Na Amadora, parece ter renascido uma febre em torno do principal clube da cidade, “o Estrela” – abreviatura de quem se sente familiar ao nome que, na semana passada, voltou à primeira liga do futebol português: Estrela da Amadora.

A equipa sénior conseguiu concretizar a sua maior ambição e a festa na Reboleira foi grande, quase só equiparável à que terá acontecido quando o clube conquistou a Taça de Portugal em 1990, o maior título do seu palmarés.

Ou quando, em consequência dessa conquista, participou na Taça das Taças e teve uma breve aventura europeia, derrotando o Neuchâtel Xamax na Suíça (para delírio de milhares e milhares de emigrantes portugueses presentes no estádio).

Ou, claro, quando o clube subiu pela primeira vez à primeira divisão, em 1988.

Foi uma época de enorme alegria e euforia para os adeptos, mas uma altura profundamente triste para uma família muito ligada ao clube, os Sousa. É que, no dia 2 de junho de 1988, na penúltima jornada da segunda liga, o Estrela da Amadora visitou o Amora e José de Sousa Isidoro, um dos mais acarinhados adeptos e responsável pelo Café Del Negro — que fica mesmo em frente do Estádio José Gomes, na Reboleira —, morreu vítima de um ataque cardíaco.

“Foi numa quinta-feira, feriado do Corpo de Deus, fez agora 35 anos. A malta foi toda junta, daqui. Era um dia de calor, com 30 e tal graus, e com a emoção do futebol e aquilo tudo junto…”, recorda o filho, Vítor Sousa, hoje com 44 anos. Ele que deu continuidade ao legado e ao “sonho” do pai e que continua a gerir o café Del Negro no mesmo local, com a irmã mais velha, Anabela Antunes.

Del Negro não é apenas um café, é também considerado a sede não oficial do Estrela da Amadora, o clube que une esta família à comunidade com uma paixão efervescente e comum.

Café Del Negro
No Del Negro, que assim o é chamado por conta do nome da rua a que pertence, José e a família ergueram uma espécie de sede para o clube que sempre amaram: o Estrela da Amadora. Foto: Carlos Menezes

Fazer de uma tragédia o reforço do amor ao clube

José de Sousa Isidoro e a mulher, naturais da aldeia de Arrimal, no concelho de Porto de Mós, em Leiria, vieram para Lisboa nos anos 60 “à procura de uma vida melhor”, como tantos outros, no fenómeno que ficou conhecido como o êxodo rural.

“Na altura eram vendedores de leite aqui na Amadora, com uns tios da minha mãe. E depois, em 1967, surgiu a oportunidade de abrir aqui o café”, explica Vítor.

Na altura, já existia ali o estádio do Estrela da Amadora. O clube fora fundado em 1932, sendo que o primeiro campo ficava na zona da Venteira. Entretanto, mudou-se para a Reboleira, quando os terrenos onde jogavam foram usados para instalar a Igreja Matriz da Amadora. “Começou aqui a construção, à volta do estádio, e os meus pais aproveitaram a oportunidade de negócio, com dois sócios que rapidamente se mudaram para outro ramo.”

Durante largos anos, o Estrela da Amadora foi um pequeno clube, com uma expressão muito local, jogando apenas nas competições distritais. Com a própria Amadora, também o clube foi crescendo, nesta que se tornou uma das maiores e mais populosas cidades portuguesas.

“O clube cresceu muito na década de 80″, quando um outro José, José Gomes, chegou a presidente. “Ele cria o Bingo, que dá uma sustentabilidade diferente ao clube, e a própria Amadora passa a município em 1979 e torna-se cidade, porque antes pertencia a Oeiras. A partir daí há um crescimento muito maior.”

O Estrela da Amadora começa a próxima época na primeira divisão.

1988 era, portanto, o ano do sonho. O Estrela da Amadora fez uma grande época e preparava-se para carimbar a sua estreia na primeira liga.

Mas aquela tragédia mudou para sempre a experiência dos Sousa em relação ao clube, para o bem e para o mal. “Foi o pior dia da nossa história familiar”, explica Vítor, que na altura tinha dez anos. Ainda hoje é difícil conter as lágrimas enquanto mergulha nas memórias.

“O meu pai foi sempre acompanhando o crescimento do clube, esteve sempre a ajudar, mas não chegou a ver o Estrela na primeira divisão. E, depois, nós reforçámos a nossa ligação ao Estrela. Era o sonho dele e nós partilhamos isso. Continuamos a fazer tudo para ajudar, como ele fazia. Nascemos e fomos criados aqui, sempre lado a lado com o Estrela, vivíamos duas ruas acima, portanto é uma paixão que nos acompanha desde sempre.”

Como o Del Negro se tornou sede emocional

De repente, a família inteira teve que se mobilizar para ajudar o negócio. Vítor e a irmã eram ainda menores, mas o irmão mais velho, que pertencia à banda da tropa, no quartel de Queluz, teve que largar tudo e vir ajudar. Até mais tarde, quando Anabela e Vítor juntaram-se.

“Entrei em 2001. Antigamente, a parte de baixo funcionava como salão de jogos e nós melhorámos aquilo e abrimos um bar.” Hoje, visitar o Del Negro é como estar em terreno oficial do Estrela da Amadora. Há cachecóis, camisolas e outros adereços do clube pendurados ou emoldurados nas paredes.

No Del Negro, o Estrela da Amadora tem morada nos cachecóis, camisolas e bolas expostos. Foto: Carlos Menezes

Na esplanada e no interior, são vários os clientes que usam t-shirts alusivas ao clube — ou porque são adeptos numa altura de grande alegria em torno da equipa ou porque trabalham no Estrela, visto que o estádio, lá está, fica ali mesmo em frente.

Pela geografia ou pela paixão que põem em montra, certo é que os adeptos, os jogadores e os treinadores foram reconhecendo no Del Negro o lugar de uma sede emocional do clube.

Aliás, foi ali, naquele cruzamento entre a Avenida Dr. José Pontes e a Rua Pedro Del Negro (exatamente o que dá o nome ao café-restaurante), que o Estrela da Amadora instalou uma fan zone no último fim de semana, para que todos os adeptos pudessem assistir, em comunhão, à segunda mão do playoff contra o Marítimo, que se realizou na Madeira e ditou a passagem dos estrelistas à primeira liga.

“Foi incrível, maravilhoso. Passámos por muitas dificuldades e aquele foi um dia de enorme alegria. Estivemos sempre aqui no café, de vez em quando íamos ali fazer umas filmagens e dar uns gritos”, diz, entusiasmado, Vítor Sousa.

A equipa do Estrela da Amadora, no dia em que subiram à primeira divisão – junho de 2023.

O Del Negro costuma estar sempre aberto quando há jogos do Estrela, pelo que Vítor só consegue espreitar as partidas de vez em quando, já que o restaurante se enche nessas alturas. Ainda assim, faz questão de passar pelo estádio para presenciar nem que seja um pequeno instante de cada jogo.

A festa na Reboleira juntou centenas ou milhares de pessoas, depois do jogo que lhes deu a garantia da subida à primeira divisão.

Mas, este ano, o Estrela da Amadora conseguiu ainda outro feito: conquistou a Liga Revelação, disputada pelos sub-23 do clube, o que foi mais um motivo de celebração. Tudo se festeja por aqui.

Discutir o clube com os treinadores, à volta de um cozido

Vítor Sousa cresceu a acompanhar os treinadores, os dirigentes e os jogadores no Café Del Negro — todos eram clientes habituais e continuam a ser, visto que o restaurante oferece refeições enquanto parceiro oficial do clube.

Só os jogadores é que não comem ali, uma vez que têm que manter uma alimentação cuidada e almoçam no refeitório do clube. “Antigamente não, havia sempre imensos jogadores a comer aqui cozidos, não existiam muitas restrições. Há 10 ou 15 anos isto era totalmente diferente.”

“Lembro-me do João Alves, do Fernando Santos, do Daúto Faquirá, muitos treinadores que passaram cá. Os diretores também almoçavam aqui pelo menos uma vez por semana — normalmente era à quarta-feira, quando fazemos o cozido à portuguesa, o nosso prato mais forte. Nos últimos anos, tem sido quase diário. E partilhamos com eles muitas coisas: falamos dos jogos, do público, da capacidade do clube, de tudo e mais alguma coisa. Somos praticamente família”, explica.

O espaço que antes funcionava como salão de jogos e bar é agora uma segunda sala de refeições, que normalmente é usada pela equipa técnica do Estrela da Amadora, visto ser “um sítio mais reservado, onde eles estão mais à vontade”.

No Del Negro, os adeptos discutem o futuro do clube com os dirigentes. Foto: Carlos Menezes

“Quando o João Alves era aqui treinador, o filho mais velho do meu irmão era bebé. E nós tínhamos ali dentro um colchãozinho para ele dormir. E o João Alves era certinho e direitinho: a seguir ao almoço, dormia sempre uma sesta nesse colchão.” Jorge Jesus, amadorense que jogou e treinou o Estrela, também foi cliente habitual. “Inclusive, quando foi campeão pelo Benfica no primeiro ano em que foi para lá, fez uma reportagem aqui no estádio e teve esse cuidado e veio aqui visitar-nos.”

Da insolvência à ressurreição, pela mão de um grupo de adeptos

O Estrela da Amadora foi declarado insolvente em 2009. Tinha acumulado mais de 11 milhões de euros em dívidas e acabou despromovido por isso mesmo. Ainda houve algumas tentativas por parte da mesma estrutura para relançar o clube, mas sem resultado: o Estrela chegou oficialmente ao fim em 2011. Era o final de uma era, de um clube histórico e carismático do futebol português.

Mas os adeptos não se deixaram ficar.

“Foi devastador ficar sem clube. Mas depois apareceu um grupo de sócios que não queria deixá-lo morrer e quis fundar um novo clube, com as cores, o emblema, tudo muito parecido. Mas quase ninguém acreditava nesse projeto. ‘São uns maluquinhos, o Estrela acabou, esses gajos estão aqui agora a tentar fazer o quê?’ Sem campo, sem nada, a começar com miúdos de 10 ou 8 anos ali em Alfragide… Isto é de doidos, não é?”

O tal novo clube, que começou com camadas jovens a jogar futebol, acabou por conseguir alugar o Estádio José Gomes, a casa do Estrela da Amadora, ainda que fosse uma enorme despesa, já que pertencia à massa insolvente e era preciso pagar uma avultada quantia mensal para o utilizar — aliás, só agora será assinada a escritura para que o estádio se torne posse do novo clube.

“Depois criámos a equipa sénior na última divisão distrital, começou-se a acreditar um bocadinho mais. Depois houve aqui um jogo com o Belenenses. E esse dérbi mostrou que o Estrela ainda tinha muitos adeptos. Tivemos aqui seis ou sete mil pessoas a assistir a um jogo da distrital, foi a loucura.”

A vida do Estrela da Amadora tem sido de grandes altos e baixos: em 2011 morreu e em 2020 renasceu. Foto: Carlos Menezes

Em 2020, o novo Estrela da Amadora — que procurava reerguer-se embora enfrentasse grandes dificuldades — conquistou um novo fôlego quando se fundiu com o Sintra Football Club. “Receámos, claro. Tínhamos vários exemplos que tinham corrido mal. Mas depois as pessoas que vieram — o Paulo Lopo, também aqui da Amadora; o André Geraldes, que tinha um passado no Sporting; e o Dinis Delgado, que vinha do Sintra; fizeram-nos acreditar que fosse possível. E a fusão foi feita com delicadeza para com os símbolos e as cores do Estrela, para que se mantivessem como foco principal.”

Foi isso que levou Vítor Sousa a aceitar tornar-se mandatário da direção, por exemplo.

E, a partir daqui, as coisas aconteceram muito rápido. “Nesse ano, subimos logo à segunda liga. O ano passado foi difícil, sofremos para nos mantermos, mas é fruto do crescimento, da inexperiência. E este ano culminou nesta vitória que alguns de nós, no início da refundação, pensávamos que iríamos lá chegar, mas só mais tarde… Mas, pronto, conseguimos arrepiar caminho e estamos de volta.”

O clube mudou de vidas, mas o Del Negro sempre continuou o ponto de encontro dos adeptos do Estrela da Amadora. Foto: Carlos Menezes

56 anos depois, o Del Negro mantém-se como “o” ponto de encontro dos adeptos. “Isto é quase a sede que não existe. No reinício, era onde as pessoas se tornavam sócios, era onde vendíamos merchandise, e continuamos sempre a ajudar nesse aspeto.”

Vítor é o sócio 62 do novo Estrela, Anabela o 49. As filhas de Vítor, irmãs gémeas de 12 anos, também são sócias. “E vibram muito com o Estrela, estiveram mais na festa e veem mais jogos do que eu.”

A nova vida do Estrela, com adeptos mais jovens

Vítor acredita que “as pessoas passaram a dar mais valor ao clube depois de ele ter terminado”. É como a velha máxima: “quando perdes alguém, dás mais valor porque já não a tens”. “E nós sentimos isso. Perdemos o clube, e quando o voltámos a ter, damos tudo por ele. Isto foi alastrando, de pais para filhos e de amigos para amigos, de família para família. E estamos a construir uma base mais forte do que aquela que tínhamos na altura, quando o Estrela acabou”, defende.

“Cada vez mais vês gente com a camisola do Estrela. Por exemplo, estive em Barcelona e levei a camisola do Estrela para Camp Nou e fazia questão de tirar fotografias. E muitos adeptos por esse mundo fora fazem questão de tirar fotografias por onde passam com as camisolas do Estrela. Também o fiz em Milão ou nos Açores. O orgulho de ser do Estrela está muito maior.”

Embora admita que seja importante haver um motivo de orgulho para alguém vestir a camisola não só do clube mas também do próprio município da Amadora, Vítor acredita que há pontos a melhorar na ligação à cidade, nomeadamente aos mais jovens. “Acho que, principalmente nas escolas, os miúdos têm logo de ser Estrela desde pequeninos. E não Benfica e Sporting. E é esse passo, também com o crescimento do clube e com maior visibilidade, que vai acabar por acontecer e os miúdos vão passar a ser do Estrela como eu desde pequenino.”

Muitos jovens adultos ou adolescentes não acompanharam o Estrela da Amadora antes da insolvência, mas agora fazem parte dos adeptos mais ativos. “Pessoas com 20 anos são agora adeptos pela primeira vez, porque nem se recordam do antigo Estrela. E o Estrela foi-lhes incutido pelos pais. Quando o clube acabou, o público era maioritariamente idoso, era um clube envelhecido a nível de adeptos. Agora não: houve um refresh na claque, que apoia imenso.”

Vítor é o sócio 62 do novo Estrela da Amadora. Foto: Carlos Menezes

Existe até um projeto iniciado por um grupo de adeptos que pretende criar um Museu Tricolor (em referência às cores vermelha, verde e branca do clube uma importação do Fluminense, no início dos anos 50) com os artefactos e adereços do Estrela da Amadora.

“Agora é tentar estruturar o clube na primeira liga. Principalmente porque não existem ainda aquelas rotinas e o profissionalismo que aquelas ligas exigem. No futebol, qualquer pormenor é decisivo. A nível interno, há muitas coisas a melhorar: as infraestruturas, as condições para os adeptos irem e estarem cómodos… Mas estamos num muito bom caminho, estamos muito felizes.”


*Ricardo Farinha nasceu em Lisboa e sempre viveu nos arredores da capital, periferias que lhe interessam particularmente. Conta histórias em modo freelance, sobretudo ligadas à área da cultura.


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