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Era final de tarde quando Marta Miranda subiu ao palco do arraial da Renovar a Mouraria para cantar, ou melhor, “vadiar” pelo fado. Com o vestido às bolinhas e as argolas a tilintar, agarrou velhas canções e deu-lhes vida, acompanhada por Jean-Marco Pablo na contrabacia (um pau, uma corda e um balde!) e por Luís Osório na viola. Os três companheiros das “fadiagens”.

Foi no passado dia 17 de junho, no Arraial P’ra Sempre, que se reavivou um espetáculo que começou no espaço Incrível Club, em Almada, e que continuou no TascaBeat, em Alfama, entretanto desaparecidos.

“Fadiagens”. Um termo, ou até mesmo uma filosofia, que tem já uma longa história. São uma forma de celebração do fado e das suas sonoridades afro-brasileiras, em que se tira a guitarra portuguesa e se leva a rítmica da viola para a voz do intérprete. A partir daí, todos os instrumentos são possíveis, neste que é um espetáculo sobre o fado e a sua diversidade, tão representativa de Lisboa e da Mouraria.

Mas as fadiagens são também um espetáculo que foi perdendo força com o fecho, em 2018, da TascaBeat, um espaço onde o fado e o encontro eram celebrados. Até que em 2020 surgiu um filme que recupera a sua história: Silêncio: Vozes de Lisboa, realizado pela francesa Céline Coste Carlisle e pela húngara Judit Kalmár e que é uma reflexão sobre a gentrificação e o fado em Lisboa.

O fado que, nestes Santos Populares, voltou a animar a Mouraria.

Os OqueStrada

A cantora Marta Miranda, 50 anos, lisboeta da Margem Sul, Almada, segura um cigarro entre os dedos num café da rua São Cristóvão, na Mouraria. Há anos, trabalhou nesta rua, a servir almoços, ao mesmo tempo que cantava em casas de fado: “Também fazia muitas cachupas”, recorda.

O fado, essa música que se passou a tocar nas tabernas e bordéis da Lisboa boémia do século XIX e que se fez banda sonora da cidade, foi por onde tudo começou. Nos anos 1990, uma jovem Marta aprendia a “vadiar” pela noite de Lisboa. “Nunca gostei de discotecas, mas gostava da noite e do encontro”, diz.

Marta Miranda sempre foi “da rua” e foi a partir dela que se construiu de mão dada “ao fado e à vadiagem”. Foto: Inês Leote

Essas vadiagens levaram-na ao mundo do teatro, onde começou a sua carreira artística depois de se ter formado no Chapitô. Mas cedo se apercebeu que o teatro não seria o seu futuro: “Durante dez anos fui atriz, mas senti que era muito complicado viver do teatro”. Foi então que se voltou para aquela que sempre fora a sua paixão: o fado.

Foi por volta dessa altura que conheceu o francês Jean-Marco Pablo, marceneiro que tocava esse instrumento curioso, a contrabacia, e os dois lançaram-se numa aventura: a de procurar músicos de rua para um projeto musical.

Em 2002, nasciam os OqueStrada, uma banda que durante oito anos percorreu Portugal de norte a sul, cantando na rua, “o palco mais democrático de todos”. E que misturava vários géneros musicais: do fado, ao punk, ao funaná. Os estilos com que Marta convivera, e pelos quais vadiara, na noite lisboeta.

Músico Jean-Marc Pablo faz também parte dos OqueStrada e acompanha Marta Miranda nas fadiagens. Foto: Inês Leote

O Incrível Club e o TascaBeat

Um dia, em andanças por Almada, a fadista reparou no Cine Incrível, um antigo Cinema Paraíso dos anos 1930, desativado há muito, que pertencia à coletividade centenária Incrível Almadense. Era um espaço importante, com memória, e Marta quis dinamizá-lo, dando-lhe um novo propósito, até porque sempre admirara o trabalho das coletividades.

Em 2004, o Incrível Club abria portas, um espaço inovador em Almada e em toda a Lisboa: “Queríamos que as periferias estivessem na vanguarda”, diz Marta. “Em Lisboa, os espaços eram muito caros e, mesmo que houvesse sonhos, eram sonhos curtos”.

Foi no Incrível Club que o conceito das “fadiagens” ganhou finalmente corpo. Todos eram convidados a “fadiar”. Foram longas noites a receber artistas, novos e velhos, entre eles o músico João Aguardela, e foi neste Incrível Club que nasceu o conceito dos Santos Pop.

Os OqueStrada também lá tocavam. Ali e numa outra iniciativa, a Incrível Tasca Móvel, uma plataforma viajante, quase uma tenda de circo, inspirada nas tascas e festas populares.

Em 2009, depois de um verão louco a cantar pelo país, a banda lançou o seu primeiro álbum: o TascaBeat – o sonho português (em 2007, tinham lançado um primeiro EP – OqueStrada Tascas Tour). O sucesso foi tanto que passaram das ruas para o Teatro Nacional D. Maria II e, finalmente, para os palcos do Prémio Nobel da Paz, onde tocaram na cerimónia de entrega no Oslo Spektrum Arena em 2012.

“Se esta rua fosse minha” ao vivo no Tivoli em 2009.

Quando o Incrível Club fechou portas em 2010 (em parte por causa do trabalho incessante país fora dos OqueStrada), Marta Miranda não desistiu de, um dia, recuperar um pouco do espírito que ali se vivera. Aconteceu em 2014, desta vez em Alfama, ao abrirem-se as portas da TascaBeat, esse lugar sonhado num disco de música.

A tasca abriu como um “lugar de pensamento e de arte”, onde, acima de tudo, se promovia o encontro. “Sempre trabalhei o espaço de encontro enquanto artista, que é o essencial para as pessoas evoluírem e se transformarem”, diz Marta.

Mas, em Lisboa, já se sabe, “os sonhos são curtos”. Foram quatro anos intensos de muitas fadiagens, com fadistas novos e velhos à mistura, mas a gentrificação acabou por pôr um ponto final na história.

A TascaBeat foi vendida e é esse lugar que é recordado no filme de Céline Coste Carlisle e Judit Kálmar, que tem percorrido festivais internacionais e que trouxe as fadiagens aos palcos de Toulouse e de Budapeste.

No Arraial P’ra Sempre, Marta Miranda e os companheiros voltaram também a pisar um palco de Lisboa, e a recordar aquele que é o espírito da sua cidade. De Almada, passando por Alfama, rumo à Mouraria, sempre com o fado.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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