Crescer em frente a uma televisão pode parecer algo triste nos dias de hoje, e sinal de uma educação negligenciada, mas a minha infância coincidiu com um tempo em que reinavam poucas alternativas, e tudo o que a pequena caixa de maravilhas tinha para me oferecer despertava o meu deslumbramento.


Na passagem dos anos 1980 para a década de 90, a televisão era um dos meus principais refúgios nos tempos livres, e tive a sorte de crescer com a idade de ouro dos desenhos animados, alguns ainda hoje relembrados com muita nostalgia. Era também o tempo em que algumas das melhores telenovelas brasileiras foram exibidas em Portugal, baseadas em clássicos da literatura brasileira. E como não podia deixar de ser, os filmes eram uma presença constante, influenciando a minha forma de ver o mundo.


Na adolescência tiveram lugar alguns ritos decisivos que originaram o meu profundo amor pelo cinema. Tudo começou na rubrica 5 Noites, 5 Filmes na RTP2. Às vezes, as grandes paixões acontecem por mero acaso e esse acaso deu-se no dia em que apanhei La Dolce Vita de Fellini. Abalou-me por completo.

Desde esse instante, passei muitas noites felizes a conhecer pela primeira vez a filmografia de Hitchcock, Kubrick, Truffaut e outros realizadores da Nouvelle Vague. Não faltavam Bergman, Kurosawa, Kiarostami, filmes noir ou de horror de todas as décadas. Desfilava perante os meus olhos, todas as noites, uma Cinemateca em que me deixava fascinar pelas diferentes sensibilidades artísticas de alguns dos melhores realizadores do mundo.
Era inevitável dar o salto da TV para as imensas salas de cinema que existiam nesse tempo.

O cinema Pathé na rua Francisco Sanches. Foto: AML

Na infância, cheguei a conhecer o cinema Pathé na rua Francisco Sanches que encerrou portas em 1987. A fachada deteriorada ainda lá permanece desde então, mas ainda retenho a memória de ver a sua sala de projeção em criança. Residíamos perto do cinema Império, na Alameda, onde o meu irmão mais velho me levou a ver um filme de comédia repleto de cenas de pancadaria, tal era o amor do meu irmão por filmes de Karaté e Kung Fu. Recordo-me, na perfeição, do dia em que a minha escola nos levou a visitar o Império e nós, crianças, escapulimo-nos para espreitar a exibição de um filme numa das salas onde vimos, às escondidas, em grande esplendor cinematográfico, o rosto duro de Michael Corleone no Padrinho II.


Ainda me recordo dos cinemas Alfa, King e Londres, no Areeiro, com estes últimos dois a resistirem até à primeira década do milénio. O Quarteto, na mesma zona, tinha uma popularidade assinalável e foi no mítico São Jorge que vi o Parque Jurássico pela primeira vez, embora as minhas melhores memórias do São Jorge sejam mais recentes, após a sua remodelação e reabertura.

Mas se há sala que definitivamente me acompanhou ao longo de muitos anos em tantos bons momentos foi a sala 4 do Monumental. O edifício está atualmente a ser “gentrificado” e transformado numa imensa área de escritórios e espaço comercial, enterrando tantas memórias inesquecíveis. Nessa sala comecei a testemunhar uma forma diferente de fazer cinema, com os filmes de Paul Thomas Anderson e Quentin Tarantino a lançarem uma nova era.

As salas de cinema do novo Monumental também acabaram por fechar. Foto: D.R,

A Cinemateca na rua Barata Salgueiro foi uma aventura que apenas começou nos anos universitários. Admito que tinha uma ideia errada da Cinemateca, mas a programação eclética de Bénard da Costa conseguia sempre um equilíbrio entre a oferta mais comercial e artística, e foi lá que assisti, pela primeira vez num grande ecrã, à infâmia de Alex DeLarge em A Laranja Mecânica de Kubrick.

Entre a televisão e cinema, autoeduquei-me. Consumia tudo o que podia, ainda arredada da permanente ligação ao mundo digital.

Os meus valores, as minhas paixões, as minhas aspirações, mas também medos profundos, foram, de uma forma ou outra, moldados pelo que vi. E isso durou até ao momento do fecho de muitas salas, salas essas que estão indelevelmente associadas a etapas de crescimento, à semelhança da história que é contada em A Última Sessão de Cinema de Peter Bogdanovich.

No filme, a sala de cinema de uma pequena cidade da América profunda está em vias de fechar, devido à popularidade da televisão. E com o iminente fecho da sala, dá-se o fim da inocência de muitos dos adolescentes protagonistas que terão de seguir em frente com as suas vidas para destinos incertos.

Safaa Dib

Enquanto luso-libanesa, vive entre duas culturas desde que se lembra, mas Lisboa é onde assentou o coração. Desde muito cedo ingressou no mundo da edição de livros e divulgação literária. Nunca pessoa de se restringir a uma área só, é proprietária de um estabelecimento de cozinha libanesa em Lisboa e, nos últimos anos, ingressou na atividade política, sendo dirigente do LIVRE.

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