O Portão de Brandemburgo, um dos cartões-postais de Berlim, uma cidade que tem algumas coisas a ensinar a Lisboa. Foto: Stuthnagyniki/Pexels.

Embora à primeira vista possa parecer um paralelo improvável, a comparação entre Lisboa e Berlim revela-se um exercício frutífero, especialmente para quem busca identificar soluções para os desafios urbanos. A frequência com que os portugueses visitam Berlim, seja por lazer ou trabalho, reforça a relevância de tal comparação.

Ao observar de perto a capital alemã, pode-se extrair lições valiosas e explorar pontos de melhoria para Lisboa. Nos últimos anos, durante as minhas viagens, fiz questão de observar as soluções e problemas enfrentados pelas administrações locais em diferentes cidades, procurando alternativas que pudessem ser replicadas no solo lisboeta.

Mulher observa um dos fragmentos do antigo muro que separava o lado Oriental do Ocidental de Berlim. Foto: Ann Buht/Pexels.

O exemplo do turismo

Berlim implementou várias medidas para controlar o fluxo de turistas, como a promoção do turismo cultural e histórico, e a diversificação de zonas turísticas para além do centro da cidade. Ambas as cidades, Lisboa e Berlim, são capitais europeias, com ricas histórias e amplo património cultural e, consequentemente, atraem muitos turistas.

Em março e abril, boa parte dos visitantes de Berlim são do sul da Europa (sobretudo de Espanha e Itália). Todos os anos, a cidade recebe mais de 13 milhões de turistas (números de 2019), gerando mais de 12 mil milhões de euros em receitas e dando emprego a 250 mil pessoas no sector do turismo.

Por seu lado, Lisboa, recebeu 6,5 milhões de turistas em 2023 (contra 2,7 milhões em 2022), gerando 12,8 mil milhões de euros de receita, criando cerca de cem mil empregos diretos neste sector.

A preservação do património

A cidade alemã investe muito na preservação do seu centro histórico, garantindo a sua beleza e autenticidade, assim como valorizando a arte urbana, integrando-a ao tecido urbano em vários arruamentos e parques públicos.

Ao contrário de Lisboa muitos edifícios foram quase totalmente destruídos na Segunda Grande Guerra (e à semelhança de Varsóvia) estão escrupulosamente reconstruídos respeitando as fachadas originais (é o caso, entre muitos, do bairro do Almirantado).

A atitude perante a memória é também muito forte em Berlim: em vários arruamentos encontra-se, no piso pedonal, pequenas placas com os nomes, datas de nascimento e morte, dos mais de 80 mil judeus que resistiram na cidade em 1939 (tinham chegado a ser o dobro).

A cúpula de vidro do Reichstag, o Parlamento Alemão, bombardeado na guerra, hoje uma das atrações turísticas da cidade: Foto: Janos Csatlos/Pexels.

É também comum encontrar, entre prédios habitacionais ou jardins, segmentos do muro de Berlim, sendo possível ainda encontrar – junto ao Ministério das Finanças – um relativamente longo resqício do muro ainda erecto.

Outras partes do muro são vendidas nas lojas de recordação da cidade, desde pequenos fragmentos em postais até em grandes pedaços, junto ao famoso Checkpoint Charlie, a fronteira das duas partes da cidade durante a Guerra Fria. Noutros locais, é possível vislumbrar no passeio ou no betuminoso uma carreira de pedras que sinalizava onde passava o muro, com a frase: Berliner Mauer 916-989.

Vestígios de balas

Em muitos bairros e arruamentos de Berlin, há cartazes, placas no piso e invocações ao que existia no local antes da reconstrução da cidade, depois do último conflito mundial. É uma forma de manter viva a memória e de ligar os moradores à cidade.

Existem alguns exemplos semelhantes em Lisboa, com roteiros à perseguição dos judeus (como em Berlim), por exemplo junto à Igreja de São Domingos ou ao papel de Manuel da Maia, na avenida de mesmo nome, mas em menor quantidade e mais dispersos do que em Berlim.

Poucos (em alguns bairros, quase nada) dos edifícios do centro de Berlim são os originais mas a reconstrução replicou a arquitectura original (à custa de cimento no lugar da pedra original) e alguns edifícios históricos (palácios e museus) exibem marcas de balas e projécteis de alto calibre.

Vestígios de balas disparadas na Segunda Grande Guerra no antigo muro que separava a Berlim Ocidental do lado Oriental. Foto: Cottonbro/Pexels.

Em Lisboa nada de comparável existe, mas no Convento do Carmo, onde encontra-se vestígios de balas disparadas durante a Revolução dos Cravos em 1974. Alguns prédios de Alfama ainda guardam vestígios de balas da Guerra Civil Portuguesa (1828-1834), assim como no prédio da Bertrand da Rua Garrett, no pátio do atual Museu do Aljube (antiga prisão do Estado Novo) e nas paredes do antigo Quartel da Penha de França, hoje um centro cultural.

Dada a turbulência bélica das últimas décadas, este tipo de testemunhos é menos comum em Lisboa do que em Berlim, onde existem percursos turísticos que esclarecem os visitantes sobre a história recente da cidade, seguindo o trilho desse importante elemento no Reichstag, sede do parlamento alemão, e no vizinho Portões de Brandemburgo, talvez o mais importante símbolo da cidade, que exibe marcas de balas nas colunas.

A poucos passo dali, no bairro de Mitte, às margens do rio Spree, vários edifícios de tijolo reúnem vestígios de balas, como também a Catedral de Berlim, o Altes Museum, o Museu de Pérgamo e a Neue Nationalgalerie.

Marcas de bala em Berlim que são um importante património histórico da Segunda Grande Guerra, activamente preservadas para que as futuras gerações possam conhecer os horrores da guerra.

A presença russa

Existe em Berlin uma comunidade russa muito presente e vibrante. Há na capital alemã pelo menos uma livraria dedicada a edições em língua russa e a maior livraria de Berlin, a Dussmann, na Friedrichstraße, com os seus impressionantes três andares exibe uma secção em língua russa judiciosamente colocada geograficamente ao lado de… outra em língua ucraniana.

A Aeroflot, a mítica linha aérea russa, ainda mantêm uma loja na Brandenburger Tor mas, sem o seu pessoal, dado que pouco depois do começo da invasão da Ucrânia foi disperso pelas filiais da empresa russa na Arménia, Sérvia e Casaquistão. Para trás ficou apenas o logotipo, a bandeira e uma equipa de segurança que, frequentemente, é visada por manifestações da numerosa comunidade ucraniana em Berlim.

Ainda na Friedrichstraße, avista-se a Russiches-haus.de, a Casa da Rússia, com uma biblioteca e uma grande área deconvívio. A presença russa em Lisboa é muito mais discreta e resume-se à grande embaixada na rua Visconde Santarém. Embora pequena, a comunidade é activa, vibrante e fortemente ligada a várias causas comunitárias e maioritariamente ligada à oposição ao regime de Putin.

Os pavimentos pedonais

Os pavimentos pedonais de Berlim são amplos, horizontais e bem preservados, com raríssimas excepções. No que respeita a acessibilidade pedonal, a capital alemã está a anos-luz de Lisboa ea sua calçada mal mantida, onde os buracos, depressões e elevações são comuns.

Todos os passeios berlinenses são largos e quase sem obstáculos, com a excepção de alguns (mais raros que em Lisboa) mupis eletrónicos e de caixas de comunicação, as quais, ao contrário de Lisboa, servem de suporte a publicidade comercial.

Uma explicação para a qualidade do pavimento pedonal de Berlim passa pelo uso sistemático de piso em blocos de cimento e lajes de pedra. Na parte oriental (ex-RDA), a zona central do passeio que sofreu intervenções recentes surge com lajes de cimento. Na época comunista, a acessibilidade pedonal no centro do passeio era garantida com grandes blocos de pedra, obtendo-se o mesmo efeito mas com maior irregularidade.

Os buracos, depressões e elevações são raros em Berlim, mas as passadeiras raramente surgem demarcadas na via. Quando o são, são-no apenas nas vias mais frequentadas e nunca com zebras, mas apenas com finas faixas de tinta branca.

As guias de acesso às passadeiras que são muito úteis aos deficientes visuais são inexistentes em Berlim, ao contrário de Lisboa onde, felizmente, começam a ser regra. Os semáforos não apresentam nem contadores nem avisos sonoros, como começa também a ser comum em Lisboa.

Nesse quesito, Lisboa está em vantagem, ao contrário no que respeita à qualidade do pavimento pedonal, onde a capital portuguesa está francamente abaixo de Berlim.

Os transportes públicos

Berlim possui um sistema de transporte público extenso, eficiente e integrado, incluindo S-Bahn (comboios urbanos), U-Bahn (metropolitano), composto por elétricos rápidos e autocarros (alguns dos quais articulados), além das ciclovias, das bicicletas partilhadas com estações e programas de incentivo ao uso.

A rede de elétricos berlinense tem mais de três vezes a extensão da que percorre a cidade de Lisboa. Foto: Manuel Kapunkt/Pexels.

A rede de eléctricos rápidos é moderna e extensa, tendo a Schnell Bahn mais de 155 quilómetros de extensão, com oito linhas e 270 estações. Por seu lado, Lisboa tem apenas 40 quilómetros de extensão, com quatro linhas e 31 estações.

A frequência dos elétricos rápidos em Berlim varia de acordo com a linha e a hora do dia, mas geralmente é de 5 a 10 minutos durante o dia e, de 10 a 20 minutos, à noite. Em Lisboa a frequência é idêntica, porém maior de noite.

Em velocidade, a rede de Berlim leva vantagem com 40 km/h de velocidade média e uma velocidade máxima de 80 km/h. Por comparação, em Lisboa, a velocidade média dos elétricos rápidos é de 30 km/h, e a máxima, de 70 km/h.

Há também que ter em conta que os elétricos rápidos de Berlim são geralmente mais recentes e mais confortáveis do que os de Lisboa.

As estações do Metropolitano não têm todas acessibilidade a pessoas com mobilidade reduzida e as que apresentam elevadores fazem-no num acrescento recente, que não aparenta ter mais de dez anos. Em Lisboa, esse cenário é mais frequente.

Uso de carros partilhados

A experiência de mobilidade partilhada usando veículos automóveis de Lisboa falhou. A DriveNow desligou o serviço de carsharing que tinha começado em 2017, um serviço chegou a ter 200 veículos (sobretudo Minis e BMWs), antes precedido por uma oferta de pequena escala da Carris (Mob Carsharing) que terminou em 2018.

Em Berlim, ocorreu o contrário e este tipo de veículos tem um uso fluorescente.

Estão disponíveis vários operadores de carros partilhados: Miles, ShareNow (anteriormente Car2Go), Sixt Share e Cambio. Em 2019, o site Statista dava como estando nas ruas da capital alemã 5.814 veículos compartilhados.

O serviço da Miles cobra 89 cêntimos por quilómetros e a ShareNow, desde 19 centavos por minuto, com custos variáveis com base no tamanho e modelo do carro. A maioria destes veículos (como sucedeu em Lisboa) deve encerrar os percursos em algumas zonas da cidade, mas a ShareNow e a Miles permitem estacionamento fora da zona por uma taxa extra. A Sixt Share oferece um padrão único, permitindo que se devolva o carro em qualquer lugar da Alemanha (ainda que apenas em estações próprias).

Bicicletas, ciclovias e mobilidade leve

As ciclovias são uma constante na capital alemã: a maioria está colocada no betuminoso, sem construção especial, com algumas (raras) ocupando passeios mais largos. Não existe, praticamente, separação por pilaretes entre as ciclovias e a estrada, mas a coexistência entre ciclistas e automobilistas parece pacífica e há um respeito generalizado pelos sinais de paragem na passadeira (ao contrário do que acontece em Lisboa).

A presença de trotinetes partilhadas é comum em ambas as cidades, mas o seu uso é mais popular em Lisboa e com preços ligeiramente inferiores. Em Berlim, o uso de trotinetes é mais regulado, com medidas (tais como a obrigatoriedade do uso de capacete: raramente respeitado) mas os preços são um pouco mais altos e a variedade de operadores é menor do que na capital portuguesa.

Berlim promove mais o uso de bicicletas pelos cidadãos. Lisboa apresenta melhoras, mas ainda há um longo caminho a percorrer. Foto: Igor Ejov/Pexels.

As bicicletas são muito comuns em Berlim e a cidade tem uma infraestrutura mais desenvolvida, cultura do ciclismo mais forte e menores desníveis. Lisboa está a investir na expansão da sua rede de ciclovias e na promoção do uso da bicicleta, mas ainda há um longo caminho a percorrer tendo havido inclusivamente alguns recuos nos últimos anos (por exemplo, na avenida de Berna).

Note-se também que em Berlim existem pelo menos duas empresas que alugam o uso de bicicletas de carga partilhadas (uma delas é a foxtrail.de) e que estes equipamentos podem ser encontrados pela cidade (embora, raramente, nas zonas delimitadas para o efeito: ao contrário do que sucede em Lisboa com estes tipo de meios de mobilidade leve).

Redes de bicicletas partilhadas

Não é fácil comparar as redes de partilha de bicicletas de Lisboa e Berlim. A paisagem é muito diferente (a planura de Berlim contrasta com as colinas de Lisboa), a infraestrutura oferecida é muito diferente e os próprios utilizadores são totalmente diferentes.

Em Lisboa, a rede pública pertence à empresa municipal Gira que a lançou em 2017 com um misto de bicicletas convencionais e elétricas tendo 1.400 bicicletas, e 180 estações com docas. O seu uso depende de uma aplicação instalada no smartphone e apresenta preços muito competitivos, desenhados para atrair o maior número possível de utilizadores (os primeiros 45 minutos de cada viagem são gratuitos).

A rede de bicicletas da cidade alemã é mais diversificada do que no cenário lisboeta. Foto: Tuan Vy/Pexels.

A rede, contudo, tem revelado fragilidades quer na aplicação, quer na distribuição das estações quer, sobretudo, na disponibilidade de bicicletas (sobretudo as com assistência eléctrica). Em Lisboa existem também operadores privados sem doca mas não têm a escala de oferta da rede pública.

Berlim tem uma rede partilhada mais madura e diversificada com 16 mil bicicletas e 1.500 estações com docas. Serviços como Nextbike, Call a Bike e Lime oferecem uma vasta gama de alternativas aos seus utilizadores, incluindo bicicletas eléctricas, e sistemas sem doca que permitem aos seus utilizadores recolher e deixar bicicletas dentro de zonas previamente determinadas (o que não impede que, como em Lisboa, seja comum ver bicicletas partilhadas fora desses locais).

Higiene urbana, tags, bombing e reciclagem

Os tags são muito raros nas paredes dos edifícios de Berlim sendo uma das raras excepções as ruínas da Flak Tower do parque Humboldthain. A Arte Urbana (grafitti) é igualmente rara e reduzida a algumas paredes laterais de alguns edifícios públicos.

O oposto – diametral – se passa com o bombing de autocolantes em semáforos junto a atravessamentos pedonais que é muito mais intenso que em Lisboa expondo uma grave lacuna na sua remoção (que é comum em Lisboa) por parte das autoridades municipais.

Se em Lisboa há problemas na higiene urbana, o certo é que em Berlim é mais frequente encontrar garrafas e restos de refeições abandonados nos espaços, passeios, bancos e jardins públicos. Lisboa, a este respeito, apresenta uma melhor condição do que a cidade alemã.

Cartazes político-partidários

Embora existam muitos autocolantes de propaganda político-partidária nas colunas de iluminação e, sobretudo, nos semáforos de Berlim, os cartazes permanentes e entre campanhas são raros.

Em Lisboa, pelo contrário e devido a uma legislação demasiado permissiva essa presença é comum e apesar de algumas iniciativas muito meritórias por parte da CML (que, infelizmente, podem não ter suporte legal) há zonas infectadas, durante anos, por grandes placards de propaganda partidária permanente (por exemplo na Alameda D. Afonso Henriques e na Praça Francisco Sá Carneiro) demonstrando a necessidade de rever a legislação existente e de proteger os sistemas de vistas e a qualidade do espaço público na capital portuguesa.

Casas de banho públicas

Infelizmente, as casas de banco públicas são tão raras em Berlim como em Lisboa dependendo ambas as cidades dessas estruturas obrigatoriamente disponibilizadas por cafés, pastelarias e restaurantes. Os balneários públicos das estações da rede de caminhos de ferro alemãs são pagos e explorados por concessionários privados e custam entre 20 a 50 cêntimos (dependendo do local e do operador).

Em Lisboa, a J.C. Decaux herdou uma rede algo decrépita que repôs parcialmente a funcionar (por exemplo, na avenida Padre Manuel da Nóbrega) e algumas Juntas de Freguesia também têm alguns destes equipamentos (com na Penha de França) mas a oferta de balneários públicos é praticamente tão escassa como em Berlim.

Cidadãos sem-abrigo

Se em Lisboa uma parte muito significativa da população sem abrigo é de origem estrangeira, em Berlim passa-se o oposto. Em algumas zonas – sobretudo junto a estações dos caminhos de ferro – existem tendas e pessoas dormindo na rua, mas a maioria é de nacionalidade alemã.

Estima-se que existam cerca de 4.500 pessoas em Berlim em situação de sem abrigo em Berlim, incluindo cerca de 1.500 que vivem nas ruas.

Por seu lado, Lisboa tem entre 1 a 2 mil cidadãos nestas condições. Se compararmos Berlim, com mais de 3.6 milhões de habitantes, com Lisboa com os 545 mil habitantes tem 0,28% da população em condição de sem-abrigo. Isto significa que Lisboa tem mais do dobro, comparativamente, da população sem abrigo de Berlim. E isto apesar da “prioridade” declarada pelo Presidente da República de acabar com a situação até 2023). Claramente, Lisboa perde para Berlim nesta comparação.

Demografia

A população de Berlim é mais jovem, com 15,7% do total com menos de 15 anos e 13,4% com mais de 65 anos. Por seu lado, Lisboa, tem uma população envelhecida, com 13,6% com menos de 15 anos e 22,1% com mais de 65 anos.

É também importante sublinhar que Berlim é uma autêntica “cidade multicultural”, tendo 36% da população de origem estrangeira. Lisboa é uma cidade menos diversa, com 14% da população com origem estrangeira e isto apesar do crescimento da imigração oriunda do Brasil e do hindustão que se registou nos últimos anos.

Distância física e social

Os portugueses convivem melhor com a proximidade física do que os alemães e esse pormenor da socialização lusa é uma das que mais choca os alemães que visitam ou vivem em Lisboa. De forma bem diversa, contudo, o distanciamento social em Portugal faz-se mais pelo uso e abuso dos títulos académicos do que na Alemanha (através do uso de títulos como “professor”, “doutor” ou o “engenheiro”).

Na Alemanha o título é apenas usado por médicos ou, em contexto académico, não social. Consequentemente, a subserviência social para com representantes da academia que atravessa a sociedade portuguesa não existe na capital alemã.

Segurança pública

Embora existam zonas mais inseguras nas duas capitais, nas regiões centrais de Berlim a percepção e o risco de segurança são relativamente mais baixos do que em Lisboa (a quase total ausência de tags dá o seu contributo: assim como as ruas largas, a quase inexistência de lojas falidas e a boa iluminação pública).

Contudo, de noite e em certas zonas de Berlim existe um nível de insegurança relativamente elevado.

Lisboa tem uma taxa de criminalidade global de 2.194 crimes por 100.000 (2022). Em Berlim essa taxa é de 3.474 crimes por 100.000 habitantes (2022) sendo, em ambas as cidades, os crimes contra o património (roubos e furtos) são os mais frequentes.

Em Berlim, o furto de bicicletas é muito mais reportado do que em Lisboa o que se explica pela maior densidade de uso destes meios de mobilidade leve não sendo raro, de facto, encontrar bicicletas incompletas abandonadas pelas ruas de Berlim. Este desvio explica também boa parte da maior taxa de criminalidade registada na cidade alemã.

Estado das vias, passadeiras e sinalização

As vias de trânsito estão muito bem mantidas em Berlim sendo raros os seus danos e consequentes reparações improvisadas (ao contrário de Lisboa). As passadeiras não estão – em regra – delimitadas a não ser por passeios rebaixados e, consequentemente, não são facilmente percepcionados pelos condutores.

Aliás, no geral, em Berlim as marcações rodoviárias são mais raras do que em Lisboa (onde estas são profusas, embora, nem sempre bem mantidas). Muitas zonas da cidade de Berlim apresentam sinais de limitação de velocidade para 30 Km/h, como sucede em Lisboa em alguns bairros Zona 30 e alguns acrescentam esse alerta em tinta no betuminoso.

Os semáforos em Berlim não costumam ter avisos sonoros, como acontece com mais frequência em Lisboa. Foto: Cottonbro/Pexels.

Os semáforos de Berlim não têm avisos sonoros, ao contrário do que está implantado em algumas zonas de Lisboa desde 2017 em algumas centenas das 2.200 passadeiras reguladas por semáforos da capital portuguesa.

Se estes tipos de semáforos existem em Berlim não os encontrei nas muitas ruas que percorri nem encontrei online qualquer referência aos mesmos. Curiosamente, em Berlim, os botões que aceleram a mudança de sinal para verde para peões funcionam, mesmo, ao fim de alguns segundos quando ao funcionamento desses botões nos semáforos de Lisboa… bem… é uma questão polémica.

Iluminação pública

Existem algumas colunas de iluminação históricas, de finais do século XX, nas zonas históricas de Berlim, mas em menor quantidade do que em Lisboa. Como na capital portuguesa, a iluminação por LED ainda não é total havendo muitos candeeiros com formas de iluminação anteriores. A percentagem de candeeiros apagados é significativa mas claramente muito inferior aos números de Lisboa onde o problema se tem agravado nos últimos anos à espera de uma ainda por concluir migração para LED.

Habitação

O mercado de arrendamento em Lisboa apresenta preços elevados e escassez de oferta, especialmente no centro da cidade. A aquisição de casa também é especialmente difícil e inacessível apesar do aumento da oferta recente (produto de migração do uso como Alojamento Local), e, sobretudo, difícil para jovens e muito desconforme com o ritmo de crescimento do salário médio.

Em Berlim o mercado de arrendamento é mais acessível do que Lisboa, com preços mais baixos e uma maior oferta de apartamentos, sendo que uma ampla parcela desta oferta são edifícios de fraca qualidade construídos – na antiga Berlim Oriental – nos tempos da RDA.

Comprar casa também é mais fácil do que Lisboa, especialmente fora do centro da cidade e devido aos salários (quatro vezes maiores: em média do que em Lisboa). Lisboa enfrenta uma grave crise de acessibilidade, com preços altos e escassez de oferta.

Berlim tem um mercado mais acessível, mas os custos de manutenção podem ser mais altos. Ambas as cidades precisam de medidas para aumentar a oferta de habitação acessível e melhorar as condições das habitações existentes e o aumento recente dos preços da habitação é – juntamente com a inflação – as duas maiores preocupações dos berlinenses.

Árvores e espaços verdes

As caldeiras de árvores de Berlim são amplas e bem mantidas. Algumas têm pequenas floreiras mantidas por moradores e pelos espaços comerciais que se situam imediatamente à sua frente. Quase nenhuma apresenta a protecção metálica que deve existir em todas as caldeiras e há poucas árvores recentemente plantadas e praticamente nenhum toco de árvore por remover e replantar.

O mesmo, infelizmente, não se pode dizer de Lisboa, onde os tocos de árvores chegam a estar anos à espera de substituição. Há em Berlim poucas árvores recentemente plantadas e, consequentemente, poucas árvores com apoios laterais. Em Lisboa essa visão é mais comum fruto das campanhas recentes de replantação e de plantação de árvores em novos locais.

O parque Tiergarten corta o coração de Berlim e separava as duas cidades nos tempos da Guerra Fria. Foto: Viviana Ceballos/Pexels.

Moradas

Em Portugal as caixas de correio dos prédios têm apenas a morada: por exemplo, R/C Esq. ou 1º-Dto. Mas na Alemanha e, consequentemente, em Berlim, as placas das caixas de correio situadas nas entradas dos prédios têm os nomes completos ou, apenas, os nomes de família dos moradores.

Esta prática é comum no norte da Europa (também na Bélgica e Países-Baixos) e causa alguma estranheza em função dos regulamentos do RGPD mas a prática resistiu a este regulamento europeu e persiste hoje, como se comprova em todas as portas de prédios habitacionais da capital alemã.

Preços

Os preços de produtos no supermercado e no comércio – assim como o próprio comércio – apresentam grandes diferenças entre Lisboa e Berlim. Desde logo, as numerosas frutarias e lojas de telemóveis que existem em Lisboa são virtualmente inexistentes em Berlim. Os preços do supermercado são idênticos.

Comparando vários artigos, por exemplo, entre o Lidl alemão e o Continente, certifica´se que, em média, os preços são, em Lisboa, 40% mais altos. Isto contrasta com os salários portugueses que são, também em média, 1/4 dos auferidos em Berlim…

Portugal paga o preço da periferia e dos consequentes custos de transporte, mas isso não explica os preços dos produtos de produção nacional. Apenas a cartelização e a fraca concorrência entre as grandes redes de distribuição no nosso país.

Comércio Local

Um dos pontos de diferença entre Lisboa e Berlim é a profusão, na primeira, de lojas de venda e reparação de telemóveis, de frutarias e barbeiros. Em Berlim, nas zonas centrais e mais periféricas essas lojas são raras e, no caso dos telemóveis, quase totalmente inexistentes. O contraste é chocante e indica uma diferença na presença de comunidades imigrantes entre as duas cidades e as actividades profissionais a que ambas se dedicam.

Contudo, no que concerne à presença de imigrantes nas superfícies comerciais mais “convencionais” e na restauração de cozinha internacional já se encontram mais semelhanças com Lisboa, talvez ainda com mais intensidade dado o intenso carácter cosmopolita da cidade alemã.

Conclusão

Lisboa e Berlim são duas cidades cultural e socialmente muito vibrantes e cheias de história, cada uma com suas próprias vantagens e desvantagens. O nosso clima é mais ameno que o de Berlim e a nossa gastronomia é considerada muitas vezes melhor que a alemã. O mesmo se pode dizer do contexto histórico e dos monumentos (mais antigos) e dos prédios históricos (vantagens de termos escapado ao último conflito mundial). Berlim, por outro lado, é uma cidade mais cosmopolita e moderna do que Lisboa, com um panorama artístico e cultural mais dinâmico. Naturalmente, a cidade alemã também é um importante centro de negócios e económico.


*Rui Martins nasceu em Lisboa, numa Rua da Penha de França, num edifício com uma das portas Arte Nova mais originais de Lisboa. Um ano depois já tinha migrado (como tantos outros alfacinhas) para a periferia. Regressou há 18 anos. Trabalha como informático. Está ativo em várias associações e movimentos de cidadania local (sobretudo na rede de “Vizinhos em Lisboa”).


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2 Comments

  1. Uma pequena correcção:
    > Os semáforos não apresentam nem contadores nem avisos sonoros

    Isto não é bem verdade mas pode passar despercebido. Existem umas caixas amarelas nos sinais luminosos que possuem um botão por baixo. Quando esse botão é carregado, o próximo ciclo de travessia é acompanhado por um indicador sonoro para auxiliar aqueles com incapacidade visual.

    https://www.reddit.com/r/howdoesthiswork/comments/16oa565/pedestrian_crossing_button_in_berlin_germany/

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