Subitamente, Pierre Aderne interrompe o que dizia para ouvir os sinos distantes, ecoando do alto da torre de uma igreja até o topo do Jardim do Torel. Além do cuidado com a qualidade do áudio da entrevista, uma reverência por mais um de entre os sons de Lisboa, segundo o músico e produtor cultural, a capital da música em língua portuguesa.

“A nova geração musical brasileira ou cabo-verdiana hoje é muito mais representada aqui do que em qualquer cidade do Brasil ou ilha em Cabo Verde”, avalia Pierre, filho de português com francesa, carioca nascido em Toulouse, há três anos é o chef que mistura no mesmo tacho os distintos “sotaques” de fados, mornas, funanás e sambas para servir nas jam session da Rua das Pretas.

Pierre gosta de se referir aos encontros da Rua das Pretas como “pouso”, uma metáfora que dialoga com o sentimento de Lisboa ser, na opinião dele, o cais onde aportam, vindos pelo Tejo, “navegantes da música produzida no Brasil, Angola, Cabo-Verde, Angola e Moçambique”.

Nos últimos três anos, os “pousos” semanais acontecem num acolhedor palacete no Príncipe Real, eventos que cativam a audiência graças ao tom informal e de improviso, uma atmosfera que empresta um verniz de bonomia a um exitoso produto, gerido com sobriedade através de plano de negócios, bilhetes, reservas, filas de espera, packs, welcome glass e em constante sold out.

A experiência dos encontros no Coliseu de Lisboa levou ao convite para que a Rua das Pretas ganhasse uma série na televisão. Foto: Nicole Sanchez

A pandemia interrompeu as concorridas sessões semanais no Príncipe Real, a última delas realizada há quase um ano, mas o espírito do projeto manteve-se a pairar no ar, como um boémio fantasma . Durante as brechas permitidas pelo vários níveis de confinamento, Pierre Aderne levou o projeto para o rooftop do Hotel Mundial, para digressões em herdades e vinícolas, e até para o palco do Coliseu dos Recreios, em quatro sessões com casa cheia.

“Ir para o Coliseu – mesmo na televisão – é uma forma da Rua das Pretas crescer sem perder o rebolado”

A experiência no Coliseu provou-se frutífera e a Rua das Pretas voltará a ocupar o palco na Baixa de Lisboa para 12 novas sessões, desta vez destinadas a uma série para a televisão portuguesa. “Ir para o Coliseu é uma forma da Rua das Pretas crescer sem perder o rebolado”, resume Aderne. O “rebolado” em questão é o acolhedor espírito de tertúlia e de encontro entre amigos, um lugar onde se quer estar.

Mérito de Pierre, misto de mestre de cerimónia, músico e contador das histórias que ligam as canções do repertório, memórias em tons de fábulas que se repetem por entre as sessões, embora nem sempre contadas da mesma forma ou protagonizado pelas mesmas personagens. Uma habilidade de Xerazade que prende a atenção da plateia e tem garantido o encanto para além das mil e uma noites do projeto até agora.

A temporada no Coliseu também serve com balão de ensaio para o desejo de levar a Rua das Pretas para uma digressão internacional, “para o mundo”, assim que for possível.

Jogar os ritmos na liquidificadora

Para perceber o fenómeno cultural e comercial da Rua das Pretas, é preciso recuar até 2002, na primeira vez que Pierre esteve na cidade, durante um concerto. “Tomei um susto com a música que morava no quintal de Lisboa. Para a minha surpresa, ia além dos fados de Amália e do pop-vira do controverso Roberto Leal”, afirma, reproduzindo o conhecimento básico do brasileiro médio em relação à produção sonora portuguesa.

Aderne conta a passagem no documentário MPB – Música Portuguesa Brasileira, o título como uma releitura em tom de provocação do acrónimo de Música Popular Brasileira. “Naquela época, percebi que os portugueses iriam jogar os ritmos na liquidificadora e levar para o mundo uma música tão interessante como única.”

“Recebia em casa os amigos e os amigos do meus amigos, para levar um som, trocar histórias e segredos , beber uns copos. O que começou por brincadeira, acabou por gerar curiosidade”

Uma década depois, já como novo lisboeta, Pierre resolveu beber do conteúdo da liquidificadora portuguesa e passou a repetir em sua casa, na Rua das Pretas, o clima dos míticos encontros promovidos por Nara Leão e Tom Jobim, no Rio de Janeiro dos anos 1960. O Rio onde Pierre viveu, na rua Nascimento Silva, em frente ao apartamento de Jobim, morada eternizada por Toquinho em Carta ao Tom 74.

“Recebia em casa os amigos e os amigos do meus amigos, para levar um som, trocar histórias e segredos , beber uns copos. O que começou por brincadeira, acabou por gerar curiosidade, ao postarmos as fotografias da reunião, marcadas com a hashtag #ruadaspretas”, conta.

Pierre Aderne com a cantora Maria João, a jazzar no palco do Coliseu dos Recreios. Foto: Nicole Sanchez

Da curiosidade a Pierre abrir as portas da Rua das Pretas foi um passo. Primeiro, para poucos interessados, depois para dez, trinta, até que a residência dele e a paciência dos vizinhos ficaram pequenas. Foi preciso sair, inicialmente sem residência fixa, até chegar ao Príncipe Real, onde o projeto manteve-se com casa sempre cheia até fevereiro, quando foi obrigado a pausar com a chegada da pandemia.

Para Pierre, o guião de sucesso da Rua das Pretas passa por, justamente, não obedecer a um guião. “É por não ser estático que tem vida longa. A cada semana, novos artistas aparecem. Foram mais de 250, apenas na comunidade em língua portuguesa, e este intercâmbio de aromas é o cerne deste concerto que não é concerto”, diz.

A falta de guião da performance reflete a descontração dos bastidores. É comum os artistas convidados sugerirem canções minutos antes das apresentações ou até que uma  personalidade na plateia una-se ao grupo, mesmo que não tenha tanta habilidade musical, como na vez em que um ator brasileiro aventurou-se no pandeiro e mostrou ter mais intimidade com o ecrã do que com o instrumento. Os músicos, experientes, estão acostumados às surpresas, até porque em mais de três anos nunca houve um único ensaio, nem para a gravação do primeiro trabalho, gravado “ao vivo” em 2019, no Príncipe Real.

Pierre Aderne comanda mais um “toast circular”, técnica aprendida com o vizinho Tom Jobim. Foto: Nicole Sanchez

Vinho, wine album e “toast circular”

O vinho desde o início tem sido o amalgama das tertúlias. Os bilhetes com copos de boas-vindas ou bar aberto sempre foram os mais procurados na sessões do Príncipe Real, até para que os convivas pudessem brindar na companhia do anfitrião o “toast circular”, segundo Pierre, um estilo patenteado pelo vizinho famoso da rua Nascimento Silva e que consiste em girar o copo para fazer circular o líquido e a boa energia. Estima-se que mais de sete mil garrafas já tiveram o conteúdo a girar nos brindes das noites do palacete.

O toast circular também engarrafou uma estratégia comercial. Com o sugestivo título de Songs in a Bottle, em 2019 Pierre Aderne lançou um disco em parceria com a vinícola Alvarinho e um código gravado na rolha dos rótulos de Soalheiro permitia descarregar na web o wine album da Rua das Pretas.

No último dia 16 de fevereiro, Pierre Aderne voltou a lançar mais um álbum, desta vez Um Copo de Fado, Dois de Bossa Nova, compilação de uma das sessões no Coliseu de Lisboa, em 12 de junho do ano passado. Como o dicionário de Pierre parece não conter o verbete “descanso”, já há um outro trabalho engatilhado, com o título Samba para Inglês Ver, que terá direito a versões bilingue em português e inglês.

Para Pierre, a Rua das Pretas comporta uma importância sociológica, mesmo que seja de uma “sociologia de tasca, de boteco”, que traduz o contexto desta Lisboa destino de pessoas “cultas e interessantes”, como a Nova Iorque em que viveu nos anos 1990. Um movimento que para ele faz bem à cidade e recupera uma nostalgia portuguesa de descobrir o mundo. “Só que agora, é o mundo que navega em direção à Portugal. A Rua das Pretas está nesta vaga, ainda com muito mar pela frente”, diz, enquanto os sinos distantes o convocam para viagem que está apenas por começar.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 48 anos, há cinco em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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2 Comentários

  1. Sempre gostei muito de música brasileira – quem diria que ela vive aqui tão perto

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