Fotografia: Orlando Almeida / Mensagem LX

Ricardo Belo de Morais, é um dos guardiões da Casa Fernando Pessoa, faz visitas guiadas pela Lisboa de Pessoa e encarna o poeta em performances. É autor de O Quarto Alugado – A Vida de Fernando Pessoa Revisitada Por um Velho Amigo e Fernando Pessoa Para Todas as Pessoas [Verso de Kapa]. No dia de anos do poeta maior de Lisboa, uma entrevista sobre quem vive com a sua vida.

Quando começou esta sua aventura com Fernando Pessoa?

Em dois momentos diferentes. Primeiro, no final da adolescência, à entrada da faculdade, quando uma tia minha, professora, que me oferecia imensos livros, de Camus a Proust e a Pessoa, me ofereceu o Estranho Estrangeiro, de Robert Bréchon, que ainda hoje considero a maior e a melhor biobibliografia do Fernando Pessoa, e que devorei de um trago.

Entretanto, tudo isto ficou a marinar até àquela altura em que, em finais de 2009, a minha empresa de relações públicas vai à falência e eu fico sem eira nem beira. Depois de um trabalho sazonal no Castelo de São Jorge, abre um concurso na Casa Fernando Pessoa e eu penso: não custa nada tentar. Na entrevista, a diretora executiva pergunta-me, a páginas tantas, qual era a minha obra de referência em Fernando Pessoa e eu automaticamente respondo: o Estranho Estrangeiro – e o assunto resolveu-se ali.

O que encontrou na casa onde o poeta viveu os seus últimos anos?

Quando começo a estudar para aprofundar conhecimentos, para o trabalho a desenvolver com os turistas e visitantes da Casa, comecei a perceber que tinha ali, naquela biblioteca de dois andares, um maná. Em todos os bocadinhos livres, lia, lia, lia e quando dou por mim, ao fim de ano e meio, dois anos, estava a especializar-me em Fernando Pessoa e resolvi lançar uma página no Facebook, O Meu Pessoa, para apresentar as novidades e o que ia descobrindo. A página despertou bastante interesse e recebi um convite da Verso de Kapa para escrever um livro sobre Fernando Pessoa – uma biografia ficcionada – que correu muito bem. Depois veio o segundo livro, começaram a vir os convites para ir a escolas, congressos, universidades, o que me fez estudar e aprofundar ainda mais os conhecimentos.

Na estreia do espetáculo, o sobrinho [de Fernando Pessoa], Luiz Miguel Rosa Dias, entretanto já falecido, fez-me um grande elogio: disse, emocionado, que quase sentia a presença do tio, o que me deixou à beira das lágrimas.

Ricardo Belo de Morais como Fernando Pessoa, na sua performance “Fernando quase em Pessoa”. Fotografia: DR.

E ficou a conhecê-lo tão bem que acabou por entrar na pele dele, no espetáculo “Fernando Quase em Pessoa”. Como é que é encarnar um personagem tão complexo?

A primeira parte é uma colagem de textos de Pessoa, prosa e poesia, numa meia hora teatral, como se ele nascesse adulto e morresse ali para ir, no final da performance, ao encontro dos pais. Na segunda parte, estou ainda na personagem e repondo às perguntas do auditório, como se fosse Fernando Pessoa. Na estreia do espetáculo, o sobrinho, Luiz Miguel Rosa Dias, entretanto já falecido, fez-me um grande elogio: disse, emocionado, que quase sentia a presença do tio.

O que fui construindo foi muito ao sabor da evolução profissional na Casa Fernando Pessoa. O meu trabalho fora da Casa resulta de uma procura de registos mais criativos que um museu não pode nem deve abarcar, como a ficção ou a desconstrução excessivas. A peça Transição, que escrevi e foi à cena no Parque dos Poetas, em Oeiras, um diálogo do Vicente Guedes, pré-heterónimo, e do Bernardo Soares, semi-heterónimo, do Livro do Desassossego, é outro exemplo disso.

O Álvaro de Campos é o Pessoa que Pessoa gostaria de ter sido. Uma espécie de Alice do outro lado do espelho que ele inventou para reciclar tudo o que era mau, regurgitado como qualquer coisa de belo.

A vontade de encarnar o personagem tem que ver com a sua identificação com ele?

Absolutamente. Sempre achei na poesia, que conhecia desde a adolescência, tantas coisas que são eu. Na altura era miúdo e parecia-me espantoso e, quando uma pessoa se revê num autor, começa a segui-lo. Quando, anos mais tarde, decido entrar na prosa e, já na Casa Fernando Pessoa, entro a fundo naqueles escritos menos conhecidos, começo a ver que estão ali opiniões filosóficas, políticas, maneiras de encarar a vida, de resistir às tentações e depressões que me faziam estar quase colado em termos de cabeça e personalidade àquele homem, a ponto de começar a achar, egocentricamente, que se o tivesse conhecido na altura provavelmente teríamos sido amigos de café e companheiros de tertúlia.

O poeta nunca fez segredo que aspirava ao Nobel. Fotografia: Orlando Almeida

O Pessoa era muitos. Qual deles lhe diz mais?

O Álvaro de Campos, claro, que é o Pessoa que Pessoa gostaria de ter sido. Uma espécie de Alice do outro lado do espelho que ele inventou para reciclar tudo o que era mau, regurgitado como qualquer coisa de belo. Mais desbocado, muito mais à vontade nas relações sociais, mais esguio, com o monóculo que era mais chique do que os óculos, uns centímetros mais alto, e até a bissexualidade, que não apareceu de para-quedas: Fernando Pessoa quis vincar isso muito bem para chocar as pessoas, ui, o senhor engenheiro de Tavira é perigoso…

Como é que ele veria a adoração que existe hoje por ele como poeta e toda a curiosidade e iconografia em torno da sua imagem e da sua vida?

Em termos de reconhecimento, nunca fez segredo de que aspirava ao Nobel da Literatura, mas sabia que nunca poderia ganhá-lo enquanto não sistematizasse a obra, que estava toda dispersa por jornais e revistas. Em vida, apenas publicou a Mensagem e uns livrinhos de poemas em inglês. Se tivesse publicado o Livro do Desassossego em vida, havia um Nobel para o Fernando Pessoa.

Tinha noção da posteridade e por isso é que guardou tudo para que os mais próximos fossem “cheirar” à famosa arca que ficou com a irmã. Gostaria muito de saber que a sua obra chegou ao mundo inteiro, traduzida em dezenas de línguas. Sobre a iconografia, penso que veria com muito agrado o reconhecimento genérico, não só cá, no mundo inteiro.

Ricardo Belo de Morais na Casa Fernando Pessoa. Fotografia: Orlando Almeida

Os heterónimos e a razão da sua existência geram muita curiosidade?

A heteronímia gera muita curiosidade, sim. Como é que uma cabeça pode arquitetar aquilo tudo? E muitas vezes surge com isto a questão da saúde mental, mas eu explico que Fernando Pessoa estudou de mais, conhecia de mais e por isso é que precisou de alocar partes do conhecimento que tinha, as engenharias e a ciência e a técnica ao Álvaro de Campos, a medicina e a biologia e a história ao Ricardo Reis, e a natureza e a filosofia ao Alberto Caeiro e outros pedaços de outras coisas a outras criaturas que ele inventou.

É preciso ter um controlo ciclópico e uma saúde mental muito robusta para manter estes móveis cheios de gavetas e não endoidecer quando se está, às vezes no mesmo dia, a abrir as gavetas dos três heterónimos para escrever coisas em nome de cada um e ainda inventar mais qualquer coisa de outra personagem. Se Fernando Pessoa tivesse vivido mais tempo, existiriam certamente mais do que os três heterónimos.

Olga Baker era um projeto do Fernando Pessoa de uma senhora inglesa ou sul africana, através da qual Pessoa planeava escrever livros de culinária e lavores, que podiam dar-lhe o dinheiro de que tanto precisava.

Porque é que não há nenhuma mulher entre os heterónimos de Pessoa?

Provavelmente porque naquele tempo o papel das mulheres era outro e eram raras as mulheres autoras. O mais perto que ele chega de criações heterónimas femininas é a Maria José, a corcunda sofredora que morre tuberculosa. Uma personagem autoral fictícia, maravilhosa, que se apaixona pelo serralheiro do bairro que vê passar todos os dias enquanto está, desgraçada, à janela – e lhe escreve uma carta.

Outra é a Olga Baker, um projeto do Fernando Pessoa de uma senhora inglesa ou sul africana. Pessoa planeava, com esta Olga Baker, escrever livros de culinária e lavores, que podiam dar-lhe o dinheiro de que tanto precisava, como fez com a astrologia, pondo anúncios no jornal a dizer que dava consultas e fazia mapas astrais.

Isso era só para ganhar dinheiro ou ele era mesmo um crente na astrologia?

Fernando Pessoa foi, toda a sua vida adulta, um entusiasta do oculto, da mediunidade, do esoterismo, da teosofia e da astrologia. Dentro deste “fora da caixa”, cerca de 10% dos papéis que deixou na arca são trabalhos e cálculos astrológicos profissionais, que fez para si, para amigos, para familiares, para figuras célebres da História, para a revista Orpheu e até para Portugal. Pessoa chegou mesmo a inventar um “quase-heterónimo”, Raphael Baldaya, personagem com a qual planeava editar livros sobre astrologia e tratados sobre ocultismo.

“É curioso ver a cara das pessoas quando mostramos o opiário.” Fotografia: Orlando Almeida.

O que é que as pessoas mais querem saber sobre Fernando Pessoa?

O que mais as impressiona é a vida instável que teve, as tantas casas por que passou, as dificuldades financeiras, a relação com a namorada Ofélia e por que nunca casaram, a sexualidade, as drogas e o álcool. E é muito curioso ver as caras das pessoas quando explicamos que o Opiário surgiu porque havia um espaço em branco na revista Orpheu e Mário de Sá Carneiro pediu a Pessoa que inventasse um poema do Álvaro de Campos mais jovem; ou que absinto não terá tomado muito porque não tinha dinheiro para isso. Às vezes era a dona do Martinho de Arcada que lhe servia uns ovos estrelados com queijo, porque sabia que ele estava com o estômago vazio e que chegava a casa e podia não ter o que comer.

Fernando Pessoa tinha zero habilidade para os negócios, 100 por cento hábil para relações públicas e até deteção de oportunidades, mas nenhum sentido prático ou de gestão para negócios.

Não tinha o que comer porquê?

Um orgulho tremendo, o orgulho matou-o muitas vezes. Quando ele recebe a herança da avó Dionísia, se tivesse pegado no dinheiro e comprado um ou dois prédios, ali nas imediações do Chiado ou da Avenida da Liberdade, com inquilinos a pagarem renda, nunca mais precisava de se preocupar com dinheiro. Mas ele, com a soberba dos jovens adultos, decidiu criar uma editora, a Íbis, e rebentou a herança toda. Tinha zero habilidade para os negócios, 100 por cento hábil para relações públicas e até deteção de oportunidades, mas nenhum sentido prático ou de gestão para negócios.

Até à casa em Campo de Ourique, onde viveu com a família regressada da África do Sul, passou pelo Largo do Carmo, onde viveu num quarto dos caixeiros viajantes, no escritório do primo, a quem ajudava nas traduções e correspondência, viveu um ano com a Tia Anica, no Largo da Estefânia, e o resto foi a saltar de quarto em quarto alugado, sempre com falta de liquidez.

Quando faz as suas visitas guiadas pela Lisboa de Pessoa, por onde passa?

“Nas Ruas de Fernando Pessoa” é outro dos meus projetos e começam no Largo de São Carlos, onde ele nasceu. Depois vamos até à Brasileira, onde “se estabelece” quando volta da África do Sul, e ao Largo do Carmo, onde viveu na fase de maior penúria. A seguir, descemos à Rua Garret, vamos ao Rossio, cenário dos cafés da Orpheu, e à Praça da Figueira e à Rua dos Douradores, do Livro do Desassossego. Depois cruzamos para a Rua da Assunção, onde teve escritório e onde conheceu Ofélia, que é sempre um sucesso, e vamos terminar na Praça Comércio, onde fica o Martinho da Arcada.

Durante esse percurso, que de duas horas facilmente se estende às quatro sem que ninguém dê pelo tempo passar, vou falando da vida de Pessoa e levo um tablet através do qual vou mostrando vídeos ou imagens que trazem o passado até ao presente. Foi um percurso que fiz várias vezes sozinho, para preparar. Há muito que contar e é sempre diferente. Quando existe predisposição para gostar de quem participa e do outro lado está alguém que é apaixonado e responde em tempo real a todas perguntas, tem tudo para correr bem.

O mais recente projeto de Ricardo Belo de Morais é “Fernando Pessoa et al.”, palestras em que põe em que compara o poeta com outros escritores portugueses por quem foi influenciado ou influenciou. Fotografia: Orlando Almeida.

Só um apaixonado é que faz maratonas de 12 horas de Fernando Pessoas na rádio [Rádio Movimento] e todos esses projetos em torno de um único personagem. Fernando Pessoa salvou-o?

Sim. Pode perfeitamente dizer que Fernando Pessoa me salvou. Desde que a minha vida deu a volta por baixo que deu, percebi tinha que ter um chapéu protetor e criar debaixo dele. O chapéu é o Fernando Pessoa e posso fazer, em torno do legado dele, uma série de coisas que me vão garantir sempre a sobrevivência – e, o melhor, dão-me gozo. Quando uma pessoa tem paixão, mesmo que esteja a receber zero ou a receber côdeas, avança. Quanto às maratonas na rádio, já fiz três, que são casos únicos no mundo, e digo uma coisa: a paixão dupla de estar na rádio e com Pessoa faz-me, apenas com um café, chegar ao fim das doze horas e pensar que ainda esticava mais umas quantas…

“Fernando Pessoa et al.” é o seu mais recente projeto, que já estreou na Biblioteca de Palmela. Como correu?

O espírito é de uma conversa/palestra em que se compara Fernando Pessoa com escritores portugueses com quem teve vasos comunicantes – influenciados por ele, que o influenciaram, que lhe foram contemporâneos. Com este mosaico, criei um conjunto de palestras, para levar a bibliotecas, escolas, câmaras municipais, etc., que são um desafio para mim próprio porque exigem a comparação com outros escritores como Agustina, Jorge de Sena, Saramago, Camões, Florbela Espanca, etc.

Quando começamos a escavar, surgem muitos nomes. Na Biblioteca Municipal de Palmela, onde estreei o primeiro ciclo no passado dia 24 de Abril, começámos com Fernando Pessoa & Mário de Sá-Carneiro. A 15 de Maio, fizemos uma sessão dedicada a Pessoa & Camões e ontem o “encontro” foi entre Pessoa e Maria Gabriela Llansol. Tem corrido muito bem.

Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 46 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu um ano no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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3 Comentários

  1. Amo Fernando Pessoa e, apesar de tê-lo sempre comigo, sei que falta muito para conhecê-lo inteiramente. Este artigo de Catarina Pires me apresentou Ricardo Belo de Morais e me forneceu elementos para desvendar os caminhos de Pessoa. Sou brasileira e visitei Portugal e Pessoa por duas vezes. Parabéns pela aula.

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