Foto: Jorge Simão

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O fado nunca tinha parado. Guerras mundiais, revoluções e contra-revoluções, mudanças de gosto musical – a tudo respondeu, adaptando-se com brio. Foi anarco-sindicalista na Iª República, tendencialmente conservador no salazarismo e renovou-se em democracia, desafiando quem pretendia enterrá-lo no baú das coisas abandonadas. Mas a pandemia, ao contrário de outras crises, ditou o fecho de casas de espetáculos, cancelou concertos em Portugal e no estrangeiro, suspendeu a promoção de novos discos e impediu a gravação de outros. Uma situação dramática comum a intérpretes, técnicos, promotores de espetáculos e, por extensão, às respetivas famílias.

E agora? Como fazer o regresso à normalidade? A fadista Katia Guerreiro diz que o que mais a preocupa é precisamente a recuperação. “Há atividades que se podem reinventar, mas não é o caso desta.” A crise do fado não é apenas uma crise económica. É também uma crise de criatividade, das próprias condições desta arte. Kátia não faz concertos em streaming porque, diz, “não passa de um entretenimento.” É a falta do público, do espetáculo ou da casa de fado. “Quando estou a gravar já sinto a falta dessa partilha, imagine-se cantar para um ecrã, às vezes de um telemóvel”. Isso, a juntar à falta de remuneração. “As pessoas fazem um pequeno contributo mas isso não substitui, de modo algum, o que ganhávamos anteriormente.”

Kátia Guerreiro, fadista, lembra um ano que prometia ser “excelente” e que acabou por ser “muito duro” para o fado. Foto: D.R.

Para Kátia, o plano B, era voltar a exercer medicina. Foi abordada pela Ordem dos Médicos, como todos os que na altura não estavam a trabalhar no SNS. “Mostrei a minha total disponibilidade para colaborar mas nunca fui chamada. Agora tenho vindo a escrever uns textos mas foco-me sobretudo em dar atenção aos meus dois filhos que ainda são pequenos.”

Rodrigo Costa Félix (cronista da Mensagem) sente a tristeza de não cantar, mas está a colmatar o problema desenvolvendo outras atividades ligadas ao fado. Gere a carreira de uma artista nova, Inês Vasconcelos, que vai lançar um disco em breve e está na produção dos festivais de fados, que estão a ser reprogramados para novas datas.

Paralelamente, está a desenvolver mais um disco do seu projeto de Fado para Crianças, que entrará em estúdio em breve, com colaborações de vários autores como Alice Vieira, Maria João Lopo de Carvalho, Maria do Rosário Pedreira, João Monge ou David Machado. Com entusiasmo, Rodrigo conta que vai reabrir o restaurante “Fado ao Carmo”, que adquiriu em parceria com o guitarrista Luís Guerreiro: “Tínhamos o sonho antigo de abrir um espaço nosso. A oportunidade surgiu agora.” Agora só falta que os deixem abrir.

Helder Moutinho consegue pensar que esta paragem pode ser benéfica, ajudando a separar o trigo do joio. “Por causa do turismo de massas caminhávamos para uma situação muito semelhante à do bairro de Boca, em Buenos Aires, onde toda a gente dança o tango. Por causa da crise, é bem possível que voltemos a ter um turista mais exigente, como aconteceu nos anos 90. E isso pode ser muito benéfico para a qualidade do fado.” 

Pedro Castro, guitarrista, proprietário da Mesa de Frades e da Associação de Fado Casto, tem uma visão mais pessimista do futuro a médio prazo. “Infelizmente penso que a seleção, a existir, far-se-á em função da capacidade empresarial e não da qualidade artística. Estou certo que vão encerrar vários espaços que eram muito bons.”

Enquanto esperam pela hora da reabertura, “nas melhores condições possíveis porque uma casa de fados tem uma especificidade muito própria”, sublinha Pedro Castro, estes dois músicos vão trabalhando na produção de alguns discos, mas tudo com os olhos postos no momento em que haja um pouco de normalidade para os promover devidamente. Na Associação de Fado Casto, o jovem Gaspar Varela esteve a gravar o seu próximo disco. Na “Maria da Mouraria” há dias em que os músicos se reúnem para ensaiar. Ou para não perder a mão durante uma paragem tão prolongada.

Angústia prolongada

Os tempos não têm sido fáceis e Kátia Guerreiro não disfarça a angústia: “Tem sido um ano muito duro. E, no entanto, no princípio de 2020, tudo prometia um ano excelente já que tínhamos uma agenda muito preenchida, em Portugal e no estrangeiro.” Em Março, tudo ruiu. “A partir do momento em que a covid-19 foi definida como pandemia, rapidamente compreendi que as consequências teriam de ser prolongadas.” Médica de formação, Katia teve a perceção de que as artes de palco seriam as primeiras a ser afetadas e muito possivelmente as últimas a recuperar.

O mesmo sentiu Rodrigo Costa Félix (cronista na Mensagem). “As casas de fado pararam completamente. Há um grande conjunto de artistas que ficaram sem qualquer trabalho e sem qualquer fonte de rendimento. Eu próprio faço outras coisas mas cantar pura e simplesmente não acontece e isso traz-me, há que dizê-lo, uma grande tristeza.”

Com um disco novo, lançado precisamente a 20 de março do ano passado, Rodrigo não chegou a promovê-lo na tournée que tinha planeado. “Tinha concertos marcados para Lisboa e Porto que tive que adiar e voltar a adiar.” Aponta ainda a situação particularmente difícil das casas de fado, onde confluem os problemas da música, mas também os da restauração e do turismo, igualmente atingidos pela pandemia. “Vínhamos de um período muito bom, com imenso turismo. Havia muita procura, abriam casas de fado (ou restaurantes com fado ao vivo) quase diariamente e de repente fechou tudo. Muitas já encerraram definitivamente e outras estarão com certeza em grandes dificuldades.”

Rodrigo Costa Félix fala da situação angustiante que várias casas de fado vivem, mas acabou de meter-se numa e vai abrir depois do confinamento. Foto: Líbia Florentino

Quer Katia, quer Rodrigo não ocultam a importância do respaldo familiar que assumem ter, mas não os larga a consciência dolorosa de que nem todos os profissionais do espetáculo podem dizer o mesmo. “Conheço pessoas que estão desesperadas porque não têm outra fonte de rendimento”, diz Rodrigo. “Ficaram sem recurso ao que quer que fosse. Tento minimizar os danos, dando-lhes algum trabalho mas tudo o que posso fazer é obviamente muito limitado. Muitos deles nem sequer conseguiram recorrer a apoios do Estado. Uns porque já tinham uma situação fiscal complicada e não conseguiram pôr as contas em dia entretanto. Outros porque os apoios existiram mas foram muito escassos. Há aqui um panorama global muito complicado.”

Katia Guerreiro sente na pele as dificuldades de ser sócia-gerente da empresa que trata de tudo o que se relaciona com a sua atividade. “Inicialmente consegui ter um pequeno apoio da Gestão de Direitos dos Artistas (cooperativa que gere os direitos de autor dos profissionais do espetáculo) mas nada mais. Porquê? Porque tenho uma empresa própria, o que faz com que eu não seja contemplada pelos apoios. Ou seja, todo o esforço que fiz ao longo de 20 anos de carreira para ser autónoma, impede-me de receber um cêntimo de apoio do Estado. O facto de, mesmo em situação difícil, eu continuar a ser uma contribuinte cumpridora parece ser irrelevante.”

Os apoios da CML

Os apoios ao fado foram incluídos no Fundo de Emergência Social para a Cultura da Câmara de Lisboa – sendo que Katia Guerreiro, como muitos fadistas, não mora em Lisboa, por exemplo.

O montante geral distribuído, segundo a vereação da Cultura, foi de 1 milhão e 400 mil euros – e entre Abril e Junho de 2020, das 245 candidaturas, 13 foram para artistas de fado, tendo cada pessoa apoiada recebido 670 Euros.

Nas candidaturas coletivas, das 59 candidaturas, 13 foram para estruturas ligadas ao fado, no montante de 6125 euros cada. Já em 2020, houve outros apoios do Município, dirigidos especificamente a este setor: 31 casas de fado de Lisboa (o que corresponde a cerca de 200 artistas) receberam um valor global de 684.545,09€. No segundo programa, no valor de 20 milhões, podiam candidatar-se as casas de fado. Esta informação é da vereação da Cultura da CML.

Helder Moutinho, na Bela, a sua casa de Fado em Alfama. Foto: Orlando Almeida

Houve ainda um reforço da programação e apoio aos agentes culturais, nomeadamente no Museu do Fado (200 mil euros para um programa cultural desenhado com os elencos artísticos residentes nas casas de fado de Lisboa) ou projetos em parceria com a RTP, como o documentário “Fique em Casa…de Fados” ou o ciclo de conversas gravadas “Fados da Casa”.

Casas de fado em risco

Apesar dos apoios as Casas de Fado estão em risco. Hélder Moutinho, fadista, compositor, proprietário da Maria da Mouraria (no bairro do mesmo nome) e a Tasca da Bela (em Alfama, que tinha acabado de reabrir quando se iniciou o primeiro confinamento) está naturalmente preocupado. Com os que trabalham com ele, embora sejam sempre “cinco pessoas, o que é uma estrutura relativamente fácil de gerir, comparado com casas de fado que chegam a ter 20 empregados”, diz.

Mas é tudo pouco, tendo em conta o que existia nos últimos anos. O fado cresceu brutalmente, à conta do turismo e também da própria evolução do setor. Como produtora de eventos de fado, Joana Esparteiro sente duramente a realidade. À frente da empresa criada por ela em 2014, “Fados fora de Portas”, trabalha fundamentalmente com empresas que desejem incluir apontamentos musicais em congressos ou reuniões especiais, mas também em casamentos. “Posso dizer que em 2020 teremos feito uns 3 casamentos, quando o normal seria fazermos o dobro disso por mês.”

Joana Esparteiro é produtora de eventos de fado. Foto: Maravilhosa Jennifer

Neste momento, esta micro-empresa de três pessoas, está em lay off, “completamente parada”. “No primeiro confinamento”, recorda Joana, “talvez porque coincidiu com a Páscoa e com o Dia da Mãe ainda conseguimos adaptar às videoconferências o nosso conceito dos fados personalizados. Dou um exemplo: uma avó fazia 80 anos e os netos ofereciam-lhe um fado sobre ela ou aos pais que celebravam 50 anos de casados. Antes, íamos a casa das pessoas e fazíamos uma atuação ao vivo, depois adaptámos isto ao zoom e até teve algum sucesso. Mas agora não se está a repetir.” E conclui: “2020 foi muito complicado, mas 2021 não o será menos. Os casamentos estão a ser adiados e as empresas, se fazem eventos, estes deixaram de ser presenciais.”

Mesmo que o futuro seja incerto, os fadistas sabem que o fado não pára. Como não parou, desta vez. Houve revoluções, contra-revoluções, guerras civis e mundiais, mudanças de gosto musical e, no entanto, as guitarras jamais se calaram. Muitas continuam a tocar, na pandemia, nos bastidores. Como uma espécie de prelúdio para o regresso da vida.

Maria João Martins

Nasceu em Vila Franca de Xira há 53 anos mas cresceu na Baixa de Lisboa, entre lojas históricas e pregões tradicionais. A meio da licenciatura em História, foi trabalhar para um vespertino chamado Diário de Lisboa e tomou o gosto à escrita sobre a cidade, que nunca mais largou seja em jornais, livros ou programas de rádio.

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9 Comentários

  1. Frequentava muito as casas de Fados e fui muito feliz nessas noites. Espero que haja uma campanha para os portugueses frequentarem mais estes espaços que estavam com mais estrangeiros do que nacionais

  2. Boa tarde Maria João,

    Gostaria de saber qual a sua fonte para referir esses apoios e esses valores ao sector do fado.
    Muito obrigada.

  3. Cara Maria João,
    Dados/valores/apoios facultados e mencionados por si são totalmente falsos, imprecisos, e tendenciosos!
    Carece de esclarecimento público de forma a elucidar o leitor e classe artística dessas “31 casas”.
    Aguardamos, “eu e restantes colegas”, contacto!

  4. Estes números foram cedidos à Mensagem pela Câmara Municipal de Lisboa, através da vereação da cultura.

  5. Estes números foram cedidos à Mensagem pela Câmara Municipal de Lisboa, através da vereação da cultura.

  6. Bom artigo. Vamos esperar que haja apoios para que as portas das boas casas de fado voltem a abrir rapidamente. Não vejo a hora de voltar a ouvir o bom fado ao vivo.

  7. Presada Maria João,
    Tal como alguns colegas com casas de Fado em Lisboa acima identificados, também eu estou curiosa relativamente aos números que apresenta. Por isso, e de forma que tudo não passe de um tablóide sensacionalista, solicitamos um melhor esclarecimento da sua reportagem no que respeita ás verbas que enunciou, e que nós, CASAS DE FADO DE LISBOA, desconhecemos em grande parte.

  8. Bom dia, Fátima. Os números foram dados à Maria João diretamente pelo gabinete da Vereação da Cultura. São, portanto, números oficiais. Mas se me enviar um email para catarina.carvalho@amensagem.pt posso pô-la em contacto com a própria Maria João para mais esclarecimentos.

  9. Os turistas apenas serão mais exigentes, se a Câmara Municipal de Lisboa começar, antes da nova enchente, a ter uma política de defesa da cidade, acabando com as manifestaões e espectáculos indigentes que se têm espalhados, antes da pandemia, por tudo o que é zona nobre da cidade. A tolerância perante a indigência das exibições na Baixa é que permitiu a presença de turistas sem qualidade, nem gosto. O problema da exigência prende-se com a falta de atitude da CML.

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