O que diria um rei fundador, o primeiro de Portugal, se aterrasse hoje no bairro dos Anjos, em Lisboa? “Aparece D. Afonso Henriques: ‘Onde estou? Em que ano estou?’. Em Portugal, Lisboa, na Escola Sampaio Garrido. Uma sala é onde aprendemos. No ano 2022″, responde um conjunto de crianças, estudantes no bairro. Aqui, “gostamos das pessoas, da felicidade e da alegria”, mas muita coisa mudou, dizem logo a seguir: “o cocó no chão e a sujidade”. E este é já um belo lugar de misturas: os colegas deles chegam do “Nepal, Ucrânia, Itália, Moçambique…”.
A conversa destas crianças com um rei morto em 1185 é ficção, mas o que dizem sobre o bairro dos Anjos, onde estudam, tem trabalho de investigação por trás: durante um ano, eles foram desafiados a ser repórteres de bairro, para mostrar o que é viver nos Anjos, e como podemos melhorar o lugar onde vivemos. Esse trabalho deu entrevistas gravadas, uma tour, ilustrações, um vídeo em stop-motion, tudo num mapa e culminou na criação de um álbum.
O álbum chama-se “Sons da Metamorfose – mergulhar no bairro com as crianças”. A história começou com a chegada de duas italianas a Lisboa, mas a ideia nasce do encontro de muitas outras pessoas que se encontraram em Lisboa.

O sonho de mudar um bairro de mãos dadas com as crianças
Foi em Itália que a ideia de mostrar uma cidade através de perguntas de crianças começou a desenhar-se. Em 2008, Micol Brazzabeni e Giulia Cavallo tinham acabado de se conhecer, mas algo em comum: estavam ambas de malas feitas para Portugal, Lisboa, onde queriam prosseguir com os estudos. Giulia formada em antropologia desde 2000 e Micol especializada na área da pedagogia.
Tinham este velho sonho: recorrer à antropologia como uma ferramenta de educação nas escolas. “Pensava sempre: mas por que é que não me ensinaram antropologia já no secundário? Aliás, porque é que já não fizemos antropologia quando eu era criança?”, levanta Giulia.
Apenas em 2016 é que a vontade de Giulia e Micol começou a ganhar forma. “Em 2019, eu e a Micol começámos a enviar candidaturas para várias escolas, onde propúnhamos a ideia da criação de oficinas de antropologia, algo mais prático, no sentido da antropologia como forma de explorar o que está ao redor da escola.”
Então, foi na Escola Básica Sampaio Garrido, com crianças do quarto ano de escolaridade, que a ideia nasceu: a Pequena Oficina de Antropologia. Entre atividades extracurriculares, como cinema, desporto, animação e agricultura, a direção decidiu incluir a oficina de antropologia como uma destas opções para as crianças da escola, que acabou por ocupar horas letivas. Nesta oficina, o trabalho delas estava lá fora, no bairro dos Anjos: como pequenos repórteres, teriam que descobrir junto de comerciantes e moradores o que poderia ser melhorado no bairro, através de pequenas entrevistas.
“Escolhemos este bairro porque é onde há realmente muita diversidade cultural. Se não me engano, na altura havia uma coisa como 20 nacionalidades dentro da escola”, recupera Micol. “Muitos pais de colegas nossos eram nigerianos, ou italianos, brasileiros, ucranianos, moçambicanos…”, confirma Celina, uma das pequenas repórteres deste projeto.

A dada altura, Giulia e Micol convidaram mais uma amante de trabalhos urbanos: Kitti Baracsi. Em Portugal há três anos, vinda da Hungria, Kitti trouxe um olhar já experiente para este projeto. “Já fiz projetos muito parecidos noutros países. Faço projetos de pesquisa sobre os bairros, sobre conflitos urbanos, com as crianças. Fiz um muito parecido a este em Granada, no bairro de Albaicín”, recorda.
O que começou como uma oficina escolar terminou, depois, num álbum musical, o “Sons da Metamorfose”. É que “a mudança não é sempre uma coisa má”, diz Kitti, e com as crianças fica bem mais relevante e poética, acredita. Por isso, “metamorfose pareceu uma boa palavra”.

O que têm eles a dizer sobre o bairro dos Anjos
Então, como seria nos Anjos? Algumas das descobertas ficaram registadas neste mapa:
“Bom dia, senhor! Podemos entrevistá-lo?”, o pequeno Dhenil revela que foi este o método de abordagem escolhido por ele. “Às vezes, eu não sabia o que perguntar. Então, começava a olhar para a loja para ver se eu tinha uma ideia. Ouvia, sentia os cheiros…”. Com 11 anos, Karina tornava-se uma repórter no bairro onde estuda. Sem nervos e sem medos, como o colega Dhenil. “Nervoso? Não. Sentia-me feliz. Entrevistávamos os senhores das lojas. Era divertido.”
Também para a pequena Celina, a experiência foi boa porque foi partilhada. “Gostei de entrevistar as pessoas e de trabalhar com os meus amigos. Foi bonito.”



Tudo para descobrir o que o bairro dos Anjos é, e como podemos melhorá-lo. Entrevistaram alfaiates, funcionários de pastelarias ou drogarias – alguns destes negócios em vias de extinção.
Kitti lembra que a partilha foi fluída, até porque “algumas crianças já conheciam as pessoas aqui do comércio local”, ainda que outras não.
“Isto também foi interessante para ver como é que elas se mexiam num contexto que já conheciam, mas, ao mesmo tempo, como é que descobriam coisas novas. Tentámos também fazer um exercício de não só olhar, mas também ouvir os sons do bairro, sentir os cheiros do bairro”, explica Micol.

Um bairro que deu um álbum
A partir de junho de 2022, a semente plantada no Bairro dos Anjos começou a dar frutos: no âmbito do evento Bairro em Festa, organizaram uma tour pelo bairro guiada pelas crianças, uma exposição, um mapa coletivo, desenhos sobre todo o processo das entrevistas, uma banda desenhada lançada no Jornal Mapa e… um álbum musical.
Juntamente com Micol, resgataram e selecionaram os áudios das entrevistas e lançaram o desafio a Guilherme Calegari, que ficou responsável pela produção musical. Ele transformou as entrevistas em dez diferentes músicas, para explorar diversos estilos. “Já há muitos anos que tinha este sonho de fazer alguma coisa musical a partir desse tipo de trabalho, porque é uma boa maneira de comunicar uma história para as pessoas”, relata Kitti.
Tudo se concretizou em parceria com Guilherme. “As crianças a fazer perguntas aos adultos faz com que eles tenham uma presença diferente, mais suave, mais melodiosa, diferente do habitual de adultos a dar entrevistas. Isso fez com que este trabalho tivesse uma riqueza gigantesca”, acrescenta Gui, cofundador do podcast Rádio Corpo do coletivo Baileia.
O álbum concretizou-se com o apoio do projeto Children not allowed? Inhabiting the movements, inhabiting the city, da Atlantic Fellows Solidarity Grant, que procura narrar a cidade e a questão da habitação através do olhar das crianças.
“O convite ficou nebuloso até eu ouvir os áudios.” Através das palavras, das perguntas e respostas e das distintas tonalidades de voz, Guilherme organizou os ritmos, escolheu o género e mixou todo o material para compor os diferentes temas. “Fiquei muito feliz ao ouvir o produto final. Porque sente-se a vida das pessoas no bairro, Sente-se a alegria das crianças em fazer esse projeto”, conta.

Um projeto que se mostrou “bastante excepcional” desde que nasceu naquela Pequena Oficina de Antropologia, “porque não há muitas pessoas que trabalhem dessa maneira, a deixar as crianças fazer as perguntas”, lembra Kitti. “Mas, de facto, as crianças deste projeto conheciam melhor o bairro do que nós, porque vivem-no mais. É levar a escola para fora da escola, para dentro do bairro.”

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