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Superlinox cria “esculturas urbanas” e tem-se dado a conhecer pela cidade de Lisboa – a Mensagem já falou das suas obras neste texto. A última criação são os Irmãos Melnyk: dos orfãos ucranianos, pintados de amarelo. Uma escultura que tem a motivação de trazer a política e matérias de guerra e de paz para as ruas da cidade. E que, ao contrário das outras obras, “dificilmente diverte e é muito emotiva”, uma vez que representa o sofrimento de um povo, o ucraniano que, para a fugir à morte, abandona as raízes.

Os “Irmãos Melnyk”, de Superlinox, como tantas crianças ucranianas fugidas da guerra, encontraram refúgio em Lisboa e aqui ficarão. Até que a guerra acabe. Ou para sempre. Foto: Superlinox

Quem são os “Irmãos Melnyk” e o que fazem em cima de uma escola, no Largo do Leão?

Para começar, estes dois irmãos amarelos estariam em frente da Embaixada da Federação Russa, se esta não estivesse escudada por grades e metralhadoras, até da arte. Apesar de a arte ser para todos, segundo quem esculpiu, o eco maior que desejava era ser vista e sentida por quem trabalha na Embaixada.

“Olhem, aquilo que representam está a causar isto. Duas crianças tiveram de sair do seu país, estão órfãs”, diz.

Mesmo que a eles não chegue, a arte está ali, um pouco mais abaixo da Embaixada, no Largo do Leão, a abordar uma injustiça universal, que pode assumir todas as cores e nacionalidades, a nossa inclusive. Portanto, é para ser vista por todos.

Para explicar a obra não existe apenas a cor de um amarelo warholiano, que resgata uma das cores da bandeira ucraniana. Atentemos, ainda, ao nome de família Melnyk, que é o mais comum na Ucrânia.

Porquê as crianças? Porque são estas “a representação do futuro”. O mais velho, dos irmãos esculpidos, tem a cara marcada pela guerra. O mais novo, com o aconchego do mais velho, a mão no ombro, tem na sua mão um yo-yo. A réstia da sua inocência? Estão ambos órfãos, na rua de um país estranho e caminham para o incerto.

“Além do futuro, representam a ausência de culpa perante o mundo que nós criámos.”

Carlos, o sonâmbulo que quer acordar quem anda sem ver ou pensar sobre o que se passa à sua volta. Como Superlinox, o seu criador. Foto: Superlinox

A mensagem não se encerra com a escultura e com a sua explicação, a interpretação e reação ficam do lado dos transeuntes. O tal eco. “Para as pessoas pensarem, primeiro têm de ver, mas as pessoas nem sempre veem. Noto que muitas passam e não reparam. Vivemos a fugir da introspeção.”

Esta preocupação artística estava já bem presente noutras obras, por exemplo, em “Carlos”, o sonâmbulo que almejava acordar quem assim caminha, num estado de adormecimento.

“Primeiro trabalho para mim, questiono-me. Quero acreditar que também provoco pensamento nos outros. Às vezes, sinto que ninguém vê nada. Isso diz mais de mim ou das pessoas?”, questiona-se Superlinox.

As reações da escola e a legitimação artística de Superlinox

O facto de a escultura não ter sido retirada da frontaria da escola onde foi colocada, não é apenas um posicionamento perante a guerra, é também perante a arte. Para Supelinox trata-se de uma legitimação, apropriação com significado do espaço público, permitindo-lhe resistir ao tal sistema de segunda a sexta, que insistia em remover-lhe as esculturas. Aqui está possivelmente uma mudança de paradigma da cidade perante Superlinox.

Alunos e professores da Escola Básica O Leão de Arroios receberam bem os Irmãos Melnyk. Foto: Supelinox

A verdade é que as pessoas têm visto a obra e estão a ver. Com as vestes que ser artista sem rosto permitem, Superlinox observou, dia após dia, a partir da esplanada do café em frente à escola a interação com a escultura. Notada, sentida e falada por quem passava e pela comunidade escolar, a escolha foi clara: mantê-la.

Desenho de Concha Côrte-Real, arquiteta e urban sketcher, sobre os Irmãos Melnyk

A Escola Básica O Leão de Arroios diz que a primeira reação foi de surpresa e questionamento: queriam saber como tinha ali chegado, por quem e qual a motivação. A velocidade das redes sociais trouxe esclarecimento. Reconhecem a originalidade e o valor que acrescenta ao espaço escolar, quer em termos estéticos quer ao nível do seu significado – de louvar, segundo o coordenador.

A escola usou até as redes sociais e o site para agradecer a escultura, tendo manifestado o interesse de a manter pelo tempo que Superlinox desejar.

Concha Côrte-Real, arquiteta e urban sketcher, também não ficou indiferente à peça, tendo-a imortalizado no seu caderno.

Contrasta a representação da mesma com a cor azul, dando uma dimensão objetiva à alusão das cores ucranianas, que só tínhamos no céu. Assinalou tratar-se de uma “peça bonita, emocionalmente intensa, que merece ser olhada de próximo para que os detalhes não passem despercebidos”.

Aurora, a guerra de outra escultura

Apesar de todas as urgências dos dias, Superlinox não quer ser refém da atualidade, e das suas temáticas, para produzir as peças. Considera o seu tipo de escultura um ato político, “mesmo que a temática não seja politicamente evidente, o ato é”.

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Vídeo “Aurora (e o canhão)”, de Superlinox.

No passado, apenas uma vez abordou um assunto tão sério com “Aurora (e o canhão)”. A Aurora surgiu, embora de forma não assumida, numa altura em que o antigo conflito entre Israel e Palestina, tinha escalado.

“Estava a sentir e a refletir sobre isso, mas queria passar uma mensagem universal sobre qual o sentido e quem sofre com as guerras”, partilha Superlinox.

A universalidade da problemática da guerra é urgente e próxima, não porque uma guerra bate às portas da Europa, mas porque outras poderão surgir.

As esculturas de Superlinox querem fazer-nos parar. E pensar. Foto: Superlinox

“Temos outro grande problema, cada vez mais atual, as alterações climáticas. A certa altura chegará a necessidade de as pessoas se transferirem de país em país”, reflete.

Ao contrário das outras esculturas que costumam ser retiradas quase imediatamente, esta tem durado. E são muitas as esculturas que tem pensadas para nos fazer parar na cidade.

Esculturas não encomendadas, de artista sem rosto, costumam durar pouco, mas que dure um cultivo de empatia: seremos um dia refugiados?


Leonardo Rodrigues

É aluno de Ciências de Comunicação, na Universidade Nova, e também autor do projeto Lisboa Quase Verde. É membro da Assembleia de Freguesia de Alvalade, eleito pelo Bloco de Esquerda, e autor do blog Leonismos.com

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