Foto: Catarina Ferreira

Cláudio Gonçalves, Tibunga, andava pelo centro comercial com uma pressa característica dos 20 anos. Os passos largos e rápidos do menino da Cova da Moura, como se desfilasse pelos corredores, chamaram a atenção do dono de uma agência, que lhe entregou um cartão. Tornar-se modelo não era, nem de longe, um sonho para ele e a velocidade com que recebeu aquele pedaço de papel foi a mesma com que o mandou para o lixo.

A namorada, porém, insistiu para que reconsiderasse a proposta. Foi, então, convencido a comparecer – mesmo contrariado – a um casting que mudaria tudo o que conhecera da vida até ali. Ele, que nunca havia pisado num aeroporto antes, numa semana já estava a trabalhar em Paris. Hoje são mais de 100 viagens por ano, quase uma década de carreira e uma coleção de clientes internacionais de prestígio.

Sempre que volta a Portugal, Cláudio dedica-se ao projeto Kriativu, uma forma de retribuir ao apoio que teve. Foto: Catarina Ferreira.

Quem acompanha Cláudio nas campanhas da Dolce&Gabbana, Gucci, Prada, Hermès, Calvin Klein, Louis Vuitton ou Hugo Boss nem imagina a trajetória por trás dos sorrisos e do olhar confiante que exibe diante das câmaras. Foi preciso uma boa dose de empenho para vencer a timidez e também ficar à vontade num lugar tão diferente do que estava habituado a ter como dele.

Nascido na Cova da Moura, na Amadora dos anos 1990, Cláudio Gonçalves – ou Cláudio Tibunga, como é conhecido no meio artístico – teve uma infância que se conta em ausência do pai, dificuldades financeiras, mudanças constantes de casa. Passou um período a dormir nas ruas.

“A minha mãe trabalhava nas limpezas. Saía de manhã e chegava à noite. Eu vivi com a minha avó, que na altura era alcoólica”, recorda.

A situação crítica levou até à interferência de uma equipa da Segurança Social, que o enviou para um colégio interno. Contudo, a decisão não tornou os seus dias mais fáceis. “Aquilo era muito mau. Era uma selva, uma mini prisão. Muros em todo lado. O que eu sofria dentro daquele colégio… Preferia estar na rua. Mas para muitos era uma forma de terem uma cama e uma refeição.”

Não restavam alternativas além de esperar pelo inesperado.

Foi quando uma professora da Escola Básica Cova da Moura, onde estudava antes, resolveu lutar pelo menino. Deu início a um processo de adoção que o tiraria do internato, trazendo todo um horizonte de novas possibilidades. Ganhou um lar tranquilo, uma segunda mãe, um pai e dois irmãos, embora nunca tenha perdido contacto com a família biológica.

Uma vida, vários mundos

A fusão entre as duas realidades, segundo Tibunga, foi fundamental para hoje transitar com naturalidade entre diversas culturas, países e contextos. Assim, acabou por tornar-se ponte entre os moradores de dentro e fora dos bairros sociais.

Tibunga reconhece a importância de ter se transformado numa referência, mas não quer ser visto apenas através dos ecrãs, como um ideal distante e inatingível de sucesso. Talvez por isso, sempre que volta a Portugal dedica-se ao projeto Kriativu, coordenado pelo amigo Nuno Varela, em parceria com o rapper Sam The Kid, Adriano Finuras, Ricardo Gomes e Zé Silva.

O sorriso que estampa hoje as campanhas de marcas internacionais conheceu uma infância de dificuldades. Foto: Catarina Ferreira.

O grupo criou, em Chelas, um espaço para desenvolver talentos artísticos e trabalhos de comunicação que envolvem podcast, fotografia, design, vídeos e um jornal comunitário. Foram parceiros da Mensagem no projeto Narrativas. Tibunga é responsável por arranjar e organizar as bicicletas disponíveis gratuitamente para a comunidade, uma iniciativa que tem atraído cada vez mais a juventude.

É aí que aproveita para ouvir os mais novos, conversar, orientar e dar conselhos.

“Como a mim um dia salvaram, eu espero um dia poder salvar outros. Se pudermos trazer um futuro a alguém, seja no desporto, cultura ou política… Se pudermos salvar uma vida, é menos uma pessoa que está numa situação precária ou numa realidade completamente segregada.”

Questionado se o mercado da moda, onde atua, estaria finalmente mais inclusivo, Cláudio hesita. Analisa a pergunta com cuidado e confessa o receio de que a exaltação da beleza negra seja apenas uma tendência passageira, assim como tantas que vieram e ainda virão.

A diversidade que interessa ao modelo não é aquela impulsionada pela indústria, por motivações económicas, mas a que nasce de uma consciência coletiva. E, se depender deste filho de Cova da Moura, esta é uma discussão que vai estar sempre presente porque, vindo de uma jornada difícil, manter-se tanto tempo em frente aos holofotes é, também, um ato de resistência.

“Passei muito mal na minha vida, sim. Dormi na rua, sim. Passei fome, sim. Roubei para comer, sim. Fiz milhares de coisas para chegar aqui, com muitos momentos traumáticos, mas isso tudo tornou-me aquilo que eu sou”, conclui.

E o que leva consigo é a oportunidade de ser o que muitos não puderam e a esperança de que outros como ele, um dia, ainda consigam vir a ser.


Maíra Streit

Maíra Streit

*Nascida na Amazónia brasileira, Maíra Streit tem uma vida comprida para os seus 36 anos. Ao transgredir as próprias fronteiras, encontrou no jornalismo um território para a liberdade. Cultiva a sede de desvendar o mundo através do olhar do outro e tem um especial interesse por tudo o que acontece à margem das narrativas. Mergulha sempre que pode na cobertura dos direitos humanos porque sabe que, às vezes, é preciso partir-se para continuar inteira.

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