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Ficou sem trabalho quando tudo fechou por causa da pandemia em março de 2020. Com as poupanças fez o que pôde, mas poucos meses depois restou-lhe a Uber como saída para pagar as contas. Para trás deixou uma carreira como videógrafo e editor de vídeo. “Não havia trabalho e eu tive que dar um jeito” diz André Militão.

Este brasileiro de Brasília, filho de “Seu” Francisco e de Dona Elzenir, nordestinos da Areia Branca e de Mossoró, de quem diz ter herdado a resiliência, veio para Portugal com os pais visitar o irmão, que já vivia e trabalhava cá. Apaixonou-se pela cidade e por uma lisboeta (que hoje é mãe dos seus três filhos, a quem chama orgulhosamente de luso-brasileiros) e ficou.

Enquanto levava clientes de um lado para o outro e passava inúmeras vezes pelas mesmas ruas, teve um clique. Para não deixar completamente uma das suas grandes paixões, juntou o útil ao agradável e das janelas do seu Uber passou a fotografar todos os dias Lisboa – a cidade que o encantou desde o primeiro momento que cá chegou a 7 de dezembro de 1994, com apenas 22 anos.

Leia a reportagem em crioulo aqui.

André Militão é editor de vídeo, mas durante a pandemia teve que se reiventar como condutor de Uber. Não deixou, no entanto, a sua paixão pelas imagens e pela cidade de Lisboa. Juntou-as, na sua página de Instagram LisbonFromMyCar. Foto: RIta Ansone

“Quem nasceu e cresceu numa cidade de apenas 60 anos e descobriu uma cidade com muitos séculos, tão bonita e cheia de história, apaixona-se” diz. Apesar de mais tarde se ter mudado de Lisboa para Oeiras, é pelas ruas do centro de Lisboa que tem maior paixão. E é onde capta e junta imagens às mensagens que quer transmitir. Para ele, diz, “fotografar por fotografar não fazia muito sentido”.

Ser motorista de Uber não é um emprego de sonho!” diz, mas vai-se entretendo a fazer o que mais gosta, enquanto tiver que levar gente de um lado para o outro.

A conta de Instagram de André Militão, videógrafo que durante a pandemia se viu obrigado a tornar-se motorista da Uber.

Juntou-se a uma sobrinha que é gestora de redes sociais, abriu uma conta no Instagram que se chama @lisbonfromycar e começou a postar com frequência as suas obras. Retratos com “olhares diferentes” sobre a cidade de Lisboa, a partir das lentes de condutor/contador de histórias.

Anda à busca dos “não lugares” da cidade, dos lugares de passagem onde mil histórias acontecem por dia e onde encontra inspiração para fotografar e forças para continuar a luta. Esta fase para ele é de transição. “Ser motorista de Uber não é um emprego de sonho!” diz, mas vai-se entretendo a fazer o que mais gosta, enquanto tiver que levar gente de um lado para o outro.

“Esta página que criei é a minha declaração de amor pela cidade de Lisboa” diz André com os olhos radiantes. Para ele, é como dizia o Carlos do Carmo “Lisboa é sem dúvida menina e moça. De manhã tem a inocência de menina e à noite alguma irreverência que as moças já têm. Passo várias vezes na mesma rua, e sempre vejo uma coisa diferente. Se eu fotografasse a mesma rua todos os dias, ia ter fotografias diferentes todos os dias”.

O nono de dez filhos de um amor de filme

André nasceu e cresceu em Brasília, numa das cidades satélite chamada Ceilândia. Ele diz que o nome surgiu da junção de uma sigla – Comissão de Erradicação de Invasões (CEI) e o termo emprestado “Lândia”. “Ceilândia não existe na verdade. Foi o nome que se conseguiu arranjar” diz, a rir.

“É uma cidade muito violenta por conta da pobreza e das graves diferenças sociais”, diz André, que conta ainda que na sua infância, por inúmeras vezes, viu duelos ao pôr do sol “entre dois bandidos” enquanto jogava à bola com os amigos. Mas toda a sua família tem uma história de superação.

É o nono dos 10 filhos de “Seu” Francisco e da “Dona” Elzenir cuja história de amor faz lembrar os romances antigos. Ele conta que quando se conheceram, o jovem Francisco era motorista do autocarro que transportava num belo dia a bonita Elzenir, que era noiva de outra pessoa, na altura. Ela se apaixonou pelo motorista e, sendo correspondida, pouco tempo depois fugiu para se casar com Francisco.

Apesar de a mãe de Elzenir ser contra o casamento, porque Francisco era negro, o genro tornou-se posteriormente um grande amigo e cúmplice da “avó poetisa” de quem André herdou também a veia criativa.

“Minha avó era semianalfabeta que nem meu pai, mas era uma poetisa tão talentosa que fazia rimas até com os erros de português” conta, entusiasmado, André, que se considera uma exceção à triste regra que já se vivia na época no seu país natal: “eu tinha pai e mãe, tinha uma família sólida e com valores!”, afirma, com orgulho.

Os pais lutaram para criar André e os seus nove irmãos – seis rapazes e quatro raparigas. Como ele diz: “Nasci e cresci numa família cristã e aí, os ateus que me perdoem, fez toda a diferença, principalmente na maneira de responder às adversidades”.

Estudou até ao 12.º ano (o secundário) e não foi para a faculdade porque não teve oportunidade. “Os programas que existem hoje no Brasil não existiam na época”. Estudava numa escola de sete mil alunos, que tinha vinte turmas para cada ano do secundário. Havia oito turmas do ensino técnico-profissional e apenas dois de preparação para a universidade. O que significava, segundo ele, que “não havia ao menos um incentivo para que alunos de áreas pobres pudessem almejar ir para a faculdade”.

Bastava um curso técnico para se ingressar no mercado de trabalho e arranjar um emprego que garantisse um salário mínimo. Mas como o pai lhe incutiu a vontade de aprender e de crescer, ele nunca se conformou com o que a sua condição social lhe reservava e relata com paixão a história daquele que considera o seu herói.

O pai, Francisco, era mecânico, só aprendeu a ler e a escrever, mas fabricava peças e ferramentas porque lia tudo. “Lia rótulos, fixava números de série de produtos que comprava no supermercado e sabia o que podia faltar no comércio só de ouvir notícias de greves de camionistas, pois sabia o tipo de produtos que as transportadoras de determinadas regiões traziam”.

As suas limitações literárias nunca o impediram de aumentar o seu conhecimento e cultura geral. “Falava até de assuntos ligados ao espaço e era pertinente. Essa paixão de meu pai pelo saber foi o que o fez incentivar os filhos a estudar.”

As imagens de um lado para o outro

Quando veio para Portugal, André trabalhou “em muitas coisas”, todas voltadas para a arte e audiovisual. O irmão que o motivou a vir convidou-o para se juntar à empresa de animação onde trabalhava a fazer desenhos animados, a “Animanostra”, que realizou a primeira série de desenhos animados 100% portuguesa e prestava serviços à televisão pública.

Mais tarde trabalhou como editor de imagem, videógrafo, produtor, diretor de produção e realizador de filmes na empresa de alguns amigos. Sempre como freelancer. Até que veio a pandemia e deixou-o a zeros.

“LisbonFromMyCar” é a conta de André Militão, motorista da Uber.

Na fotografia, André não tem critério, é espontâneo e diz que fotografa na hora que lhe der jeito. “Basta parar num semáforo” e ver algo interessante. “Mas atualmente estou nessa vibe de fotografar à noite e não sei porquê”, diz a rir. Nos seus trajetos, diz que procura não se limitar a transportar pessoas, mas em proporcionar uma experiência a cada uma.

Em Portugal, apanhou o gosto pela leitura, através de uma grande amiga que o estimulou e o tornou num leitor assíduo, e por conta disso também ganhou o gosto pela escrita. Escreve de maneira criativa frases motivacionais nas fotos que posta, mas na maioria das vezes prefere manter o chavão que diz que “uma imagem vale mais de que mil palavras”.

Até que se lhe seja possível voltar a trabalhar integralmente como realizador, André segue pela cidade de Lisboa e arredores transportando vidas, fotografando e partilhando histórias da sua vida e da sua visão do mundo entre um lugar e outro através das imagens  e sentimentos que capta ou simplesmente através das palavras.


Karyna Gomes

É a jornalista responsável pelo projeto de jornalismo crioulo na Mensagem, no âmbito do projeto Newspectrum – em parceria com o site Lisboa Criola de Dino D’Santiago. Além de jornalista é cantora, guineense de mãe cabo-verdiana, e escolheu Lisboa para viver desde 2011. Estudou jornalismo no Brasil, e trabalhou na RTP, rádios locais na Guiné-Bissau, foi correspondente de do Jornal “A Semana” de Cabo verde e Associated Press, e trabalhou no mundo das ONG na Unicef e SNV.

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