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Quando, há mais de trinta anos, a minha tia morreu sozinha em casa, a minha mãe demorou a refazer-se da perda da sua única irmã. E, porque esta se divorciara havia anos e não tivera filhos, fomos nós que desmanchámos o apartamento em que morava, pois o senhorio estava morto por poder arrendá-lo por um valor mais alto. No entanto, por causa do desgosto da minha mãe, só lá voltámos duas semanas depois da tragédia.

Despejar a casa de alguém que morreu dá sempre lugar a surpresas (basta abrir as gavetas e as coisas mais inesperadas brotam como cogumelos), esbarrando-se bastas vezes com recordações que julgávamos mortas e enterradas; mas para mim, à data completamente neófita nessas lides, o mais difícil foi encontrar, depois de aberta a portinhola da mesa-de-cabeceira, o bacio de esmalte com o que presumi ter sido a derradeira urina da minha tia. Tinham passado quinze dias… poupo-vos aos detalhes.

Os bacios, penicos ou potes – chamem-lhes o que quiserem – fazem parte das minhas memórias desde a mais tenra idade. Primeiro de esmalte azulado e, mais tarde, de plástico duro e branco, foi em cima de um desses objectos que o meu irmão e eu passámos horas em pequenos à espera do «presente», enquanto cantávamos escalas e fingíamos que a pedra-pomes, a escova das unhas, a colónia e o recipiente do algodão eram campainhas cujas notas tínhamos de identificar.

Cumprido o ritual exigido pelos adultos, gritávamos estridentemente «Já fiz!» em coro, e lá aparecia a minha mãe ou a minha avó para nos lavarem e porem a andar dali para fora. Como a hora a que nos sentavam no bacio raramente coincidia com as nossas reais necessidades, era frequente, ao levantarmo-nos, termos um vinco vermelho nos rabiosques.

Lá em casa, os bacios estavam guardados nos compartimentos da mesa-de-cabeceira; mas, quando íamos de férias, acompanhavam a restante bagagem, empilhados numa torre, pois não era costume levar as crianças à casa de banho durante a noite; e, se os quartos ficavam demasiado próximos uns dos outros, também os adultos urinavam cada um no seu para não incomodarem ninguém a desoras, procedendo de manhã ao que imagino a nada simpática tarefa de despejar o penico, para depois o lavar com Vim e desinfectar com Aseptal, uma solução incolor de cheiro intenso em que estávamos terminantemente proibidos de mexer.

Mesmo assim, se durante a viagem – que antes das auto-estradas, já se sabe, era longuíssima para os mais novos – alguém se lembrava de pedir para fazer chichi, encostava-se o carro à berma, saía-se com a criança, desciam-se as cuequinhas ou abria-se a braguilha, e aqui vai disto – uma prática que explica porque a capital tinha então muitas ruas a cheirarem a mijo, até porque, que eu me lembre, não havia sanitários públicos espalhados pela cidade.

Porém, se, com o passar do tempo, os bacios se tornaram obsoletos; se aqueles buracos que eram algumas retretes em estações e cafés deram lugar a «lavabos» por vezes tão sofisticados que até é preciso pensar dez vezes antes de abrir a torneira; se os hábitos de higiene dos portugueses mudaram felizmente para melhor; se as ruas são agora lavadas quase todas as noites… a verdade é que as casas de banho públicas ainda escasseiam em Lisboa.

Vivo num largo onde há uma praça de táxis; e vejo os motoristas estacionarem para irem satisfazer as suas necessidades no WC do café por baixo da nossa casa. Contudo, durante o primeiro confinamento, em que cafés e restaurantes tinham as portas fechadas, não havia nas imediações uma única retrete onde os pobres taxistas pudessem aliviar-se. Resultado: a estátua ao centro da praça nunca foi tão visitada como nesse tempo (mal eles sabiam que- eu assistia a tudo da minha janela); e todos sabemos que é uma estátua feia como o raio, mas também não era preciso mijarem-lhe em cima…


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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2 Comentários

  1. Maria do Rosário Pedreira: se tiver muito boa memória, talvez se lembre de comentários que fiz na “Capital”, sobre obras que editou e que escreveu. Mas sobre “penicos” muito haverá a dizer. Em casa de uma das minhas avós, havia um como nunca vi igual: era tão alto que dava para que uma pessoa nele se sentasse como se estivesse numa sanita! Ou seja: era a comodidade aliada à necessidade! Tenho sempre prazer em relê-la!

  2. Então não lembro… ! Esses penicos altos são para as pessoas de idade, que já não se conseguem baixar. Também vi um em casa da minha mãe, embora ela ainda prefira ir pelo seu pé à casa de banho. Obrigada por ler e comentar. Um abraço.

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