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Todos os participantes do projeto PROFCOM deste ano. Por ordem: Yoonchhomu Subba, Asmita Ghimire, Bohdan Kusmich, Ayiman Mohammed, Nataliia Oliferovych, Paulo Valle, Shakil Mahmud, Vanessa Toro, Oksana Zinchenko, Mary Gatumia

Da janela de casa de Mary Gatumia, vê-se a Mouraria. Mas não é a velha Mouraria, do bairro tradicional. É a nova, do cheiro a especiarias, das línguas cruzadas, das cores e das roupas que deram nova vida ao bairro.

No pulso, Mary traz uma pulseira que é parte da sua velha vida e parte da sua nova vida, também, ambas cruzadas aqui. Com as mãos delicadas, ela própria fez um dia deslizar as missangas até encontrar a palavra mágica que a leva de volta a casa: “Kenya”.

Na sala de estar, há longos colares, girafas e flamingos em madeira. Foi Mary quem os fez, seguindo os ensinamentos do pai na arte da bijutaria.

São estas peças que vão estar numa das bancas da Feira do Empreendedorismo, no Largo da Rosa, de sexta a domingo (10 a 12 de junho), numa das iniciativas que torna o Arraial P’ra Sempre da Renovar a Mouraria diferente: o culminar de um projeto de nome estranho, PROFCOM, que tem como principal objetivo apoiar ideias empreendedoras da comunidade migrante o bairro.

As missangas de Mary e o yoga de Vanessa

“Todos os projetos da Feira do Empreendedorismo têm a ver com a identidade das pessoas, quer seja cultural, pessoal ou espiritual”, diz Ivan Bustillo, técnico de Inclusão Social na Renovar a Mouraria e coordenador do projeto. São ideias que foram ganhando forma desde finais de março ou que foram aperfeiçoadas a partir dos resultados da edição anterior.

Mary Gatumia é uma dessas empreendedoras. Há quatro anos que vive em Lisboa, com o marido e os três filhos, que, tal como a mãe, já começaram a pintar e a juntar as missangas.

Foi a barreira linguística que a levou até à Renovar a Mouraria, onde teve aulas de português. Mesmo assim, a língua continua a ser uma batalha diária: “Ainda é difícil para mim”.

Mary regressa este ano ao PROFCOM. Foto: Rita Ansone

No ano passado, a sua paixão pela bijutaria ganhou ainda mais fôlego ao juntar-se ao PROFCOM, e este ano está preparada para regressar à feira. “A Mary é uma referência para os outros empreendedores”, diz o coordenador.

Vanessa Toro chega ao Largo da Rosa com as suas calças coloridas. Ivan Bustillo descreve-a como “uma mulher muito viajada”. Uma mulher que encontrou em Lisboa a liberdade que tanto procurava. Daquilo que mais gosta desta cidade, é do “imaterial”, diz com um sorriso misterioso e os olhos postos no céu azul.

Vanessa é uma das nove participantes desta edição. Há dois anos, quando chegou a Lisboa vinda do Chile, a cidade não era o seu destino final: planeava passar o ano inteiro a viajar pelo mundo, mas apaixonou-se. “Senti-me como nunca me tinha sentido numa cidade antes”, conta.

Vanessa Toro descobriu em Lisboa o yoga, a meditação, a alimentação saudável. Foto: Orlando Almeida

Enquanto trabalhava como rececionista de um hostel, embarcou numa “viagem interior” e decidiu que queria partilhar as suas descobertas: o yoga, a meditação, a alimentação saudável. “Comecei a pensar em desenvolver algum projeto, alguma ideia”, diz.

Vanessa juntou-se ao PROFCOM com uma ideia focada numa ecotour: um passeio de bicicleta até à praia, com direito a uma aula de yoga, a uma aula de meditação e ainda a um snack vegan.

O projeto de um migrante para migrantes

O PROFCOM surgiu quando Ivan Bustillo, também ele migrante e por isso bem ciente dos desafios que se apresentam a alguém que chega a um novo país, se apercebeu que havia muita gente vinda de todos os cantos do mundo com grandes ideias. “Havia muita vontade de procurar emprego, de criar negócios”, diz.

Ivan Bustillo a usar uma das peças criadas pelo participante no PROFCOM Paulo Valle.

Mas estas pessoas não tinham acompanhamento nem apoio para concretizar os seus projetos. Foi por isso que a associação Renovar a Mouraria lançou uma open call para recrutar especialistas na área do empreendedorismo.

Com o apoio de pessoas conhecedoras da área empresarial (os facilitadores) e pessoas com os seus próprios negócios (os mentores), um grupo de migrantes trabalhou para dar azo às suas ideias. O projeto contou ainda com alguns parceiros como a ComParte, a Rizoma e o ImpactHub.

No final, apresentaram-se os resultados numa feira, mais pequena do que a deste ano, onde se celebrou a bijutaria do Quénia, o yoga e a alimentação vegan, o design de moda e até mesmo a carpintaria, com o participante Milat a construir as prateleiras da loja de alimentação saudável da cooperativa Rizoma.

Estampagens de Paulo e a plataforma de Shakil

Este ano a feira regressa em força, marcada sobretudo pelas ideias ligadas às indústrias criativas e da comida, o que “tem tudo a ver com o arraial”, como diz Ivan Bustillo. Paulo Valle é um exemplo disso mesmo: o seu projeto está ligado ao trabalho com a estampagem em lenços e écharpes de seda.

Nos próximos dias, a banca do brasileiro Paulo vai iluminar-se com as cores vivas e as alusões aos azulejos portugueses, à pop art e ao Mês de Orgulho (Pride Month). “Eu acredito que trato a arte de uma forma pessoal”, diz o artista. “É a minha assinatura, como se fosse um pedaço da minha cara estampada”.

Paulo Valle e um dos seus lenços alusivo aos azulejos de Lisboa. Foto: Orlando Almeida

O gosto pelas artes visuais começou quando os pais o inscreveram numa escola de artes com cerca de oito anos. Mas foi já mais tarde, quando Paulo ouviu falar na técnica do batique com cera e parafina, que se rendeu por completo à arte da estampagem.

Um dos lenços de Paulo Valle. Foto: Orlando Almeida

Ao longo dos anos, trabalhou sempre com a criação artística, especialmente com estamparia para confeção e para exposições, e chegou mesmo a ter a sua marca de roupa.

Veio para Lisboa tirar um mestrado em História de Arte, e também porque a sua irmã já vivia aqui há 20 anos. Encontrou na cidade das sete colinas um ambiente estimulante para a sua prática enquanto artista.

Entretanto, soube da PROFCOM através de um anúncio e pareceu-lhe a oportunidade perfeita para aprender mais sobre outras vertentes, como o negócio e o desenvolvimento de marca. “Tive ferramentas para desenvolver uma linha de negócio mais eficaz, mais programada, mais direcionada”, explica.

A ideia, agora, é expandir a sua marca e Paulo até já pensou em produzir peças para instituições museológicas, transportando o universo dos acervos para a seda pintada.

Como Paulo, o projeto de Shakil Mahmud é também artístico. Shakil é do Bangladesh e chegou recentemente a Lisboa como turista. Acabou por ficar, deixando para trás o seu trabalho como jornalista e abraçando uma “nova vida”, uma expressão portuguesa que ele aprendeu quando aqui chegou.

Shakil Mahmud encontrou nas ruas de Lisboa a arte do Bangladesh. Foto: Orlando Almeida

Ao deambular pelas ruas de Lisboa, apercebeu-se que esta é uma cidade repleta de arte. Para sua surpresa, até mesmo com arte do Bangladesh, que Shakil encontrou nas ruas do Bairro Alto e na rua Cor de Rosa. Foi assim que surgiu a ideia que hoje se concretiza, a de criar uma plataforma de obras de arte para artistas do Bangladesh residentes em Lisboa. Chamou-lhe Artzone.

Na Feira do Empreendedorismo, na Mouraria, durante o Arraial de que a Mensagem é parceira, vão ser apresentadas estas obras e o seu portfolio digital (que estará acessível através de um QR Code).

Mais um cruzamento nestas ruas de diferentes identidades, culturas e histórias que percorreram o mundo e chegaram à Mouraria. Para ficar.

O Arraial P’ra Sempre tem como parceiro de Media, nos copos e no Concurso de Quadras da Mensagem de Lisboa.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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