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Será interessante recordar este episódio. Em fins de 1967, eu e o Eduardo Prado Coelho fomos convidados por Ruella Ramos a escrever diariamente no prestigiado ‘Diário de Lisboa’, então possivelmente o melhor jornal português, uma espécie de ‘Le Monde’ à escala portuguesa.

Ruella Ramos era o director, mas o homem que comandava as finanças do vespertino era Lopes do Souto, que nos contratou por vinte e cinco tostões a crónica, mais direito a bilhetes à borla para as salas de cinema onde os filmes estreavam. Começámos a escrever e, no início de 1968, estalou uma bronca monstruosa, que fez de nós dois ‘heróis nacionais’ de um dia para o outro.

O caso é contado com algum pormenor num texto de Paulo Cunha, a que deu o título “A crítica que mudou a crítica de cinema na imprensa portuguesa: o caso Diário de Lisboa, 1968”.

Mas vamos tentar explicar resumidamente o acontecido. Pouco tempo depois de iniciarmos funções, escrevendo a nossa opinião sobre os filmes vistos nas salas de cinema da capital, surgiu uma reação intempestiva por parte de uma associação de empresários da exibição cinematográfica. Chamava-se CINEASSO, agrupava a maioria das salas de cinema de Lisboa, e informava a direcção do jornal que, enquanto eu e o EPC continuássemos a escrever, essas salas cortavam a publicidade no jornal.

Antes de iniciarmos a nossa actividade no DL, os jornais de Lisboa tinham crítica cinematográfica, mesmo páginas semanais (Bastidores, de Baptista Bastos, na “República”, o Retardador, de António Lopes Ribeiro, no “Diário Popular”, entre outros), mas no dia a dia, não havia crítica a todos os filmes estreados. Quando muito, uns velhos jornalistas escreviam anonimamente umas notas que não iam além de algumas referências ao argumento, retiradas dos próprios programas dos cinemas.

Por outro lado, em finais dos anos 60, a publicidade dos cinemas nas páginas dos diários era importantíssima. O corte desta receita podia ser fatal para os diários. Era uma atitude com repercussões decisivas.

Citando Paulo Cunha: “Com a publicação da carta da Cineasso na primeira página, o Diário de Lisboa apresentava também uma declaração de intenções intitulada ‘Um ataque rechaçado. Sete cinemas coligados pretenderam reduzir ao silêncio a crítica do Diário de Lisboa’: Não se trata, porém, apenas de uma deplorável e afrontosa manobra de intimidação, empreendida por um grupo de interesses que não sabe, nem quer saber, de mais nada que não sejam os seus interesses e, por isso, julga que todos lêem pela mesma cartilha. (…) Pôs-se, desse modo, em prática um processo de dignificação geral: respeito pelo público, respeito pelo trabalho, respeito pela crítica, respeito pela opinião. Só o gerente do ‘consórcio’ de interesses é que levanta a luva: não quer crítica, quer só reclamos; não quer esclarecimento, quer só confusão.

Exactamente como os fabricantes de chouriço com carne abatidos sem fiscalização sanitária, ou como os fabricantes de ‘whisky’ de Sacavém. (…) Como se vê pela sua leitura, não vem o documento acima transcrito com a pretensão, ao menos, de impugnar especificamente esta ou aquela opinião expressa sobre este ou aquele filme, não contradiz nem menciona algum juízo que tenha sido formulado, não vem alegar parcialidade nem incompetência. Vem apenas insurgir-se contra o princípio do livre exercício da crítica.

Nem mais nem menos. Esquece, porém, que é precisamente pelos princípios que nos batemos e de que não sabemos, nem saberemos, abdicar, seja perante que potências for, em relação aqueles que escolhemos como orientadores da nossa acção. Com o apoio incondicional do Conselho de Administração e da Direcção do jornal, a redação assumiu a defesa dos seus colaboradores e não cedeu à intimidação”.

Entre o dia 29 de Fevereiro e 2 de Março, o “Diário de Lisboa” publicou diversas mensagens de apoio à sua atitude e de repúdio à intimidação da Cineasso, entre as quais uma assinada por diversos intelectuais ligados à imprensa e à crítica. Estávamos ainda em pleno Estado Novo, ditadura e censura prévia, mas inexplicavelmente a censura deixou passar essa primeira página e as muitas páginas de protesto que se seguiram. Todos quantos tinham a ditadura e a censura como alvo prioritário aproveitaram a deixa e não deixaram de reclamar justificadamente.

A verdade é que a 2 de Março a CINEASSO recuou, e eu e o Eduardo passamos de jovens mais ou menos desconhecidos a “heróis nacionais”, por obra e graça dos protestos dos gerentes das salas de cinema. A partir daí outros jornais anunciaram crítica diária assinada e tudo passou a ser um pouco diferente. Uma história edificante que vale a pena recordar.


*Lauro António é realizador e crítico de cinema – lendário em Portugal. Lisboeta de gema, foi a cidade que também cunhou o seu gosto pelo cinema, e ele próprio mudou a história do seu cinema.

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1 Comentário

  1. Passou-me ao lado nos tais anos!Agora,construo o puzzle e gosto!!
    Gosto cada vez mais da geração a que pertenço i.e. Lauro António e EPC!!
    Furaram o esquema!!

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