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Manuela Nogueira na porta da casa que ostenta a informação de que lá também vivera Fernando Pessoa, poeta e tio de Manuela. Foto: Rita Ansone

Se fosse um poema, a rua Fernando Pessoa só teria uma estrofe. A curta via em São João do Estoril não chega a ter 200 metros, mas o que lhe falta em extensão, sobra-lhe em relevância. É por ela que se alcança o número 331 da rua de Santa Rita, onde um marco fixado ao muro da casa lembra que viveu lá o maior poeta português.

Ou quase isso.

“A verdade é que o meu tio dormia cá muito de vez em quando. Ele gostava mesmo era de dormir na casa dele em Lisboa”, revela Manuela Nogueira, abrindo um sorriso e a porta da casa. E Manuela sabe muito bem o que diz, afinal, não há outra pessoa no mundo que ainda goze do privilégio de chamar Fernando Pessoa de “tio”.

Manuela Nogueira na sala da casa no Estoril onde o tio Fernando Pessoa costumava ir para dar um passeio na praia. Foto: Rita Ansone

Tio ou o igualmente íntimo “Fernando”, a referência a variar de acordo com o teor das memórias que a sobrinha do poeta, aos 96 anos, reaviva com impressionante lucidez. Memórias de uma lisboeta nascida em 1925, no segundo direito do número 16 da Rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique, hoje sede do museu Casa Fernando Pessoa.

Manuela viveu nessa casa, na companhia do tio, do pai Francisco Caetano, da mãe Henriqueta, irmã de Pessoa, e da avó, Maria Madalena, a mãe do poeta, até mudar com os pais para o Estoril, no fim dos anos vinte do século passado. “A minha mãe gostou da vista para o mar e o meu pai comprou a casa”, conta.

Uma casa no Estoril com vista para o mar onde Fernando Pessoa tinha um quarto à sua espera, para o caso de decidir pernoitar.

Um dia de praia com Fernando Pessoa

A sobrinha do poeta avança por entre a sala e as memórias em direção a uma pequena divisão, com ares de escritório. “Antes, havia aqui uma caminha onde o meu tio dormia”, diz, apontando para as duas grandes estantes cheias de livros e o discreto armário que hoje compõem o ambiente do antigo quarto de Fernando Pessoa no Estoril.

A sobrinha aponta para as fotografias do tio impressas numa das tantas edições dedicadas ao famoso poeta. Foto: Rita Ansone

“O meu tio vinha quase sempre apenas para passar o dia. Chegava até a ir à praia, mas todo vestidinho, com aquelas roupas que se vê nas fotografias, de sapatos e meias, na areia”, recorda entre sorrisos, diante da lembrança de um paramentado Fernando Pessoa sob o sol de São João do Estoril. “Só não usava o chapéu”, ressalva.

A memória irreverente contrasta com a fama de figura séria que costuma acompanhar Fernando Pessoa, uma ideia que a sobrinha não partilha. “Dizem que ele era macambuzio, mas eu achava-o um palhaço, a pessoa mais divertida que conheci. Pelo menos, com as crianças era assim. Fazia imensas coisas para me fazer rir”, conta.

Manuela lembra-se que, do alto do segundo direito da Rua Coelho da Rocha, acompanhava a chegada do tio. E Fernando Pessoa, num inimaginável número clown, ao perceber-se observado pela sobrinha, mirava em direção à janela e acenava, enquanto fingia chocar com o poste da luz.

Um Pessoa “macambuzio” é apenas uma das “fantasias” que Manuela já se cansou de ler nas inúmeras biografias sobre o tio. “Isso de escrever em pé apoiado numa cómoda é outro exagero dos biógrafos. O Fernando escrevia muito. Não digo que não tivesse escrito ali, mas horas a escrever em pé, às tantas, iria doer-lhe as costas.”

Sobre a mesa de centro da sala repousa a última das biografias, Pessoa: uma biografia (Quetzal), escrita pelo luso-norte-americano Richard Zenith. Um calhamaço de 1 184 páginas que Manuela começou a ler ainda na versão original, em inglês, idioma que aprendeu na infância, aluna do Saint Julian’s School, em Carcavelos.

“Isso de escrever em pé apoiado numa cómoda é um exagero. Não digo que não tivesse escrito ali, mas horas a escrever em pé, às tantas, iria doer-lhe as costas.”

Manuela Nogueira

A elogiada biografia não passou incólume pelo crivo da sobrinha, incomodada com as especulações do autor sobre uma possível homossexualidade de Fernando Pessoa. “O Richard Zenith vai buscar esse assunto de vez em quando, pois realmente a poesia dele é cheia de ambiguidades, feminina e masculina”, pontua, para ressalvar em seguida:

“Mas o Fernando não era homossexual. O meu tio tinha interesse em mulheres, apenas não se realizou no casamento. Teve aquela namorada (Ofélia), com quem, dizem, dividiu algumas intimidades, mas não havia espaço nem tempo na cabeça dele para um relacionamento, diante de tudo o que pretendia escrever”, explica.

A sobrinha via no tio uma “avidez” pelo universo da cultura. “O Fernando comprava montes de revistas e livros, só nisto gastava muito tempo e dinheiro. Leu muito, escreveu muito, ficou um bocado metido nesse caldo cultural e daí surgiu a ideia do movimento a que deu azo, o Modernismo”, lembra.

Mesmo assim, segundo a sobrinha, nem mesmo o Modernismo foi capaz de saciar a avidez pelas coisas da cultura do tio. “O Modernismo foi um movimento pequeno por aqui. Havia poucas pessoas capazes de percebê-lo. O meu tio sabia disso, sabia que Portugal era um país pequeno, onde tudo é sempre curto”, remata.

Um tio que não estava para “chatices”

Manuela aponta para um dos quadros que adornam a sala da casa no Estoril. “Este quadro foi feito por um dos grandes, veja a assinatura”, sugere, em relação a um desenho de um busto de Fernando Pessoa, pintado por outro ícone da cultura portuguesa, o também modernista Almada Negreiros.

Fernando Pessoa no porta-retrato sobre o aparador da casa de Manuela Nogueira. Foto: Rita Ansone

Quem igualmente percebia de cultura na opinião dela era Henriqueta, a sua mãe, irmã de Pessoa. “Era uma mulher muito culta, falava inglês, francês, sabia pintar e tocar piano. Tinha frequentado escolas muito boas na África do Sul. Naquela época, Lisboa era uma cidade atrasadíssima comparada a Durban”, diz.

A sensação de uma Lisboa “atrasadíssima” levou Pessoa a contrariar, pelo menos por uma única vez, outras das características apontadas pelos biógrafos. “Diziam que o meu tio não tinha sentido prático, mas assim que os irmãos mais novos, Luís e João, voltaram de Durban, ele decidiu que ambos deveriam estudar fora”, conta.

Manuela conta que o tio Fernando sentenciou: “Não vale a pena inscreverem os rapazes numa faculdade aqui. Não vão dar em nada. Há de aproveitar-se que falem inglês lindamente”. O destino escolhido por Pessoa para os dois irmãos mais novos, portanto, foi Londres.

Foto: Rita Ansone

“O meu tio era o irmão mais velho e achou que o estudo deles aqui em Portugal não ia dar em nada. A mãe, embora não fosse rica, era viúva de um diplomata e tinha algum dinheiro e concordou. A decisão provou-se acertada e tanto Luís como João foram profissionais muito bem-sucedidos”, relata.

Com a exceção do episódio acima, Manuela vê-se obrigada a concordar com a impressão de uma certa falta de sentido prático do tio. Diz que a mãe, Henriqueta, sentia “pena” pelo irmão Fernando Pessoa não ser organizado. “Ela sabia que ele era extraordinário, mas que não usufruía de ser assim”, recorda a sobrinha.

Manuela acredita que o tio “não estava para chatices” e que acabou por ser vítima da torrente de ideias que lhe vinham à mente. “O Fernando podia ser pago por grandes traduções, mas começava e não acabava. Projetava e ficava por fazer. Era trabalhador, mas em certo aspeto, a cabeça dele não parava”, analisa.

A consciência da mãe de Manuela, Henriqueta, a respeito da genialidade do irmão advinha das leituras em voz alta que Pessoa fazia dos poemas que escrevia diante da família, na sala do segundo direito da Rua Coelho da Rocha, contrariando outra fama do poeta, de ser um escritor recluso e desorganizado.

“Ele lia muito à minha mãe e ao meu pai. Lia muitíssimo, queria ouvir a opinião dos outros”, conta. Depois de escrito, lembra-se a sobrinha, o tio deixava tudo bem organizado, no interior da famosa arca. “Escrevia, metia para o envelope e guardava, o que não era mal. Só não deixava depois tocarem na arca. Nem a minha mãe”, lembra.

A sobrinha reconhece que se o tio não via problema em ler em voz alta os poemas, já publicá-los era uma outra história. Sobre o único livro de Fernando Pessoa lançado em vida, Mensagem – que dá nome a este jornal – Manuela lembra que o poeta foi praticamente obrigado a torná-lo público.

Exemplar de Mensagem, reedição do único livro de Fernando Pessoa publicado em vida pelo poeta, em exposição no Café A Brasileira. Foto: Divulgação.

“A coletânea ganhou um galardão (o Prémio Antero de Quental) mas não tinha o tamanho dentro do cânone para ser publicado”, conta. Como os 44 poemas não cumpriram o número mínimo de páginas dos requisitos da época, foi preciso o então responsável pelo Secretariado Nacional de Informação, António Ferro, “passar por cima das regras”.

“O António Ferro percebeu a qualidade da obra e decidiu que Mensagem seria impresso mesmo assim”, continua. Há de ressaltar que Ferro tinha sido editor da revista Orpheu, de que Fernando Pessoa foi um dos mais importantes colaboradores.

Nem o poeta nem os amigos teriam tempo de ver os outros livros de Pessoa publicados. Um ano depois de a Mensagem ser lançado, em 1934, pela casa editorial Parceria, pertencente à Livraria António Maria Pereira, a mais antiga editora de Portugal, Fernando Pessoa encontraria o ponto-final de sua vida.         

Os 23 livros da escritora Manuela Nogueira

Manuela Nogueira passeia o dedo por entre as inúmeras fotografias em preto e branco nos álbuns sobre o aparador da sala. “Pessoa, Pessoa, Pessoa, Pessoa”, enumera, deslizando o indicador pelas imagens do poeta. Apesar de Pessoa ser um nome recorrente na ensolarada casa, curiosamente a sobrinha não tem Pessoa no nome.

Manuela Nogueira na sua versão escritora e poeta, assinando um exemplar para presentear a reportagem da Mensagem. Foto: Rita Ansone

Manuela Nogueira é filha da irmã mais velha do poeta, irmã nascida do segundo casamento da mãe, Maria Madalena. Como Pessoa escolheu assinar a sua obra com o apelido do pai, Joaquim Seabra Pessoa, morto precocemente, tio e sobrinha dividem apenas o apelido Nogueira, herdado da avó, Maria Madalena.

Apesar do detalhe semântico-genealógico, coube à sobrinha de Fernando Pessoa dar continuidade ao lado literário da família. Prestes a completar 97 anos em novembro, Manuela Nogueira começou a escrever aos 20 e, desde então, publicou 23 livros, os últimos três, pese uma eventual pressão, na seara do tio, a poesia.

Manuela Nogueira com um dos 23 livros que escreveu. Foto: Rita Ansone

A também poeta retira do pequeno armário do antigo quarto de Pessoa no Estoril um exemplar de Ritual sem Palco (Manufactura), um dos livros de poesia publicado, ao lado de Quarteto a Solo e Rosas e Dinamite. Pergunto se nunca sentiu a pressão de seguir os passos de Fernando Pessoa na literatura.

“Não, tenho muita coragem. Nunca me aborreci com isso”, responde, serena, enquanto autografa um dos seus livros para a reportagem da Mensagem. “Não me importa a comparação, pois ninguém é comparável. Se vão comparar, são estúpidos. Aquilo que digo, o Fernando Pessoa não diz e vice-versa. A vivência de cada um é de cada um”, diz a escritora.

O primeiro livro com o nome de Manuela Nogueira na capa foi O Dedo Indicador, publicado em 1962, uma coletânea de contos, o género de eleição afetiva da sobrinha do poeta, uma mulher culta, como a mãe. Além do inglês, aprendeu francês durante o liceu no collège féminin na rua do Salitre, também sabe pintar e, claro, escrever.

Uma mulher de outros tempos, uma senhora elegante, bem-disposta e sorridente, que permaneceu casada 71 anos – após quatro anos de namoro – com o mesmo homem, o catedrático Bento José Ferreira Murteira, que morreu em 2018. Uma relação que lhe deu quatro filhos, oito netos e 16 bisnetos, nenhum chamado Fernando.

Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa. Foto: Rita Ansone

Uma mulher livre, que não se deixou constranger em dar vazão à veia literária apesar de ser sobrinha de quem é. Pelo contrário. Do tio Fernando Pessoa em relação aos livros que ela escreveu, a sobrinha Manuela Nogueira só tem uma única ressalva. “Tenho tanta pena de já não poder falar com o meu tio”, diz, baixando os vívidos olhos.

“Acho que ele ia adorar ler o que escrevi.”


Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 49 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos – num projeto de “mobile journalism” chamado Repórtatil – e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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4 Comentários

  1. Uma parte da história de Fernado Pessoa e da sua sobrinha.
    É bom ficar a conhecer um pouco mais sobre este homem e a sua vida, pela testemunho da sobrinha.

  2. Bellíssimo artigo ! Adorei ler de uma penada…Acaba por se saber muito mais e diferentemente daquilo que se julga …Parabéns também à qualidade das informações dadas pela Srª. Manuela Nogueira…

  3. Relato, aqui, as palavras de Margarida Rosa Dias, sobrinha neta de Fernando Pessoa, com o intuito de ampliar as informações contidas nesta reportagem: – “Faltou referir a existência do irmão mais novo Luís Miguel Nogueira Rosa Dias (1.1.1931/30.8.2019), meu Pai, também ele nascido na Rua Coelho da Rocha (hoje Casa Fernando Pessoa); médico cirurgião, publicou várias obras destacando-se Encontro Magick: Fernando Pessoa e Aleister Crowley, Assírio e Alvim, 2001, 2010, entre outros. Fica a ressalva”.

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