Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecemos muito distantes um do outro, e uma vez que a língua nos une, resolvemos estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

A Ana é Bárbara. Foi assim que soube que havia chegado a tua carta, naquela terça-feira, 24 de fevereiro, em que Maputo fervia aos 36º Celsius. Foi o Celso que me atirou com essa máxima. Justamente o Celso, a quem eu segredei que queria fazer um lobby para que o teu nome fosse atribuído a uma avenida lá nas Matolas das minhas noites.

Fica, para já, suspensa essa possibilidade. Fica assim feita a vingança. Tu dizes fuck you, eu suspendo-te o nome da avenida. E viverás com ciúmes, por tempo indeterminado, do Gil Vicente, Fernando Pessoa, Pe. António Vieira, Júlio Dinis, Eça de Queiroz, Oliveira Martins e do Dr. Egas Moniz, esses que ocupam ruas na zona nobre de Maputo. Tu ficarias na Matola, é verdade. E Matola, se não são festas, é fazer amor ou deitar-se morto de cansado pela industrialização do uso do corpo humano. Rua Ana Bárbara Pedrosa, estás a ver?

Dizes que escrevo bem e o caraças, mas sou incapaz de matutar nuns truques para criar uma Ema ou um Manel que encham de raiva — sabe-se lá de quê — talvez de tudo ser tão irritantemente imprevisível nas tuas mãos, como na tua presença. Contigo estamos na 24 de Julho e, de repente, estamos nas ruas de Patrice Lumumba. Eu passo dias a pensar num texto e tu já escreveste. Eu tenho antes de percorrer a cidade a pé, pôr-me a escutar A Garota Não, dormir descontente e despertar na madrugada para caçar a narrativa, na hora mais morta do planeta. Não, não vou na tua conversa.

Ganhar tempo na vida não é má educação, tampouco meter-se à conversa com estranhos. O problema está connosco. É com essa «boa educação» que muitas vezes nos castra o estar à vontade nos espaços, nos coloca a ser comedidos no discurso ou nos coíbe de nos chegarmos à frente quando é preciso. Somos ensinados a esperar pela nossa vez, serenamente, pacientemente. Que é má educação reivindicar ou exigir.

Entras numa sala de conferências, num teatro, num lançamento de livro, por exemplo, e é normal que as cadeiras da frente estejam desocupadas. Sabes porquê? Porque à frente senta-se quem manda. Mais: estar à frente é para os mais velhos, os «madodas», os anciãos, gente experiente, ou os chefes. Pois, os lisboetas são «mal-educados». Chegam-se à frente, confrontam os poderes, lutam pelo que acreditam e amam, estão-se marimbando para o politicamente correcto e ainda conseguem distinguir-se dos turistas metidos a «olá» desmedido.

É possível, em Lisboa, notar quem é turista e quem é da cidade. Os lisboetas têm noção do tempo e ocupam-se de gastá-lo com racionalidade; já os outros estão ali para esquecer. Por isso andam com os telemóveis a captar imagens, a ver se se lembram algum dia. Cá por mim, ainda prefiro o risco de me perder a perder a oportunidade de conversar com um estranho na rua, que me pode indicar lugares e ainda deixar-me ficar com lembranças.

Como tantos outros, colhi as reminiscências do slogan Unidade, Trabalho e Vigilância. Sabes o que foi isso? A fórmula encontrada por Samora Machel para a construção da Nação: todos iguais, todos ao trabalho e a policiarmo-nos uns aos outros.

Sou do tempo — olha eu a dar-me a idade daqueles tempos…! — em que na escola se fazia fila antes de entrar na sala de aulas para o professor fiscalizar se as golas das camisas estavam limpas, se as unhas e o cabelo estavam devidamente aparados ou penteados. Tempos em que o Português era a língua exclusiva na escola, quando muitas crianças entravam no sistema de ensino sem nunca terem tido contacto com a língua.

O terror era tanto que o meu pai me impediu de falar qualquer outra língua, dentro ou fora de casa, que não fosse o Português. Mas essa é uma outra história, talvez desse para a tal literatura do «eu» ou do «si», autoficção, chamam-lhe?

Sobre esta coisa de boa educação há muito que se lhe diga. Há um ditado na língua dos meus pais e dos meus avós que diz: vermo-nos uma vez é pecado. Espera aí, toma lá isto em xichangana, que eu também já sei muito bem falar: aku vonana kanwe swayila.

O quê da questão está na expressão «swayila», que quase não se traduz para outra língua. Fiquemo-nos pela dimensão do «proibido» ou, como escolhi aqui, «é pecado». Na nossa boa educação não se pode questionar os mais velhos. Não existem porquês.

E lembro-me de te ouvir sempre a perguntar porquê, enquanto caminhávamos pelas ruas da Matola ou de Maputo, e pensei para comigo: mas o que há de errado com ela? Eu lá sei porque é proibido arrancar frutos das árvores à noite. Eu lá sei porque é proibido engolir a saliva quando se sonha que se está a ser alimentado. Eu lá sei porque não se apontam os dedos aos cemitérios. Eu lá sei porque não se pode passar pela calçada da Presidência da República ou buzinar ao passar de carro. Já agora, eu lá sei porque, sempre que o meu pai bocejava depois de engolir a angústia, dizia: «Oh! Meu Santo António de Lisboa».

Entendes? Aqui não é lugar de porquês.

Em Maputo crê-se que as pessoas — sobretudo as que boas memórias nos trazem — não se veem uma só vez. De volta ao provérbio tsonga. Como explicaria isto um lisboeta? Que «não há duas sem três»? Mas isso refere-se ao azar. Que expressão utilizam para pôr anjos e arcanjos, deuses e santos a conspirar por um próximo encontro feliz com alguém?

Nunca aprendi a marcar encontros; tudo me acontece ao acaso. Ao acaso das coisas que acontecem porque também queremos.

Esta é uma cidade onde os encontros se repetem. Uma cidade déjà vu. Lisboa é tudo nunca dantes visto. Quando se está em Lisboa, fica sempre a sensação de não se ter conhecido os citadinos. Onde andam os lisboetas? A suar no trabalho de uma cidade que não pára, senão à hora do almoço?

Foi nas tasquinhas, em Alfama e em Alcântara, que se revelaram alguns desses mistérios. Ali vi gente a comer por amor à boa gastronomia da terra. Um contraste com Maputo, onde se come por vingança àqueles anos de fome — década de 1980 — Unidade, Trabalho e Vigilância —, os tempos do repolho e do carapau com farinha de milho amarela e das longas filas de pão que sempre acabava enquanto as filas ainda estavam a meio.

A fome talhou os estilos de vida dos nossos pais, dos irmãos mais velhos, e ainda anda um fantasma nas nossas barrigas, nós da década de 1990.

Maputo dorme. Lisboa transforma-se. Em Maputo, à noite, instala-se o silêncio e a ausência. Em Lisboa, acontece a ressurreição. Lembro-me das várias noites em claro ao barulho dos eléctricos, a que tardei a habituar-me. Um contraste com o eco das raras vozes que se podem escutar no interior da noite na Matola.

Bom mesmo foi que, desacordado em Belém — atordoado —, escrevi um livro.

Gosto de Maputo ao domingo. Uma cidade onde podemos caminhar nus que nem Deus nos vê. Mas sabes que é no meio da semana que está a alma deste lugar: gente a caminhar pelas ruas, a conversar nas várias línguas do mosaico cultural deste canto do Índico; vendedores ambulantes a cantar os preços que já ninguém ouve ao sol das 11; o amendoim torrado nas peneiras; mulheres carregando fruta na cabeça; rapazes com carrinhos de triturar fruta fabricando deliciosos sumos de cana-doce — tenho por hábito misturá-lo com gengibre e limão, para dar aquele gosto do meu amado, ainda que pouco conhecido, Oriente.

Hemingway devia ter conhecido Maputo numa sexta-feira antes de ir para Paris. Esta cidade é um apelo ao colectivo. Ao abraço. À festa. Ao afecto. E à heresia, pois claro. Mas ao domingo o povo abandona as ruas e as residências em busca de remissão dos pecados.

Se terminas uma relação em Maputo e queres, por tudo, evitar um reencontro com a namorada, muda-te para outra cidade. Diria mais: muda de país. Porque aqui andamos às voltas que, de volta e meia, estamos de novo juntos, apenas desconfiados de que não é a primeira vez que nos encontramos. Déjà vu!

E quem é o tal de Zé? Não é o Remédios, pois não? A Francine suspeita que sim — ela leu a tua carta e pôs-se ao teu lado —, mas eu acho que deve ser outro Zé. Lembra-te de falar dele, em primeiro lugar, na próxima vez que me escreveres.


Os autores desta série:

Eduardo Quive

Vive na Matola, mas é mais fácil dizer que é de Maputo, onde passa mais tempo. Entre muitas coisas, a literatura ocupa a maior parte da sua vida, de diferentes formas. Ora a escrever ficção, poesia ou a inventar coisas para reunir pessoas. É autor de Para onde foram os vivos (poesia), Mutiladas (contos) e A cor da tua sombra (romance).

Ana Bárbara Pedrosa

Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Na mesma casa, pôs a cabeça em Vizela e escreveu Amor Estragado. Algumas voltas pelo mundo culminaram em Viagens com o Mehdi. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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