Às três da tarde desta terça-feira, na Praça Paiva Couceiro, na Penha de França, o “senhor Joaquim”, como é conhecido por estas bandas, inaugurava uma curiosa estrutura: uma casa de banho pública, feita em cartão, e forrada com azulejos. Nela, um poema:

“Digam-nos aqueles que as viram
santa WC
da praça
do Rossio e do Comércio
dos jardins
Cesário Verde
Camilo Castelo Branco
Roque Gameiro
do Metropolitano
e outras queridas que abalaram
não nos pedias moedinha
CML
a saudade dói
os trabalhadores a recibo verde
a cidade nada verde
Santo António
rogai por nós
pedimos uma WC em cada praça
cheias de
limpezazinhas, horários humildes e graça
que as Juntas de Freguesia são uma desgraça
e a nossa Lisboa cheira a mijo.”

Esta casa de banho marca o início de uma iniciativa do grupo informal Infraestrutura Pública, constituído pelos amigos Marta e Francisco – que, em setembro do ano passado, lutaram para que nesta praça se repusessem as cadeiras que daqui tinham desaparecido. Desta vez, a luta é por uma casa de banho pública que sirva a população desta praça – mas não só.

“Eu quero fazer uma necessidade e aquela casa de banho está sempre avariada”, acusa Joaquim. Ele, que todos os dias para aqui vem jogar cartas e muitas vezes se vê obrigado a ir ao café, onde, para ir à casa de banho, terá de consumir.

Ter de recorrer a um café nestes casos significa uma privatização do espaço público, uma questão sobre a qual Marta e Francisco têm vindo a trabalhar – e a verdade é que muitas das casas de banho públicas que existem, como esta na Praça Paiva Couceiro, implicam pagar.

Os amigos sabem que a falta de sanitários não é um problema exclusivo da praça Paiva Couceiro, é um problema de toda a cidade de Lisboa. E, por isso, esta casa de banho ambulante vai circular durante sete dias por vários pontos da cidade. Uma forma também de transmitir a ideia de que as casas de banho deviam estar abertas todos os dias da semana.

Casas de banho que resistem

Antes de inaugurarem esta casa de banho ambulante, Marta e Francisco fizeram um trabalho de campo que incluiu mergulhar na história dos sanitários públicos da cidade. Muitos deles remontam ao século XX, como é o caso dos quiosques com WC, resultado de um projeto de 1913, considerado inovador, que o arquiteto José Alexandre Soares apresentou à CML.

Foto: Arquivo Municipal de Lisboa

Alguns exemplos dessas estruturas podem ser encontradas no Parque Silva Porto, em Benfica, no Jardim Roque Gameiro, no Cais do Sodré, no Jardim Constantino, em Arroios, e no Jardim Poço do Bispo, em Marvila.

“Fizemos uma grande pesquisa em relação a esta ideia do azulejo, do poema, da casa, e de a casa de banho não ser um contentor, de ser tratada como uma casa”, explica Francisco.

Este levantamento histórico fê-los perceber que muitos sanitários públicos foram desaparecendo ao longo dos anos, muitos deles foram até transformados, como é o caso de uma casa de banho no Jardim Camilo Castelo Branco, que é agora um espaço cultural.

“Uma casa de banho que existe é uma casa de banho que resiste”, diz Francisco.

Com más condições, horários limitados… e pagas

Marta e Francisco percorreram também as freguesias de Santa Maria Maior, Arroios, Penha de França, Misericórdia e São Vicente para fazerem um levantamento do estado dos sanitários, e passaram por várias estações de metro, onde todas as casas de banho se encontravam inativas, com o aviso “temporariamente encerradas”, que ali se mantém desde a pandemia.

Nestas freguesias, encontraram vários problemas: um deles os horários. “A casa de banho da Alameda fecha às 16:00 e, no domingo passado, estava fechada”, denunciam os amigos. “Noutros lugares da cidade, as condições são péssimas, as casas de banho têm autoclismos avariados, têm bolor.”

Para além disso, algumas delas implicam pagamento – e o valor varia entre os 10 e os 20 cêntimos de casa de banho para casa de banho e de freguesia para freguesia. “As casas de banho não deviam ser pagas, são uma infraestrutura que devia ser assegurada pelas juntas de freguesia, é uma necessidade básica.”

No caso das casas de banho com cancelas, ou que são contentores, os amigos questionam como é possível que, por exemplo, uma pessoa numa cadeira de rodas consiga aceder a estes equipamentos.

Também durante o trabalho no terreno, dialogaram com funcionários destes equipamentos, que, segundo contam Marta e Francisco, muitas vezes trabalham a recibos verdes.

13 casas de banho para cada 100 mil pessoas… em Portugal

A falta de sanitários públicos na cidade é um problema do qual a Mensagem já deu conta. Este é, aliás, um problema global que afeta várias cidades no mundo, como atestou o estudo The Public Toilet Index, realizado em 2021 pela QS supplies (empresa de fornecimento de sanitários). De acordo com o estudo, a Islândia será o país com mais sanitários públicos, com cerca de 56 por cada 100 mil pessoas, seguido da Suíça (46) e da Nova Zelândia (45). Portugal terá cerca de 13.

Em Lisboa, o problema chegou à Assembleia Municipal no ano passado, quando foi aprovada uma recomendação do PCP para que se realizasse um levantamento do estado dos sanitários pela cidade. A partir daí, seria possível, em colaboração com as juntas de freguesia, estabelecer um plano de reabilitação e construção.

Já em novembro, foi aprovada uma outra recomendação, desta vez do PS, para a criação de uma nova rede de casas de banho públicas que “sejam inclusivas, adequadas às necessidades das mulheres, disponibilizando produtos de higiene menstrual, caixotes do lixo com tampa, espelhos, água corrente, sabão e toalhas de papel ou secadores de mãos.”

No início do ano, o Público noticiava que em 2024 seriam colocadas 19 novas unidades sanitárias em espaços verdes, uma operação que resultava do contrato de concessão com a empresa de mobiliário urbano JCDecaux. Assim, nasceriam sanitários públicos nos seguintes jardins:

  • Jardim da Torre de Belém
  • Parque Urbano da Bela Flor
  • Jardim Amália Rodrigues
  • Jardim Mário Soares
  • Quinta Nossa Senhora da Paz
  • Vale da Ameixoeira
  • Parque Urbano Quinta do Narigão
  • Parque da Belavista-Central
  • Parque da Bela Vista Sul
  • Parque Urbano da Quinta das Flores
  • Parque Ribeirinho Oeste 
  • Parque Urbano do Vale do Silêncio
  • Viveiro da Quinta Conde Arcos
  • Parque do Vale Fundão
  • Parque Urbano do Tejo e Trancão
  • Jardim da Torre de Belém (receberá duas novas unidades) 

A serem instaladas, passariam a existir 209 instalações sanitárias em espaços verdes (190+19), das quais 64 (instalações independentes e quiosques) são da Câmara Municipal de Lisboa, e 126 (também instalações sanitárias independentes e quiosques) são geridas por outras entidades.

Questionada pela Mensagem para quando se previa a instalação destes equipamentos e em que fase se encontrava o levantamento do estado dos sanitários na cidade, a Câmara Municipal não respondeu.

Enquanto estes trabalhos não avançam, Marta e Francisco continuam a sua luta… sempre com a sua casa de banho atrás.

Foto: Rita Ansone

Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Entre na conversa

1 Comment

  1. Na Av. Padre Manuel da Nóbrega, junto ao Areeiro, existe um desses wc concessionados que tem o estrondoso custo de utilização de… 10 cêntimos de euro. Não me parece que seja um valor incomportável, isto já para não falar dos inúmeros wcs de cafés, hotéis e supermercados sem qualquer custo mais os wcs públicos, evidentemente.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *