Foto: Rita Ansone.

No Jardim do Príncipe Real, há uma árvore que pode orgulhar-se de ser a “joia da coroa”. O imponente cedro e a sua copa com 26 metros de diâmetro – a maior da Europa – é há quase 150 anos o refúgio de quem busca proteção do sol, vento e chuva sob a urdidura dos ramos castanho-avermelhados, perfumado pelo doce aroma de verde que exala das suas folhas.

Bianca Castro, a “autora” do diário da frondosa árvore do Jardim do Príncipe Real: registo do dia a dia como de um bebé. Foto: Rita Ansone.

Um lisboeta tão ilustre que há uma década tem as suas atividades devidamente registadas num diário pela Junta de Freguesia da Misericórdia, as anotações a cargo da luso-brasileira Bianca Castro. Ela é arquiteta com ADN para as letras, filha do escritor Ruy Castro, nascida em Lisboa durante o período em que o pai viveu na cidade, nos anos 1970.

Um diário como tantos outros diários, onde são anotados os acontecimentos do dia a dia do cedro-do-buçaco, alguns a lembrar as rotinas dos bebés, como banhos e tratamento contra piolhos, outros nem tão pueris assim e que expõem a falta de cuidado de alguns lisboetas com este património da cidade – como as ocorrências de depredação e até de incêndios.

Os registos estão disponíveis aos interessados em versão digital e para consultá-los basta entrar em contacto com a Junta de Freguesia da Misericórdia, que a autora do diário terá muito gosto em partilhá-los.

A árvore é catalogada como cupressus lusitanica. Foto: Rita Ansone.

A relação de Bianca com a árvore, porém, vem de antes do diário. 

Em finais de 1975, a arquiteta ainda um bebé voltou com a família para o Brasil, onde viveria no Rio de Janeiro e em São Paulo. Duas décadas depois, após formar-se em arquitetura na Faculdade de Belas-Artes da USP, Bianca voltaria a Lisboa na viragem do século, agora em voo solo. Foi justamente aí que reparou no cedro pela primeira vez.

“Quando ainda estava a procurar por uma casa em Lisboa, passei pelo Príncipe Real e, ao ver aquela árvore enorme e convidativa, pensei: se não achar um teto, posso viver aqui”, diverte-se a arquiteta, lembrando-se do dia em que cogitou recorrer à copa frondosa do cedro para ter um sítio onde dormir.

A verdade é que Bianca nunca fez da árvore alojamento local. Acabou por viver ali perto, na Praça das Flores, sem um dia imaginar que no futuro seria ela a cuidar do cedro.

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O registo das banhocas no cedro

A ideia de escrever um diário para a árvore veio com a responsabilidade atribuída à Junta de Freguesia da Misericórdia de cuidar do Jardim do Príncipe Real, em 2014. 

Até então, as áreas verdes de Lisboa estavam a cargo da Câmara Municipal, que transferiu a gestão para as juntas, com algumas exceções, como os parques de Monsanto e da Bela Vista, e o Jardim da Estrela, considerados “estruturantes” para a cidade. Como chefe da Divisão Espaço Público da Misericórdia, a “joia” do Príncipe Real acabou por cair “no colo” de Bianca. 

Com 26 metros de diâmetro, a copa do cedro-do-buçaco do Príncipe Real é a maior da Europa. Foto: Rita Ansone.

“Já havia trabalhado com espaço público na Câmara de Lisboa antes de vir para a Junta de Freguesia da Misericórdia, mas nunca com espaço verde. Na primeira visita ao Jardim do Príncipe Real, a engenheira florestal olhou para a árvore e benzeu-se. Perguntei o que estava acontecendo e ela respondeu que, se algo ocorresse ao cedro, estavam todos perdidos”, conta.

Sem desmerecer o poder da fé da engenheira, a arquiteta decidiu montar uma equipa multidisciplinar de especialistas para cuidar da manutenção da árvore e evitar que, no futuro, não fosse ela a ter de se benzer diante do cedro a cada visita à “joia da coroa” – chamada literalmente assim por todo corpo de jardinagem da Junta. 

Em novembro de 2014, técnicos da Câmara Municipal, do Instituto de Conservação da Natureza e da Floresta (ICNF) e do Laboratório de Patologia Vegetal do Instituto Superior de Agronomia (ISA), além dos especialistas da Junta de Freguesia da Misericórdia, realizaram a primeira da série de visitas de inspeção em conjunto.

A data marca também o início do diário, com a primeira entrada a 28 de novembro daquele ano:

“Hoje, o cupressus recebeu a visita da engenheira Sandra Campos, da doutora Sofia Aníbal, da engenheira Patrícia Martins, do engenheiro Campos Andrade e da arquiteta Bianca Castro. Foi prescrita uma lavagem para após o período de arrebentação dos brotos existentes”.

A “lavagem” registada no primeiro dia do diário do cupressus lusitanica, o nome de batismo científico da árvore popularmente chamada de cedro-do-buçaco, é o acontecimento mais comum nestas páginas. Com o tempo, porém, a familiaridade de Bianca com o novo membro da família da Junta deu tons, digamos, quase maternais ao diário. 

No dia 11 de abril de 2016, a “lavagem” já era tratada de outra forma:

“Primeira banhoca do ano, com pressão em alto volume e calda de detergente à concentração de 200 mililitros em 100 litros de água.”

A anotação no diário indicava ainda detalhes sobre o tipo de champô na banhoca da árvore:

“Teepol ou outro detergente, desde que neutro.”

É ou não é um sortudo esse cupressus?

Incêndios, lixo e depredações

Sob o rigor da ciência, o cedro-do-buçaco do Jardim do Príncipe Real não é nem um cedro nem tem origem na Serra do Buçaco. Segundo o livro Árvores na Cidade (Edições By The Book), a vistosa planta é um cipreste (o tal cupressus, em latim), cuja copa em vez de crescer “para cima”, espalha-se frondosamente para os lados, na horizontal. 

Um gradil de proteção foi recentemente instalado ao redor da árvore para diminuir os riscos de depredação e incêndios. Foto: Rita Ansone.

Uma árvore que apesar do lusitanica no sobrenome científico vem das zonas montanhosas da América Central, introduzida em Portugal no século XVII. Mais precisamente, pelos Carmelitas Descalços que, antes da extinção das ordens religiosas em Portugal, em 1834, ocuparam a região da Serra do Buçaco (daí o buçaco na terminologia vulgar da planta).

Os registos dão conta de que foi nessa serra, em 1644, que os monges descalços plantaram uma árvore que ficaria famosa, o Cedro de São José, um parente mais velho do cedro do Príncipe Real, ali desde a finalização da edificação do jardim, em 1869, ou seja, há mais de um século e meio.

A idade avançada, porém, não é sinal de que alguns lisboetas e visitantes da cidade estejam a respeitar os mais velhos.

A 10 de outubro de 2016, o diário do cedro regista um acontecimento triste:

“Durante a madrugada, o cedro-do-buçaco foi incendiado no Jardim do Príncipe Real. Os bombeiros extinguiram o incêndio pelas quatro e quinze da manhã”.

Se salvou o cedro do pior, a atuação dos bombeiros acabou por ser uma espécie de “segundo incêndio” sofrido pela árvore. “O pó químico e o volume de água usados para conter as chamas pelos bombeiros provocaram danos colaterais na saúde da árvore”, conta Bianca Castro. “Era outubro e levou muito tempo para que a zona alagada à volta do cedro pudesse secar.”

O incêndio de 2016 foi um dos três sofridos pelo cedro-do-buçaco nos dez anos cobertos pelo diário. Para além do risco de ser consumido pelo fogo, a árvore tem sofrido outros tipos de agressões, como a registada em 9 de fevereiro de 2021.

“O cupressus sofreu mais um dano na pernada já anteriormente vandalizada”, indica o diário.

A pernada em questão é um dos grossos ramos partidos por alguém que subiu e, provavelmente, utilizou-o como uma espécie de trampolim. 

Após uma inspeção, foi decidido que a área ao redor do cedro seria completamente vedada para protegê-lo de danos semelhantes ao do incêndio e da vandalização. A proteção também tenta evitar o acúmulo de lixo junto à raiz, as garrafas, latas, maços vazios de cigarros e outros dejetos atirados na árvore como se fosse uma imensa lixeira.

Quanto ao tronco partido, o diário dá conta a 11 de fevereiro de 2021 de que a “expectativa é de que cupressus consiga recuperar o equilíbrio da pernada”.

O dia em que choveram joaninhas no Príncipe Real

A fonte do Jardim do Príncipe Real desativada pela EPAL reduz a oferta de água para a árvore e os demais arvoredos ao redor. Foto: Rita Ansone.

Não é só pela recuperação do equilíbrio da pernada do cedro que os técnicos aguardam. A Junta de Freguesia da Misericórdia espera também que a EPAL cumpra a promessa de restaurar a imensa fonte no Jardim do Príncipe Real, responsável pelo equilíbrio térmico no espaço, desativada há mais de dois anos.

A chefe da Divisão Espaço Público lembra que, quando o sistema operava, costumava jorrar um jato de água de seis metros de altura, cujas gotas acabavam por dispersar pelo ar e garantir a rega da vegetação vizinha, inclusive a do imenso cedro. O grande reservatório também mantinha a humidade do solo, em contato com as raízes das árvores.

Todas as demais fontes nas praças, ruas e becos da Misericórdia acabaram por ser reformadas pela Junta e estão em funcionamento. Bianca não sabe o motivo, mas a fonte do Príncipe Real é a única na freguesia em que a EPAL ainda não passou para as mãos da administração local nem toma a iniciativa de recolocá-la em funcionamento.

Se o cedro do jardim continua privado do banho pela fonte desativada no jardim, recentemente recebeu uma banhoca para lá de especial. A fim de substituir a tradicional lavagem com água e detergente, a Junta de Freguesia resolveu seguir um tratamento alternativo para tratar da constante aparição de “piolhos” na árvore: uma largada de joaninhas.

A operação consistia em espalhar pelo cedro-do-buçaco larvas de joaninha, os predadores naturais da cinara, os tais piolhos que rondavam o cipreste. A 14 de setembro de 2022 , o diário dá conta da operação que envolveu a largada de “um balde” dos insetos na árvore. 

O dia, portanto, em que choveram joaninhas no Príncipe Real.

A última consulta do cedro, apontada no diário em 22 de maio deste ano, dá conta de que, pela primeira vez desde o início dos registos, a árvore encontra-se sem piolhos. “E sem as cinaras por perto, as joaninhas agora estão a tratar dos arbustos vizinhos”, emenda Bianca.

Uma prova de como uma chuva de joaninhas, além do seu valor poético, tem um alto grau de eficiência no tratamento de pragas.

Assim diz o diário do cedro.


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 50 anos, há sete em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

alvaro@amensagem.pt


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