transe, Indianara e Divino Amor (detalhes da programação no site do cineclube).

“Assim como acontecia na antiga casa, as sessões acontecem às quintas-feiras, a partir das 21h, seguidas de um debate”, explica a cineclubista Inês Bernardo, que ao lado de Bruno entrevistaram o realizador de Cinema Novo, Erick Rocha. “Por questões do fuso horário, não havia como tê-lo a participar por streaming, mas a conversa gravada servirá de mote para se debater com os presentes”, explica.

O ciclo dedicado ao Brasil, como os anteriores organizados pelo cineclube, exibirá filmes produzidos em épocas distintas, mas que costuram reflexões sobre o contemporâneo. Como foi o caso da série “Ai Portugal, Portugal”, focada no cinema português. “Queríamos olhar para as faces múltiplas do audiovisual em Portugal e acredito que conseguimos alcançar o objetivo”, explica Inês.

O ciclo sobre o cinema português contou nos debates com a participação de atores, produtores e realizadores dos filmes exibidos nas sessões, como Tiago Pereira, Cláudia Varejão, Stefan Lechner e Jorge Pelicano, “o que atesta o prestígio dos cineclubes entre os profissionais como um espaço para pensar o cinema. Para nós, foi um indício de que estamos no caminho certo”, diz Inês.

A série programada em “Vai, Brasil?” quer aproveitar o ano eleitoral brasileiro para perceber se o cinema produzido atualmente no país comunica com o Cinema Novo, o movimento audiovisual que marcou uma crítica ostensiva durante a ditadura militar. Não por acaso, o realizador que abre a série de debates, Erick Rocha, terá o seu filme exibido ao lado do icónico Terra em Transe, assinado pelo pai dele, Glauber Rocha.

A qualidade dos filmes apresentados nos ciclos exige capacidade de negociação do cineclube com as distribuidoras. “Muitas delas são sensíveis ao cineclubismo e facilitam a exibição, mas há sempre um custo envolvido”, explica Inês. Até então, o “custo envolvido” – entre 100 e 200 euros pelos direitos de cada filme – era repartido entre os nove integrantes, mas a intenção é de dar um passo rumo à uma rotina um pouco mais profissional.

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Para isso, a partir de janeiro a entreda ns sessões deixará de ser gratuita. “Passará a custar 2 euros para o público em geral e 1 euro para os sócios”, explica Inês. O desconto – extensivo também a um acompanhante do associado – é parte da estratégia de fidelização, que prevê ainda outras valias, como participar na escolha dos ciclos e dos filmes a serem exibidos no futuro.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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2 Comentários

  1. Excelente iniciativa, não podemos deixar morrer o cineclubismo . A Julieta é familiar do meu saudoso amigo Zé Pracana?

  2. Interessante notícia sobre um tema importantíssimo, a participação na criação da cidade. Parabéns aos cineclubistas. Contudo, de referir que o Cine City Alvalade se encontra no local onde anteriormente se situava o Cine(ma) Alvalade que não se localizava na esquina com a Avenida dos E.U.A. Mas sem na esquina da Avenida de Roma com a Rua Luís Augusto Palmeirim.

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