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Desde o confinamento do verão de 2021 que o vandalismo tapou parte da história desenhada neste mural por Nuno Saraiva e com eleições autárquicas e legislativas a desviar atenções durante o último ano, a espera pela oportunidade de restauro terminou apenas este fim-de-semana.

Nuno Saraiva, João Carola, o seu assistente, e Mariana e João, dois estagiários da ESAD – Escola Superior de Artes e Design, das Caldas da Rainha, conseguiram em apenas três dias devolver a história de Lisboa a um dos recantos mais turísticos de Alfama.

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Nuno Saraiva não se importa de “partilhar paredes” com outros artistas, mas reconhece que, neste mural, os atos de vandalismo foram “propositados e de mau gosto”. Foto: Inês Leote

O tempo de maio foi favorável à obra, “tivemos sorte com o tempo mais seco e, mesmo com alguma chuva, aqui estávamos protegidos”, algo que não teria sido possível em janeiro, logo após as eleições legislativas, pelas correntes de ar que sobem e cruzam Alfama no inverno.

Acertos, correções com massa e a pintura de manchas de cor, foram algumas das tarefas a cargo de Mariana e João que acompanharam Nuno durante o restauro daquele que foi o primeiro mural do artista a ser vandalizado.

Para evitar que se repitam os atos que o destruíram em 2021, uma equipa da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior torna agora a cobrir o mural com uma placa de acrílico, como já tinha sido feito durante as Festas de Lisboa, antes de se pensar no seu primeiro restauro.

Deserto nos meses de confinamento e danificado duas semanas após a primeira intervenção de recuperação, o túnel volta a ser paragem frequente de guias turísticos. Durante três dias de trabalho, Nuno pôde ouvir a contextualização da sua sátira à história de Lisboa em 24 quadros em “inglês, espanhol, alemão, israelita, às vezes vários ao mesmo tempo”.

É uma obra que continua a ultrapassar as suas expetativas, ali situada por opção sua, numa zona histórica de Lisboa que considera um “cruzamento de várias civilizações: mouros, romanos, fenícios” e onde a sua banda desenhada vive como um “cocktail” colorido da “história pouco simpática” de Portugal.

A partir de hoje, naquelas paredes, contam-se novamente as histórias lisboetas que de heróico pouco têm e que “desmistificam conceitos” e feitos portugueses, como a origem do nome da cidade ou a “descoberta” de Vasco da Gama.

Na manhã que encerrou a fase de restauro, os episódios satirizados pelos cartoons contaram as histórias dos Filipes aos turistas espanhóis; a imoralidade de Bocage a quem só conhecia bem “Camões e Eça”; e contaram ainda a nudez da República, nas palavras e pronúncia espanhola de uma guia, como se de um “Portugal más adulto” se tratasse.

Depois, em português, ela própria deixou ficar-se uns segundos para elogiar o cartoonista pelo seu trabalho e para lamentar os grafitis que tinha encontrado em visitas anteriores.

Entre o som do berbequim e as explicações dos guias turísticos, Nuno Saraiva dava os último retoques ao mural restaurado. Foto: Inês Leote

Num roteiro semelhante a outra guia, esta equipada de microfone e coluna, que também não deixa a “História de Lisboa” de Nuno Saraiva fora do passeio, foram ambas obrigadas a partilhar os momentos de silêncio com o som do berbequim que finalizava o trabalho.

Para além do mural, também o muro que se prolonga pelas duas escadarias tem de ser frequentemente retocado, “ainda ontem pintei isto”, dizia Mariana, queixando-se das pegadas deixadas na parede branca.

Embora esteja protegido, a manutenção será fundamental para o conservar. A espessura do acrílico que se molda à parede do túnel não inspirou confiança a Nuno, “estou a imaginar que isto daqui a um ano tenha que ser substituído”, admitiu.

“Vou começar a dar os brancos”, avisou Mariana. “Eu vou tirando as fitas”, apressou-se João. Aproximava-se o final do restauro.

Na assinatura do mural somam-se três datas: 2016, 2021 e 2022 e o desenhador segue com a esperança de que não será necessário completá-las com mais nenhuma. Deixa o túnel com um sorriso e pincéis por lavar, mas deixa também um agradecimento, com um cunho irónico tão querido ao seu trabalho. “Um grande obrigado ao que ainda resta do Povo de Alfama”, lê-se.

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Não sabe onde fica o mural? Descubra neste vídeo, gravado pela equipa de Nuno Saraiva.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

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1 Comentário

  1. Ainda bem que a Mensagem condena a destruição do património que o graffiti e o tagging provocam em Lisboa. Bem hajam.

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