Às 14 horas do dia 14 de dezembro de 2024 formava-se uma fila longa de homens, mulheres e crianças, vindos de vários pontos da cidade e do país, para ver aquilo a que chamamos de Mensagem ao Vivo, um espetáculo de jornalismo ao vivo no Teatro São Luiz. Formato inédito em Portugal.

Foto: Inês Leote

Foi apenas a primeira de muitas filas. As sessões seguintes esgotariam em menos de dez minutos. Mas não foi apenas por isso que este projeto a que nos dedicámos neste ano foi marcante – embora, claro, esse seja o maior reconhecimento, que muito agradecemos à nossa comunidade.

Ao longo de sete edições pusemos Lisboa e as suas histórias verdadeiras no palco do Jardim de Inverno (Sala Bernardo Sassetti), do Teatro São Luiz. Queríamos por os vizinhos de Lisboa (como chamamos aos nossos leitores) a ver e a ouvir em direto os protagonistas das histórias publicadas pela Mensagem de Lisboa. Em direto, mas com um longo trabalho de verificação, curadoria, narrativa. Ou seja, verdadeiro jornalismo. Mas ao vivo num palco da cidade.

Subiram ao palco mais de 180 as pessoas. Todas diferentes. Em género, origem, profissões, idades... Mais de 30 músicos. Dois coros. Um grupo de teatro musical. Na mais integradora e diferente comunidade. Assim como Lisboa é. Isto foi muito importante para nós, e também para o Teatro São Luiz que busca essa diversidade da cidade.

Tivemos a história de um varredor de rua que escreve livros, de uma ex-prostituta que serve feijoadas no Natal, um homem que esteve preso e se encontrou no rap, a viúva do maior guitarrista português, um cantor que se reinventou contando histórias dos anónimos que fieram Abril… um rapper que faz vida a cantar em comboios.

Tudo histórias contadas na primeira pessoa, com grão na voz e às vezes titubenates. Mas sempre autênticas. Entrevistas, poesia, música ao vivo, teatro.. e até um número de um musical criado pelo grupo Teatro Apriori de propósito para contar a história da sua vida a tentar fazer o género, em Portugal.

Para este projeto, contámos, desde a primeira hora, com o entusiasmo de Miguel Loureiro, diretor, e de toda a equipa do TMSL e da Lisboa Cultura, que entraram nesta aventura connosco e a quem muito agradecemos.

Partilhámos lágrimas (por exemplo, quando Tibunga contou como foi crescer na Cova da Moura, na Amadora, e hoje desfilar pela Gucci, Prada e Louis Vuitton) e gargalhadas (por exemplo, quando Pedro das Neves aliviou a carga emocional da história de amor proibido com a Soraia, mulher cigana, e ergueu um velho Nokia amarelo de teclas transparentes, para contar parte das peripécias).

Ficamos a saber mais sobre a História da cidade onde vivemos, passeamos e trabalhamos: que Lisboa tem sotaque, sim (como nos lembrou o Marco Neves). No “tempo da Maria Cachucha”, comoe ele diz – ou melhor: 50 mil anos atrás -, Lisboa já tinha várias línguas… vindas de todo o mundo. Como o grego, talvez? “Só nos últimos 200 anos é que começámos a acreditar que cada território só deve ter uma língua.” E que Lisboa… não tem sotaque.

Não foi só a nossa visão da cidade que se transformou. Na sessão de 21 de junho, também mudámos a estrutura do palco da sala Bernardo Sassetti, montando uma rampa para que fosse mais acessível a participantes com cadeira de rodas. Foi Marta Canário quem nos inspirou, ela que subiu a palco nesse dia para um relato duro e cru da sua vida na cidade que ela tantas vezes sente a expulsá-la.

mensagem ao vivo
Marta Canário, na Mensagem ao Vivo, a 21 de junho. Foto: Inês Leote

Histórias que ficaram registadas também em ilustrações… feitas ao vivo. Por Nuno Saraiva e Zhou Yi. Veja aqui:

Na última edição da Mensagem ao Vivo tivemos:

Pierre Aderne, um carioca lisboeta
Bianca Castro e o diário de uma árvore
Francisco Vieira e um poema, do bairro Portugal Novo até ao Japão
Vizinhos do Beco da Travessa Artur Lamas
Katia Guerreiro, numa entrevista cantada
Kitchen Dates: pode a comida mudar o mundo?
Batucadeiras das Olaias

Reveja aqui todas as edições:


O que diz quem foi à Mensagem ao Vivo?

Ao longo das sete edições da Mensagem ao Vivo, recebemos mais de 900 espetadores. Muitos deixaram-nos os seus testemunhos emocionados. Foi também por isto que valeu a pena. Pela comunidade que se criou e que aqui ganhou, ou reganhou a esperança na sua cidade.

“Achei extremamente interessante, adorei todas as histórias. Sigo o vosso trabalho de dar a conhecer as histórias positivas, as histórias boas que existem numa cidade. Nestes tempos tão sombrios que vivemos, isso é muito importante.”
Testemunho de Helena Cabeçadas, espetadora


“Parabéns por mais uma Mensagem ao Vivo. (a todos os intervenientes). É onde recarrego a minha fé na Humanidade ❤️”

Luisa Medina, Instagram

A mensagem ao vivo é tão inesperada quanto essencial. Num tempo em que o sentimento de pertença é sistematicamente destruído — pelas lógicas do isolamento, da mercantilização da vida e da erosão dos vínculos , das narrativas de reação — escutar a nossa comunidade torna-se um ato político. Precisamos de desmitificar e ouvir as histórias invisibilizadas, ideias emergentes, vidas que inspiram, trabalhos ou associações que valorizam. Perceber que pertencemos. Pertencer para perceber.”
Pedro Campos Costa, arquiteto e espectador

“Queria ter dado um abraço ao senhor que estava ao meu lado e que chorou nas mesmas alturas que eu. Queria ter-lhe dito que gostava de o conhecer e saber a sua história, mas sou demasiado tímida.”
Testemunho de uma espetadora, publicado no Instagram

Veja aqui os vídeos das várias edições:


A equipa que fez acontecer:

Coordenação editorial e de palco: Ana da Cunha e Catarina Reis
Produção: Ana Narciso
Comunicação: Rafaela Boita e Joana César
Vídeo e fotos: Inês Leote, Stephen O’Regan e Vasco Leão
Ilustrações: Nuno Saraiva e Zhou Yi
Histórias, ideias e curadoria: Ferreira Fernandes, Álvaro Filho, Inês Leote, Frederico Raposo e toda a equipa da Mensagem de Lisboa
Apoios e patrocínios: Ana Rocha de Paiva
Teatro Municipal São Luiz: Miguel Loureiro, Tiza Gonçalves, Marta Azenha, Marta Pedroso, Sara Garrinhas, Mafalda Simões, Mafalda Santos, João Nunes, Ana Ferreira
Direção: Catarina Carvalho

A Mensagem ao Vivo vai voltar? A única coisa que podemos dizer para já é que estamos a trabalhar num projeto para o próximo ano. Em breve daremos notícias. E obrigada por tudo o que fizeram connosco nestes oito meses!


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