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Os grandes cartazes na fachada eram uma das imagens de marca do Cinema São Jorge. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Quando terminei o antigo ciclo preparatório, os meus pais compraram-me um vestido azul plissado, uns sapatos de verniz e fomos à matinée do São Jorge. No princípio dos anos 1980, a ordem destes fatores ainda não era arbitrária porque a esta sala de cinema não se ia como a todas as outras, sobretudo aos complexos multissalas que começavam a mudar a geografia da exibição cinematográfica na cidade.

Ou talvez a diferença de comportamentos já não fosse assim tão grande, embora na cabeça do meu pai ainda existisse aquilo a que um homem da sua geração, João Bénard da Costa (antigo director da Cinemateca e uma das pessoas que mais e melhor escreveu sobre Cinema em Portugal) chamava “as cenas da luta de classes nos cinemas de Lisboa.

“O São Jorge subiu ao topo da escala, sobretudo entre os alguém teenagers. Aos sábados, a segunda matinée – assinalável inovação com que o São Jorge perturbou os fins de tarde lisboetas e, até mesmo, a hora de jantar – passou a ser o único ponto de encontro de jupes longues e fatos príncipe de Gales, capaz de fazer concorrência à missa da uma nos Mártires ou na Estrela”, descrevia Bénard da Costa.

Fora assim desde a inauguração, a 23 de Fevereiro de 1950, noticiada pelo Diário de Lisboa: “A capital tem mais um cinema, o de maior lotação, São Jorge. Grandioso mas sóbrio, dotado de instalação de ar condicionado, confortável. As receitas provenientes do aumento do preço dos bilhetes de ontem foram destinados a obras de beneficiência, o que justificou uma parada de elegância.” 

O requinte manter-se-ia nas décadas seguintes, como recorda o jornalista e olisipógrafo Appio Sottomayor: “Na segunda metade dos anos 1950, 60 e ainda parte dos 70, havia por Lisboa duas qualidades de cinemas: os de estreia e os de reprise. Os primeiros eram, obviamente, mais finos.

Uma ida ao cinema à noite implicava uma certa toilette, especialmente se fosse dia de estreia de filme. São Luís, Tivoli, Império, São Jorge, Monumental e assim, chegavam a parecer paradas de elegâncias, quase como se fosse espectáculo de ópera em São Carlos!

Ora eu, contando geralmente os centavos, frequentava mais os cinemas de bairro: bilhetes mais baratos e exibição de dois filmes em vez de um eram atractivos suficientes. No entanto, quando num dos cinemas finos se estreava um daqueles filmes que um aprendiz de cinéfilo não quer mesmo perder, lá se sacrificavam as economias… E daí os meus primeiros contactos com o São Jorge.”

Um cinema construído de raiz 

A austeridade imposta pela Segunda Guerra Mundial não retirara popularidade ao cinema, mas fizera com que durante mais de dez anos não se construíssem novas salas de espectáculo na cidade: as últimas a ser inauguradas tinham sido o Éden Teatro, nos Restauradores, obra-prima do arquitecto Cassiano Branco (1897-1970), aberta em 1937, e o Cinearte, no mais remoto bairro de Santos, a funcionar desde 1940, segundo projeto arquitetónico de Raul Rodrigues Lima (1909-1979). 

Entrega do Prémio Municipal de Arquitetura ao arquiteto Fernando Silva pelo projeto do Cinema São Jorge. Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

No caso do São Jorge tudo começa a 28 de Novembro de 1946, quando é formalizada a venda de um “prédio situado na Avenida da Liberdade com o valor matricial de 620 mil, novecentos e vinte escudos”. A propriedade é adquirida pela Sociedade Anglo-Portuguesa de Cinema, constituída por capitais nacionais (do empresário João Rocha) e britânicos (da Rank Corporation, que à época se dedicava com sucesso ao cinema, mas que viria a diversificar a atividade, a ponto de ser a criadora das fotocopiadoras Rank Xerox) , e o projeto arquitetónico entregue a Fernando Silva, que, aliás, viria a conquistar com este o Prémio Municipal de Arquitectura.

O caso não era para menos. Como escreve a historiadora Margarida Acciaouilli no estudo, “Os Cinemas de Lisboa”: “Com o Cinema São Jorge, a natureza das funções do recinto especifica-se e a sua estrutura é moldada pelas exigências do espectáculo e pela notoriedade da artéria onde se erigia. São esses requisitos que, doravante, vão determinar o perfil dos novos cinemas que se constroem nos eixos de desenvolvimento de Lisboa e que irrompem da malha urbana com a determinação de se afirmar como verdadeiras catedrais.”

A atriz e encenadora Rita Lello, que o frequentou na infância, lembra bem a impressão que lhe causava entrar ali, ainda criança: “Era assombroso. Tudo era gigante. O espaço transportava-nos imediatamente para a grandeza do cinema.”

Uma sensação partilhada por Leonor Pires, médica e cineclubista: “Lembro-me perfeitamente de ir com a minha mãe e com uma amiga ao São Jorge e também ao Tivoli, mas o primeiro filme de que tenho memória foi A Quimera do Ouro, de Charlie Chaplin, no São Jorge.”

Era o tempo duma só sala, com plateia, primeiro e segundo balcão, com capacidade para cerca de 1800 espectadores. O amplo foyer e as casas de banho (com espaço para toucador na das senhoras) faziam jus à sofisticação do ambiente. Nas memórias de Leonor Pires avulta ainda “um spot em que um homem grande e parcamente vestido dava uma pancada num gongo igualmente grande. Era a marca da Rank Corporation.”

Appio Sottomayor destaca a beleza do edifício: “Mesmo para os leigos em arquitectura, não passava despercebida a fachada, austera, elegante, e onde se salientava uma excelente varanda, aberta sobre a Avenida. E, curiosamente, nas traseiras abria-se outra fachada.”

Mas o olissipógrafo também reflete sobre algumas novidades introduzidas pelo São Jorge no modo de ver cinema em Lisboa: “Deu brado nos primeiros tempos do São Jorge a novidade do órgão electrónico. O cinema brindava os espectadores, na abertura dos espectáculos, com trechos de um órgão, que parecia saído da parede, e era executado pelo artista da BBC, Gerald Shaw. Uma novidade nos cinemas lisboetas!”

De grandes cartazes pintados na fachada que dá para a Avenida (seria o último cinema de Lisboa a deixar de os ter, já na década de 1990), o São Jorge distinguir-se-ia também pela qualidade dos filmes exibidos, quase sempre grandes produções anglo-americanas.

A Sapatos Vermelhos, de Michael Powell e Emeric Pressburguer, com que estreou, seguir-se-iam muitos outros como Sete Noivas para Sete Irmãos, Lawrence da Árabia, A Dama e o Vagabundo, As Quatro Cabeleiras do Após-Calypso, O Último Tango em Paris, 007 – Missão Ultra-Secreta ou África Minha

Mas os tempos áureos do poder absoluto do cinema, em que grandes estúdios como a Metro Goldwyn Mayer anunciavam “ter mais estrelas do que o céu”, foram-se perdendo às mãos, primeiro da televisão, e depois do vídeo. Ante a diminuição do número de espetadores, salas de proporções palacianas, como o São Jorge (ou o Monumental, o Império, o Condes e o Éden) enfrentam dificuldades cada vez maiores.

Em 1974 a Sociedade Anglo-Portuguesa de Cinemas  pede autorização à Câmara Municipal de Lisboa para efectuar “obras destinadas a transformar a actual sala de espectáculos num complexo de três cinemas”, mas a autarquia não dá deferimento ao pedido.

Em 1980, o pedido seria renovado, desta vez com sucesso. Com projeto do Engenheiro Artur Pinto Martins, a antiga plateia dará lugar a duas pequenas salas, as 2 e 3, enquanto os balcões se transformarão na sala 1, hoje Manoel de Oliveira. Assim remodelado, o cinema reabrirá no outono de 1982 , com o filme 007 – For Your Eyes Only, na presença do ator Roger Moore, o terceiro James Bond da história da saga.

Mas este não será o fim da história nem das dificuldades financeiras. Em Dezembro de 1990, a Cinema Internacional Corporation, que explorava agora as salas do São Jorge, solicitava à CML autorização para nova alteração de fundo. O projeto tinha a assinatura do gabinete do Arquiteto Manuel Guilherme Pardal Monteiro Magalhães e propunha a manutenção da fachada do edifício e a “total demolição” do seu interior para construção dum espaço multifuncional, dotado de pequenos cinemas (ou auditórios), escritórios, áreas comerciais e estacionamento. O projeto seria chumbado pelo Instituto Português do Património Cultural.

Quando já todos temiam que o São Jorge seguisse destino idêntico ao do Monumental, houve um final feliz. Em 2000, a Câmara Municipal de Lisboa, recorrendo ao direito de preferência, adquire o São Jorge, que, nos anos seguintes, passou a acolher grandes eventos de Cinema como o Indie Lisboa, o Doc Lisboa, 0 Queer – Festival de Cinema Gay e Lésbico, a Festa do Cinema Francês ou a Mostra de Cinema Brasileiro.

O objetivo é conciliar a memória da sala e de outros modos de ver cinema com a atenção a expressões artísticas contemporâneas, como nos diz Marina Uva, atual diretora do São Jorge: “Este São Jorge acaba por ter dois papéis: o de garante da memória das grandes salas de cinema, entretanto desaparecidas, e o de plataforma cultural na qual têm lugar uma série de iniciativas ligadas ao cinema contemporâneo, mas não só. Isto porque para além da atenção ao cinema, há também lugar para as artes de palco, as oficinas ou as conferências.”

Sala de projeção do Cinema São Jorge. Há 72 anos, as máquinas eram outras, mas a arte era a mesma. De 24 a 27 de fevereiro, há festa no Cinema São Jorge, para celebrar este aniversário. Foto: Rita Ansone

Mais de 70 anos após a inauguração, com o órgão electrónico a executar os acordes de “God Save the King”, o São Jorge já não “exige aos espetadores visita prévia ao alfaiate. E, no entanto, há na monumentalidade da escadaria ou na amplitude da sala (ainda a maior de Lisboa) um glamour de outros tempos. Aqueles em que a beleza era servida maior do que a vida, em technicolor e panavision.

Feliz aniversário, São Jorge!

A festa dos 72 anos do São Jorge, promovida pela EGEAC, que tutela a sala desde 2001, inclui uma programação de três dias destinada a vários públicos e gostos. Inclui, como não podia deixar de ser, a exibição de clássicos, como The Shining, de Stanley Kubrick (dia 24, às 21.30, na Sala 3) ou a versão comemorativa do 50.º aniversário de O Padrinho, de Francis Ford Coppola (dia 27, às 21.00, na Sala Manoel de Oliveira).

Mas haverá também sessões dedicadas a obras mais recentes, como é o caso de Spencer, o filme de 2021 de Pablo Larraín sobre a princesa Diana (dia 24, às 14.30, na Sala 3), ou Cantar! 2, a sequela da animação de Garth Jennings (24, às 10.30, na Sala Manoel de Oliveira para escolas, mediante inscrição).

A pensar ainda nos cinéfilos do futuro, são propostas várias oficinas pedagógicas. Na manhã do dia 26, realiza-se a oficina infantil “Luzes, Telefone, Ação!” Ao longo de três horas, os mais novos (com idades entre os 8 e os 12) vão poder falar de cinema e, com a ajuda de telemóveis, filmar, representar, editar e assistir ao resultado final ,exibido no grande ecrã. 

No mesmo dia, a visita guiada “Faz Fitas” promete mostrar os cantos da casa, bem como a forma como se fazia cinema antes da era digital: com película e muita dedicação. Os participantes (também dos 8 aos 12) vão poder circular por vários espaços secretos do São Jorge, ao mesmo tempo que viajam também pela História do Cinema. 

No dia 27, às 14.30, o escritor e cantautor Miguel Gizzas apresenta o concerto imersivo “Lugar para Dois” (a partir do romance musical, finalista do Prémio Leya), contando com, para isso, a colaboração de Ricardo Carriço, Júlio Isidro, João Didelet ou Sofia Nicholson. A finalizar, no dia 27, às 18 horas, a escritora Lídia Jorge propõe uma seleção de obras literárias que foram adaptadas ao Cinema com sucesso.


Maria João Martins

Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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2 Comentários

  1. O pianista e o piano, que, nos intervalos surgiam do chão, já a tocar, vindos de um fosso imperceptível, davam um charme ainda maior à solenidade de uma ida ao S. Jorge

  2. Creio que o cinema São Jorge foi inaugurado em 1951, com a presença do presidente da républica, Marechal Oscar Carmona. Fui trabalhar para o São Jorge (secção de contabilidade) em 1963.

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