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Cresci ao lado da Mouraria, mas nunca realmente pensei nas suas origens e não creio que alguma vez tenha parado para refletir no nome. Não era o meu bairro. Estava sempre apenas de passagem, com uma curiosidade imensa pelas suas ruelas estreitas e difíceis de calcorrear.

Ainda tenho memórias da Mouraria como um lugar muito pobre, negligenciado e em parte isolado, a tentar resistir aos flagelos de uma toxicodependência e prostituição que devastaram o centro da cidade em décadas anteriores.

Hoje é possível passear por entre os seus largos, bairros reabilitados, ruas e excêntricas escadas, enquanto se absorvem os cheiros e cores distintivas dos mil recantos gastronómicos e das lojas asiáticas que nos oferecem coisas impossíveis de encontrar em qualquer outro ponto da cidade.

Há produtos de todo o tipo à venda em torno da praça do Martim Moniz. No outro dia, li um estudo realizado por duas antropólogas sobre a facilidade em encontrar na zona da Mouraria produtos branqueadores de pele, proibidos pela legislação europeia devido à presença de substâncias tóxicas.

E foi assim que descobri, para meu grande horror, que mulheres de países como a Índia, Bangladesh ou Nepal, mas também mulheres negras, tentam aclarar tons de pele mais escuros com branqueadores de pele. Alegam, assim, ser mais fácil encontrar oportunidades de trabalho.

Que mundo louco e retorcido este.

A Mouraria começou por ser um gueto, na verdade. Aprendi esse facto na escola, mas foi apenas recentemente, ao aproveitar uma visita guiada ao Castelo de São Jorge na Noite Europeia dos Museus, que olhei verdadeiramente para as muralhas do castelo que visitei vezes incontáveis quando era criança.

Deixei-me levar pelo entusiasmo do guia, um especialista em História Militar, que nos levou numa viagem no tempo de 1h30 através da conquista portuguesa da fortificação e da alcáçova aos mouros.

Após a conquista do castelo pelas forças de Dom Afonso Henriques, e graças a um cerco que durou vários meses, a população mourisca e muçulmana foi empurrada para fora da antiga muralha e confinada então a um gueto, e nesses bairros viveram até à sua expulsão ou reconversão no século XV.

Não se pode julgar que uma população que viveu durante séculos na cidade não deixou a sua marca de muitas formas. O fado português soa familiar para muitos ouvintes árabes, que notam semelhanças com as músicas clássicas de grandes cantoras do século XX que cantavam ao som do oud, um instrumento árabe ancestral do alaúde.

A Mouraria é hoje um remoinho de culturas migratórias onde coabitam cerca de 56 nacionalidades, sendo as maiores comunidades pertencentes ao Bangladesh, China, Índia, Paquistão e Moçambique, dando origem a um comércio fervilhante.

Em anos recentes, passou a existir uma pequena mesquita que serve a crescente comunidade muçulmana que ali reside. Está longe da grandiosidade e beleza arquitetónica da Mesquita Central de Lisboa, mas é importante para as várias comunidades muçulmanas sentirem que ali existe um local congregador de oração.

O mundo islâmico recentemente celebrou Eid Al-Adha, o dia do Sacrifício, cujo significado evoca uma das histórias mais conhecidas dos livros sagrados. A história de Abraão e de como provou a sua fé perante Deus ao aceitar sacrificar o seu filho.

Qual filho? Isaac ou Ismael? Varia de religião para religião. Ismael viria a ser o fundador dos clãs da tribo do profeta Maomé. Isaac continuaria a linhagem que daria origem a reis e profetas do Antigo e Novo Testamento.

São histórias universais, mas o que interessa no Eid Al-Adha é a celebração em família e o facto de coincidir com a peregrinação anual a Meca.

Com a guerra na Ucrânia, muitos países no continente africano ou no Médio Oriente viram as suas celebrações ameaçadas devido à falta de trigo e à subida de preços. Foi fácil dar o salto da Mouraria para esta nova guerra que ameaça prolongar-se e manchar o mundo com violência.

Penso naqueles mouros de outrora e a escolha que tomaram de pertencerem a uma cidade em que eram vistos como diferentes, mas nela criaram raízes, até serem expulsos por intolerância religiosa.

Séculos que nos separam deles e o que mudou? Esta parte da cidade continua a estar associada a uma mescla de identidades e culturas, mas também preconceito, que desafia tudo e protege a Mouraria de se descaracterizar por completo.

Hoje, por entre os cheiros das cozinhas são-tomense, cabo-verdiana, brasileira, dos restaurantes clandestinos chineses e vietnamitas e muitos outros, a Mouraria é um palco de vivências do mundo, onde não falta uma comunidade e partilha.

O que lhe reserva o futuro? Poucos sabem.

A gentrificação pode ter afetado uma grande parte das zonas históricas de Lisboa, mas há algo neste “gueto” que continua a resistir aos novos tempos, com as suas associações de moradores, cooperativas, igrejas, casas típicas já reabilitadas, espalhadas por uma colina onde o português não é a língua mais falada.

E no entanto a Mouraria ainda é um dos lugares mais portugueses que temos no coração de Lisboa.


Safaa Dib

Enquanto luso-libanesa, vive entre duas culturas desde que se lembra, mas Lisboa é onde assentou o coração. Desde muito cedo ingressou no mundo da edição de livros e divulgação literária. Nunca pessoa de se restringir a uma área só, é proprietária de um estabelecimento de cozinha libanesa em Lisboa e, nos últimos anos, ingressou na atividade política, sendo dirigente do LIVRE.

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2 Comentários

  1. A Mouraria, em especial a Rua do Benformoso é um pequeno laboratório de experimentação social onde se pode antever o futuro de Portugal.

  2. Parabéns à Safaa pelo texto, a minha Mouraria, há muitos anos que deixou de existir (nasci no Socorro), mas continua no meu coração,
    e ainda bem que houve uma “mudança” – será – os habitantes Mouraria, sempre foram os “esquisitos” de Lisboa. E ainda bem que continuam a existir as Pessoas, venham de onde vierem , são da minha Mouraria

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