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Portugal e China não podiam estar mais distantes. Na chegada a Lisboa, Run percebeu-o logo, na forma como os lisboetas a receberam: abraços são coisa estranha em Dalian, onde nasceu, até entre familiares próximos. Semanas depois, num balcão das Finanças, comprovou que também ela estava longe de Portugal, mesmo já tendo aterrado cá. “Ninguém me sabia explicar o que era o IRS.” Nem por ter chegado a Lisboa de braço dado com um marido português, em 2015, a missão de viver em Lisboa lhe pareceu mais fácil. “Os imigrantes precisam sempre de ajuda e pode ser de um português, mas se for alguém do mesmo país talvez seja mais fácil, porque percebe pelo que estamos a passar.”

Run quer fazer parte da mudança. Neste dia, estava sentada numa das 15 cadeiras dispostas numa sala da Mouraria, onde dentro de minutos iriam sentar-se outros imigrantes de diferentes nacionalidades. Todos eles com um objetivo em comum: aprenderem a ser mediadores interculturais.

Um desafio lançado pela associação Renovar a Mouraria e concretizado com o Curso de Formação em Mediação Intercultural Comunitária, do qual saíram seis participantes com contrato de trabalho com a associação para a função de mediadores, num bairro tão diverso culturalmente como este.

“Pode ser que um dia possa ajudar outras pessoas”, diz Run com expectativa.

Run nasceu na China e chegou a Portugal em 2015, com o marido português. Sabe que nem um braço direito conhecedor da cultura e da língua é suficiente. Ter alguém que saiba o que é estar num sítio estranho em costumes e na língua faz toda a diferença na integração. Foto: Rita Ansone

“Braving”, a construção de um mediador

“Tem sido uma semana difícil. Tenho amigos na Ucrânia.” Ivan Bustillo abre a sessão e logo se percebe a massa diversa de que é feita esta sala. Aqui, homens e mulheres chegam de diversas partes do mundo e estão a viver a guerra na Ucrânia de diferentes formas também.

Ivan, que coordena o curso de mediadores, não os faz esquecer disso, para logo a seguir dar uma lição. Melhor, uma palavra: “Braving”. Uma forma de encarar a vida, mas sobretudo o ponto de partida para cada mediador, diz.

“Braving” é, na verdade, acrónimo de tudo o que a arte de bem receber novos lisboetas deve ser: definir limites, construir confiança, nunca partilhar o que não é nosso dever partilhar, escolher sempre a coragem ao conforto de não agir, não julgar, pedir desculpa e emendar sempre. Valores que Ivan, de 32 anos, traz de casa, um país a muitos quilómetros de Lisboa: Colômbia. E de todo o mundo que já percorreu.

A diversidade cultural sempre lhe foi familiar. “Venho de uma família com mistura de italianos, uma bisavó que era negra, outros de Espanha. A Colômbia é muito diversa.” Nasceu em Barranquilla, cidade “da Shakira”, também ela “uma mistura de várias culturas”. “Tanto que, no Líbano acham que ela é libanesa”, ri.

Raízes tão diferentes só podiam ter um efeito: uma grande vontade de conhecer esse mundo que já lhe corria no sangue. Terminados os estudos no colégio, Ivan ganhou uma bolsa para estudar inglês nos EUA e foi lá que teve “o primeiro contacto com a diversidade a sério”.

“Na minha turma, tinha pessoas refugiadas, do Médio Oriente, da Somália. Eu queria ser médico, antes de descobrir a psicologia social, mas se estar lá me deu alguma coisa foi a certeza de que queria fazer algo pela humanidade, gerar impacto. E esta diversidade que, de alguma forma, me tirou da minha zona de conforto, começou a converter-se na minha zona da conforto.”

Quando regressou à Colômbia, perguntou-se o que queria fazer da vida. “Literalmente, pesquisei no Google: ‘Carreiras para ajudar pessoas’. Super básico.” Escolheu psicologia, mas levou oito anos a terminar o curso, porque estava sempre a fazer voluntariado e a interromper os estudos. Tinha como objetivo maior fazer a diferença na vida das pessoas e foi atrás disso que correu.

Ivan fê-la em vários continentes. Foi professor na Ucrânia, numa escola secundária, onde ensinou “soft-skills para a vida e para o trabalho”. Esteve em Salvador da Bahia, “nas chamadas ‘favelas’, a trabalhar diretamente com a comunidade e a desenvolver um projeto de empoderamento da juventude”.

Ainda no Brasil, ajudou uma comunidade que tinha sido despejada por força da Copa do Mundo. “Iam construir ali um edifício desportivo. Assentaram num lugar chamado Paraíso, um bairro que eles criaram. Mas o terreno era das águas (municipais). Então, o meu trabalho foi um pouco de jornalista, de recolher as histórias das pessoas desta comunidade e de ajudar a criar líderes comunitários, para depois nos apresentarmos e pedirmos à empresa que doasse o terreno a estas pessoas. O meu projeto foi até aqui, à apresentação da proposta.” Quatro meses depois, ligam-lhe com a boa nova: “Tínhamos conseguido. E a própria empresa criou uma fundação através deste processo.”

Do Brasil à Ucrânia, Ivan diz ter trabalhado para deixar uma marca nos países por onde passou. Foto: Rita Ansone

Ivan começava a construir tudo o que veio, mais tarde, ensinar à Mouraria. Depois do Brasil, voltou à Colômbia e foi lá que recebeu o Greenovators Prize, atribuído pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, pelo projeto de cidadania sustentável que criou num bairro do país onde nasceu.

Sempre foi fã de cidades planas, mas Lisboa surgiu-lhe no mapa por acaso e nunca mais quis trocar os altos e baixos que levam aos miradouros pelas avenidas retas da Holanda. Chegou a 16 de julho de 2019, “dia da Virgem do Carmo”, lembra-se. Uma festividade importante na Colômbia, dia em que ele e os primos vestiam roupa nova para desfilar pela cidade. Não se lembra do que vestia quando partiu da Polónia, onde estudava Psicologia Social, para vir para o ISCTE, que o escolheu para desenvolver aqui a sua tese.

“Fiz a tese na Mouraria, inspirado pelo bairro: entender o bem-estar social daqueles que impactam socialmente as comunidades, que foi sempre coisa que me preocupou. Os assistentes sociais dão tanto, mas como é que eles estão?” Com isto em mente é que se formou, tornou-se professor da Cambridge School em Cascais, em Psicologia e Sociologia, mas sentiu logo falta de estar no terreno. Um dia, um anúncio da Renovar a Mouraria e, num instante, Ivan assumia o papel de técnico de inclusão social no bairro.

Começou 2022 sentado com mais de uma dezena de imigrantes como Run, também com vontade de fazer a diferença. Um programa criado por ele.

Ajudar, uma forma de integrar

Lisboa era a oportunidade “de ir além da zona de conforto e estabelecer uma identidade em algum lugar, sozinha”. Foi com estes olhos que Farhana Akter, 39 anos, chegou à cidade, vinda de Dhaka, no Bangladesh, a poucos dias de a pandemia estalar no país – fevereiro de 2020.

“É espantoso como Portugal é um dos países da Europa que melhor acolhe os migrantes”, diz, apesar da pouca atenção dada às barreiras burocráticas com que esta comunidade que aqui se instala se depara. A língua é o primeiro e maior dos entraves, mas não é o único. Contar com alguém que teve o mesmo ponto de partida e de chegada pode fazer toda a diferença, acredita Farhana.

Quer fazer pelos outros o que não fizeram por ela. “Ser mediador é uma valorização da minha identidade também aqui em Lisboa.” Foi uma das seis escolhidas para ser mediadora na Mouraria.

Farhana Akter, 39 anos, chegou à cidade, vinda de Dhaka, no Bangladesh, em fevereiro de 2020. Foto: Rita Ansone

Foi ao balcão da associação Renovar a Mouraria que Ivan Bustillo percebeu a urgência de um projeto que ajudasse os imigrantes “a construir uma vida em benefício da comunidade” como forma de integração.

Começaram com o “ProfCom, um projeto que promove o empreendedorismo destas pessoas e empodera as comunidades imigrantes e refugiadas, apoiando-as na formação dos seus negócios”. Contam com mentores, de qualquer parte do mundo, empreendedores, que os ajudam até à criação da marca.

Depois, “entram os mediadores”, imigrantes que criam pontes entre outros imigrantes e os serviços locais. “Fizemos um ciclo de formação de 100 horas, totalmente gratuito, e um bootcamp de seis dias, para ensinar empatia, comunicação, culturas, as ferramentas para minimizar a discriminação, a cartografia do próprio bairro”, explica o coordenador do curso.

O objetivo é não só reforçar a integração num bairro com tanta diversidade, mas também profissionalizar a figura de mediador. No dia-a-dia, estes seis novos mediadores que nascem na Mouraria vão dedicar-se ao atendimento de imigrantes e ao desenvolvimento de estratégias inovadoras para a integração e tradução.

Rafael Lobo, 45 anos, veio para Lisboa à procura de uma vida mais tranquila. É um dos novos mediadores da Mouraria. Foto: Rita Ansone

“Eu quero dizer uma coisa”. Rafael levanta a mão para falar. Ainda não sabia que era também ele um dos seis escolhidos para ser mediador a tempo inteiro na associação Renovar a Mouraria e já este carioca do Rio de Janeiro de 45 anos interrompia a sessão para agradecer. “Nós não éramos muito bem tratados no mercado de trabalho. Agora, sinto-me realmente bem. Gosto de onde estou e com quem estou.”

Rafael Lobo está em Lisboa desde março de 2019. Ao contrário da maioria dos colegas, diz ter tido uma transição mais serena, em parte pela língua que já partilhava com Portugal. “Viemos eu e minha esposa, mais o gato, em busca de uma vida mais tranquila. Chegamos a Lisboa numa situação privilegiada. A minha esposa é italo-brasileira e veio com passaporte Europeu, o que facilitou muito.” Ainda assim, “muitos outros aspetos que não têm que ver com a parte burocrática teriam sido bem mais fáceis com o suporte de um mediador”, aponta.

Ser mediador “vai muito mais além de uma ajuda técnica”, lembra. Um bom braço direito nesta mudança ajuda a colocar “as coisas num plano concreto e mais seguro.”

E todos eles conhecem bem o valor de um porto seguro. Foi em Lisboa que o encontraram.


Catarina Reis

Nascida no Porto há 26 anos, foi adotada por Lisboa para estagiar no jornal Público. Um ano depois, entrou na redação do Diário de Notícias, onde aprendeu quase tudo o que sabe hoje sobre este trabalho de trincheira e o país que a levou à batalha. Lá, escreveu sobretudo na área da Educação, na qual encheu o papel e o site de notícias todos os dias. No DN, investigou sobre o antigo Casal Ventoso e valeu-lhe o Prémio Direitos Humanos & Integração da UNESCO, em 2020.

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