János Klaniczay foi um dos arquitetos húngaros que se “apoderou” da casa da Trienal de Arquitectura de Lisboa, o Palácio Sinel de Cordes, para um “Takeover”. János faz parte do KÉK – Centro Húngaro de Arquitectura Contemporânea, uma organização independente, que viajou de Budapeste para Lisboa para, durante três dias, pôr os lisboetas a pensar num conceito por eles trabalhado: o “turismo sustentável”.

Turismo sustentável? Um turismo que escapa aos grandes centros, tantas vezes sobrelotados, e que procura as histórias daqueles que vivem ou viveram nos bairros de todos os dias de uma cidade.

Foi precisamente essa a ideia que o KÉK trouxe para Lisboa, onde o trabalho começou com uma “walking tour” por lugares menos turísticos de Alfama, partindo de um mapa criado por ateliers de arquitetura locais.

Não ficaram por aqui. Ao passeio, seguiu-se uma exposição de fotografias de portas de Lisboa e de Budapeste (afinal, todas as portas guardam uma história), uma noite de cinema com a exibição do filme “Silêncio – Vozes de Lisboa” – realizado pela húngara Judith Kalmar e com a fadista Marta Miranda -, um workshop, uma Pecha Kucha (um formato de apresentação) e, ainda, uma troca de comida internacional.

No final destes dias, János ainda teve tempo para uma conversa com a Mensagem sobre turismo sustentável, cidades, arquitetura e património.

Falámos com János sobre arquitetura, cidades, património, turismo. Foto: Inês Leote

Fala-me do KÉK e dos seus principais projetos…

Somos uma organização não-governamental que foi fundada em 2006 por um grupo de arquitetos jovens, sociólogos, artistas, educadores, que queriam preencher um vazio na região da Europa Central, no que diz respeito ao discurso sobre a arquitetura contemporânea e à construção. Neste momento, somos a mais antiga organização não-governamental independente da Europa Central a trabalhar neste sentido.

A nossa área de intervenção vai desde projetos educacionais a projetos de gestão de património, projetos turísticos e até mesmo de criação de jardins comunitários. Fomos os primeiros a implementar a jardinagem comunitária em Budapeste há 10, 15 anos.

Temos vários projetos ligados à comunidade. Trabalhamos com crianças do ensino básico ao secundário, com as quais criamos “walking tours” dentro do seu bairro. Temos também um programa onde celebramos casas com 100 anos, e convidamos os seus residentes a envolverem-se. Claro que temos programas orientados para profissionais, mas também para leigos e pessoas que não percebem ainda muito sobre arquitetura, e projetos internacionais, focados em património industrial e em desenvolvimento regional.

Organizamos ainda um festival de cinema de arquitetura, o maior da nossa região, que vai na sua 16ª edição. Neste momento, estamos a alargar os nossos horizontes e a desenvolver projetos ligados à habitação em parceria com o município central de Budapeste. Somos parceiros do “AHA”, que é um projeto de habitação acessível para todos e estamos a transformar um velho edifício em habitação, trabalhando com a vizinhança para que reparem no edifício, para que percebam o seu valor.

Esta ideia das walking tours para locais, que acabam por servir de base para um “turismo sustentável”, como é que elas surgem?

Quando comecei a trabalhar, foquei-me nas walking tours para os locais para perceber como é que eles poderiam explorar os seus bairros. Uma das minhas primeiras tours foi num bairro que eu conhecia bem: a minha escola secundária ficava naquela área e eu estava a viver lá quando estudava. É uma parte histórica entre o Castelo de Buda e o rio, uma zona com muita arquitetura contemporânea, mas muito relaxada e com muito respeito pelo ambiente histórico. Entretanto, já fizemos tours ligadas a filmes, a propósito da celebração dos 150 anos de Budapeste, ligadas a cada década da arquitetura. 

Quem é que geralmente aparece?

Há três tipos de pessoas que costumam ir: arquitetos, pessoas entusiastas por arquitetura e reformados. Há muitas pessoas que nos procuram também para realizarmos tours para eles: escolas, conferências, companhias para eventos de team buildings e encontros. E nós não somos, de todo, a maior companhia de tours locais em Budapeste. Há mais de 12 companhias de tours, e temos até uma sociedade de tours húngara.

A walking tour do Takeover da Trienal. Foto: Hugo David

Os locais conhecem bem Budapeste? 

Oh, não, de todo! E talvez não haja problema nenhum nisso, não podemos esperar ser todos historiadores de urbanismo e de arquitetura da cidade. Mas algumas coisas deviam ser evidentes para as pessoas… Por exemplo, em Budapeste há um grande problema: neste momento, edifícios que são património dos anos 1970 estão em risco porque ninguém os valoriza. Quando os edifícios importantes são destruídos, as pessoas não querem saber. Há palácios do início do século XX, que foram destruídos na Segunda Guerra, a serem reconstruídos em betão armado! Em betão armado! É preciso haver alguma educação, algum envolvimento com a cidade.

Por isso, é importante conhecermos as nossas cidades…  

É importante porque, se conhecermos a cidade, vamos mantê-la melhor. Há aqui dois aspetos: vamos mantê-la melhor, e vamos cuidar mais dela. Se houver alguma alteração na cidade que é indesejada pelos cidadãos, conhecê-la melhor permite que se juntem e que organizem iniciativas com base no seu amor pela cidade.

Acho que o meio através do qual nos ligamos a uma cidade passa pela arquitetura e pela história, embora o que mais importe na história seja a história oral. A arquitetura corresponde à parte física. Nos nossos projetos e nas walking tours tentamos procurar identidades locais e histórias locais. Não interessa apenas a arquitetura do edifício mas a história oral daqueles que viveram lá: uma pessoa famosa que lá viveu, um caso de homicídio que lá aconteceu, tudo isso torna a experiência mais interessante. 

Hoje eu estava a andar por Alfama e vi as caras de cantores de fado nas paredes, e é muito interessante porque é uma história local que está à vista. A descrição estava em português, o que faz sentido, mas claro que podia e devia ser também traduzido para inglês. 

O KÉK defende que o turismo se espalhe, sem se concentrar sempre nas mesmas áreas. Foto: Inês Leote

Acho que também é importante conhecermos a nossa cidade, não só para a mantermos melhor mas porque o turismo tem este problema: concentra-se em determinados lugares e depois destrói algumas áreas. Mas, na verdade, quando os turistas viajam, procuram lugares autênticos que sejam vividos pelos locais. Estou a fazer uma investigação em planeamento urbano e design e os estudos internacionais mostram que, se queres combater o sobreturismo, tens de espalhar os turistas. Não vais parar o turismo, mas sim espalhá-lo, de forma a que o turismo possa ter benefícios nessas áreas.

O turismo tem imensos benefícios, como valorizar áreas dantes não valorizadas. Por exemplo, em Budapeste, havia esta área que não tinha nada e que agora está cheia de cafés artísticos, que eram maioritariamente frequentados por locais, e está a começar a surgir nos mapas turísticos porque é uma zona autêntica. Claro que, com os turistas a virem para essa zona, essa zona vai mudar, mas as cidades são feitas de mudanças. 

Essa estratégia funcionaria em Lisboa? 

Lisboa é muito parecida com Budapeste. Tornando as zonas turísticas de Lisboa menos sobrelotadas, seria possível ver os benefícios do turismo. O turismo ajuda a economia local e as pequenas economias, e incentiva mudanças. Se tivermos este turismo de massas, tornamos a cidade inabitável, e as zonas mais esquecidas não beneficiam, torna-se este fenómeno polarizado.

Para não se perderem as histórias locais, precisas de manter as iniciativas e as comunidades locais, e o turismo também desempenha um papel importante nisso, por causa das metodologias que se desenvolvem para se perceber como descobrir uma cidade. Os locais devem também explorar a cidade como turistas. É isso que nós fazemos.

Mesmo agora no Takeover, concentrámo-nos nos locais. Criámos este mapa com as recomendações dos arquitetos locais. Fizemos uma exposição de fotos e todas elas têm histórias. Têm histórias que só são reveladas por locais, e os turistas não as vão saber.

Também apresentámos um filme sobre o fado de Alfama, e foi interessante vermos como esta cultura está a ser dominada pelos turistas. A cultura do fado está a começar a desaparecer e a integrar a indústria do turismo, mas nós acabámos por ir a uma casa de fado tradicional, e foi muito bom… mas gostámos mais de ver o filme, porque tinha legendas, e a letra dos fados é tão importante.

Fizemos uma troca gastronómica, com comida húngara, portuguesa, eslovaca, americana… Foi uma experiência muito interessante em que a comunidade se envolveu, e onde percebemos que os turistas podem também contribuir para a cultura local. E seria inevitável nós não sermos turistas nestes dias. Não vínhamos para aqui armados em especialistas que sabem como explorar a vizinhança. Nós mostrámos como exploramos os nossos bairros e como usar as nossas metodologias em Lisboa.  

Agora, respondendo à pergunta, claro que estas ideias não vão resolver todos os problemas, os turistas também têm de ser sustentáveis e claro que devia haver políticas de habitação para se lutar contra a gentrificação.

Como se comparam: Lisboa e Budapeste?  

Só Alfama é um lugar mágico, a parte histórica. Budapeste, bem, em termos históricos é diferente porque uma grande parte foi bombardeada. As ruínas têm ruínas e é tudo reconstruído. Claro que há algumas parecenças com Lisboa: as ruas centrais, com as lojas de marcas globalizadas… temos os nossos bairros, também. A morfologia é diferente, claro. Com a geografia das colinas, Lisboa acaba por ter uma vibe diferente. Em Budapeste, a maioria das atrações turísticas, serviços e bares está do lado de Peste, que é muito plano. Acho que o que é parecido é, claro, o turismo: os turistas procuram sempre as grandes atrações, e só depois as experiências locais. E daí serem importantes as iniciativas locais: não consegues encontrar os locais autênticos se não tiveres um guia local. 

turismo sustentável lisboa
Foto: Inês Leote

Quais são os principais desafios de Budapeste?  

Um dos principais desafios é o trânsito, que ainda é muito orientado para o carro. A rede ferroviária suburbana não está muito desenvolvida, nem o metro. 90% das pessoas usam os seus carros, e levam o carro para o centro. Esta questão tem de ser melhorada do ponto de vista educacional, mas também tem de partir de políticas para controlar o tráfego.

Um outro desafio é manter o edificado, porque muito está em más condições. E depois, claro, a habitação. Em Budapeste temos problemas parecidos com Lisboa, faltam casas. Eu teria de trabalhar durante 30 anos e não gastar nada para conseguir comprar o meu apartamento de 30 metros quadrados e, para arrendar, tenho de dar mais de 50% do meu salário – que é a definição de crise de habitação pelas Nações Unidas. Manter o património também é um problema, e parece-me que vocês estão a fazer um bom trabalho. 


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


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