Estava com um aspeto que metia nojo. Eram estas as palavras que me vinham à cabeça enquanto olhava para o espelho de uma montra exterior de um pronto-a-vestir na Rua da Palma.

Tinha tomado banho nos Bombeiros há dois ou três dias e a roupa que tinha vestida ainda não estava muito suja e não cheirava muito mal, mas estava já muito velha. Tinha o polo muito coçado, cheio de borbotos e o blusão já rasgado em vários sítios. Os jeans estavam já descolorados, gastos e rotos entre as pernas. Os ténis estavam sujíssimos, com as solas gastas e a mochila que trazia às costas já tinha tido melhores dias.

Já não conseguia pentear-me, pois o cabelo estava enorme e a barba já começava a encaracolar de tão grande que estava também. Sentia também o desconforto de não ter vestida nenhuma roupa interior, pois já não tinha. Nos últimos dias não tinha ganho o dinheiro que costumava ganhar a arrumar carros. É muito importante a boa aparência para arrumar carros. Quando se tem mau aspeto, as moedas ficam nos bolsos da maioria dos condutores.

Além disso, agora pairava no ar uma ameaça, um tal de coronavírus, que eu ainda não tinha percebido bem o que era. Até à data, não conhecia ninguém que tivesse contraído esse vírus. Eu não tinha acesso a notícias, nem sequer a um telemóvel com internet. O que sabia era pelas primeiras páginas dos jornais expostos nos quiosques e pelas conversas que se ouviam nas ruas. Mas o resultado era a maioria das pessoas estarem de quarentena em casa, o que era um problema para mim.

As ruas estavam vazias e os carros já arrumados. Estava a ser muito difícil ganhar algumas moedas. E já tinha ouvido dizer que o governo estava para declarar um estado de emergência, fechando totalmente o comércio.

Estava, então, olhando para a minha imagem e absorto com os meus pensamentos, quando de súbito surge, por detrás do espelho da loja, uma funcionária dirigindo-se à montra para mudar um letreiro ou algo parecido. Os nossos olhares cruzaram-se. Ela olhou-me de alto a baixo e fixou de novo os seus olhos nos meus com aquele olhar que me incomodava.

Aquele olhar com aquela expressão que me fazia sentir miserável. E era quando chegava à conclusão que não era uma questão de sentir. Eu era um miserável.

Penso que uma pessoa só se sente miserável quando não está na miséria. Porque quando está na miséria é simplesmente miserável. Facto. E aquele tipo de olhar diz tudo. Baixei os olhos, não com vergonha, mas para esconder a minha raiva. E afastei-me seguindo o meu caminho, sem saber qual seria.

Precisava urgentemente de cortar o cabelo e aparar a barba. A última vez que tinha entrado num barbeiro tinha sido sensivelmente há um ano. Mas como? Não tinha dinheiro nenhum. O corte de cabelo nos barbeiros mais baratos de bairro, custava à volta de cinco euros e a barba mais dois ou três… E mesmo que tivesse dinheiro, o maior problema era o meu aspeto.

Eu já estava a ter muitos problemas para entrar em qualquer estabelecimento comercial. Dias antes, já me tinham recusado o atendimento numa pastelaria. Não sabia o que fazer. Fui subindo lentamente a Avenida Almirante Reis e a dada altura sentei-me a descansar nos degraus do velhinho Chafariz das Águas Livres em frente ao Largo do Intendente.

Por vezes questionava-me quantos quilómetros andaria eu diariamente. Estava cansado e ainda não tinha caído a noite.

Lembro-me de que nesse dia deitei para o lixo o almoço que me fornecera um carro de apoio no Largo de São Domingos. O esparguete estava azedo. Ainda tentei descolar a carne picada da massa, mas sem sucesso. Já tinha comido alguma comida azeda pois a fome não tem paladar, mas naquele dia aquela refeição não se podia comer. A fome já se misturava com o meu sentimento de frustração. Sentia um buraco no estômago semelhante ao que tinha na alma.

Descalcei-me. Olhei para os meus pés, pois não tinha meias. Nos últimos meses sempre que olhava para eles lembrava-me de uma namorada que tive no passado, a Eduarda. Ela dizia-me que eu tinha os meus pés bonitos. Havias de os ver agora Eduarda. Não dirias isso de certeza. Inchados, com as unhas mal cortadas sempre à pressa com um pequeno corta unhas de lâminas já cegas que eu tinha na mochila. Cheios de marcas e arranhões, calos e com pequenas rachas nos calcanhares….

Tinha um sinal muito feio, parecido com uma verruga no calcanhar direito que me doía e por vezes sangrava. Tinha muito mau aspeto. Uma mulher que passou em frente no passeio olhou-me de soslaio. Calcei-me novamente.

A Avenida Almirante Reis estava irreconhecível. Era dia de semana, mas nem num domingo qualquer eu me lembrava de ter visto as ruas tão vazias, tão isentas de gente. Mas a minha preocupação naquele momento era o cabelo e a barba.

Pedi um cigarro a um homem que tinha acabado de sair da tabacaria em frente, abrindo o maço de tabaco. Ele negou dizendo-me: “Isto ‘tá difícil… ‘tá difícil…” Olhei para ele afastando-se e pensei: “’Tá? não me digas…”

Ultimamente dava por mim sendo genuinamente irónico comigo próprio, apesar da dor. Lembrei-me do Zé. Era isto que ele era diariamente e eu estava a ficar igual. Esta ironia funcionava como escape. Sentia falta do Zé. Sentia falta da vida. Sentia falta de mim próprio. Sentia falta de tudo.

Levantei-me e vejo um homem caminhando no passeio a guardar trocos na carteira. Já era automático o meu refrão: “Pode dar-me uma ajuda, por favor?” Ele respondeu sem parar de caminhar, zangado e afastando-se de mim como se eu fosse uma praga: “Anda uma pandemia no ar e você anda a pedir moedas às pessoas?” “Tem razão, desculpe.” – respondi alto para ele ouvir. E pensei para comigo: “Peço desculpa por respirar.” Ele olha para trás e grita: “Arranje uma máscara!”

Uma máscara? Ah sim, algumas pessoas agora andavam nas ruas de máscara.

Já tinha ouvido de outro sem abrigo em Santa Apolónia que o carro do NPISA fornecia máscaras aos sem abrigo. Tinha de arranjar uma. Mas a minha preocupação continuava a ser o meu aspeto. A barba, o cabelo, a roupa…

Continuei a subir a Avenida, passando os Anjos e aproximando-me da Praça do Chile, começando a recordar os bons momentos que tinha passado naquela zona anos atrás quando vivia na Penha de França. E de repente lembrei-me do Sr. António. O Sr. António tinha sido o meu barbeiro durante os últimos dois, três anos em que vivi na Penha. Tinha a sua barbearia numa transversal à Rua Morais Soares. Ainda lá estaria?

Pensei que noutro contexto e com outra apresentação, poderia com certeza pedir-lhe um corte de cabelo fiado. Mas pensei logo de seguida: é este o meu contexto e é esta a minha apresentação.

Lembrei-me do Zé. E lembrei-me das suas palavras uma vez: “Jorge, para andares aqui tens de perder as peneiras.” Já as perdi Zé. Já perdi as peneiras há que tempos. Perderam-se de mãos dadas com a minha realidade.

Faltavam sensivelmente trinta minutos para as dezanove horas quando, timidamente, cheguei perto da barbearia. Fiquei a observar do outro lado da rua. A barbearia estava vazia, mas vislumbrei o Sr. António sentado a ler o jornal, como era costume quando não tinha clientes. Aposto que estava a ler A Bola! Não pude deixar de sorrir.

O Sr. António era um fervoroso sportinguista. E eu como um bom benfiquista “fazia a vida dele um inferno” enquanto estava sentado na cadeira a cortar o cabelo. Ganhei coragem e atravessei a rua. Devagar aproximei-me da montra. Não fui capaz de entrar. Ele levantou os olhos do jornal, que era efetivamente a Bola, e olhou na minha direção com um ar inquiridor. Vi na cara dele que não me reconhecia, mas alguns segundos depois o seu olhar mudou. Eu vi que ele me reconheceu, mas ficou sentado com a mesma expressão até segundos depois pousar os olhos de novo no jornal. Fiquei a olhar para ele paralisado, sem reação.

Senti novamente vergonha como já não sentia há muito tempo e afastei-me caminhando em direção à Rua Morais Soares.

Estava quase a chegar à esquina quando ouço a voz do Sr. António gritando de longe: “Sr. Jorge?” Olhei para trás e vejo-o à porta da barbearia olhando para mim com o ar simpático e brejeiro que lhe era característico. Caminhei de novo em direção da barbearia e quando cheguei junto dele, dei por mim a cumprimentá-lo da mesma forma que sempre cumprimentei. Como se o tempo não tivesse passado e nada denunciasse a minha realidade.

Eu diria que ele estava chocado a olhar para mim até que me perguntou com um tom de voz muito baixo que eu desconhecia nele: “O que lhe aconteceu?” Eu olhei para ele e respondi secamente: “Falta de sorte.” Não me ocorreu mais nada para responder. A nossa relação, como qualquer cliente tem com o seu barbeiro, não era pessoal. Não sabíamos nada da vida um do outro.

Ele recompôs-se e perguntou com o seu tom de voz habitual: “E deseja alguma coisa, Sr. Jorge?” Eu disse que sim. “Sr. António, estou sem dinheiro. Pode cortar-me o cabelo e aparar-me a barba, que eu pago-lhe quando puder?” Ele mandou-me entrar de imediato e fechou a porta no trinco fechando o estabelecimento, apagando a luz da montra e indicando-me como de costume a cadeira com o seu jeito profissional que eu lhe conhecia, dizendo: “Com esta pandemia a clientela não é muita. O Sr. Jorge vai ser a minha última tosquia hoje.”

Tirei a mochila das costas, despi o meu blusão velho e rasgado e pendurei-o no cabide onde anos atrás pendurava os meus bons blusões e casacos. A barbearia estava praticamente na mesma. Sentei-me e disse sem olhar para ele: “Esteja descansado Sr. António. Eu não cheiro mal.”

Ele olhou para mim pelo espelho e disse divertido: “Oh e o Sr. Jorge pensa que seria o primeiro? Olhe o marido da Belinha ontem esteve aqui sentado e cheirava a mijo que tresandava!”. Rimos ambos à gargalhada. Eu lembrava-me do marido da Belinha.

Como habitualmente, colocou-me a capa e a gola de barbeiro com o seu jeito solícito e profissional e pelo espelho perguntou: “O costume, Sr. Jorge?” Eu perguntei-lhe se ele ainda se lembrava. Ele comentou brincando que os barbeiros têm memória de elefante, mas que desta vez tinha que se aplicar mais, pois nunca me tinha visto com semelhante “guedelha”. Olhou para mim com um olhar clínico e perguntou: “A barba é para cortar ou para fazer crochet?” Rimos de novo.

Durante os trinta minutos que se seguiram o tempo pareceu voltar atrás. Enquanto me cortava o cabelo, tivemos as nossas habituais conversas: a sempre inevitável “guerra” entre lagarto e lampião, o costumeiro “corte na casaca” nos políticos que nos governam, os últimos mexericos sobre a vizinhança, a “boazona” do segundo andar que cada vez estava mais “boazona” e, claro está, sem esquecer a covid-19.

Como é normal a cortar o cabelo, eu de vez em quando fechava os olhos e quando os abria, via que ele estava incomodado e apreensivo, mas sem querer transparecer. Por isso continuava a conversar comigo como se eu tivesse estado ali a cortar o cabelo no mês passado. E eu conversava com ele. Tinha terminado o corte de cabelo e, rodeando-me com o pequeno espelho na mão, fez a pergunta final: “Está bom assim, Sr. Jorge?” Eu disse que estava cinco estrelas e passou à barba.

Eu olhava para o espelho e aquele momento estava a ser mágico. Eu não via a minha roupa devido à capa de barbeiro e olhando o reflexo do meu rosto, via surgir o Jorge de novo!

Cabelo bem cortado, bem penteado e a barba a ser aparada como eu gostava, à segunda lâmina da máquina. Acabou, enfim. Depois de me tirar a gola e a capa, não se esqueceu de me escovar os cabelos da roupa, como é habitual. E vi nos seus olhos um enorme desconforto ao olhar para a minha roupa.

Levantei-me, vesti o blusão e coloquei a mochila nas costas. Dirigi-me ao Sr. António agradecendo e dizendo que lhe pagaria assim que tivesse dinheiro. Ele ficou uns segundos a olhar para mim e perguntou-me se eu precisava de mais alguma coisa. Fiquei sem saber o que responder. Mas ele adiantou-se à resposta, perdendo a postura profissional que tinha tido até então.

“Claro que precisa! Precisa de roupa, caralho!” Fiquei sem saber o que responder, até porque a resposta seria óbvia. Apenas acenei com a cabeça afirmativamente. “Venha comigo Sr. Jorge.” – disse ele rapidamente.

Caros leitores, a crónica já vai longa. E a direção do jornal pediu-me para escrever crónicas e não um livro e é meu desejo que o que escrevo seja lido sem aborrecer ninguém. Por isso, dou aqui um pequeno “salto” para finalizar a crónica deste mês e poupar-vos a pormenores.

Nessa noite, por volta das 21 horas, este vosso narrador descia a Avenida Almirante Reis decentemente vestido em direção a um vão de escada que tinha descoberto na Rua da Madalena para passar a noite. A roupa já era usada, mas era digna de ser vestida. Roupa oferecida pela irmã do Sr. António. Roupa pertencente ao seu sobrinho que, ao que parecia, já não a vestia porque estaria mais gordo. Mas que bem que eu me sentia descendo a Avenida!

Cabelo cortado, penteado e barba aparada. Um quentinho e agradável moletom com capuz, um par de jeans justinhos e confortáveis. Um casaco castanho já usado também, mas decente! Tinha calçado meias, vestido uns boxers e tinha na mochila mais dois ou três pares de cada junto com mais um moletom, duas t-shirts, uma camisa de flanela e alguma comida que me tinham dado! Tinha inclusive uns Sketchers calçados, confortáveis e bonitos.

Nunca mais vi o Sr. António. Até porque ele me disse nessa noite que iria deixar a barbearia porque também tinha os seus problemas e que me estava a ajudar apenas no que podia. Há pouco tempo fui a casa da irmã, a D. Celeste, onde me vesti e me calcei nessa noite com o que me ofereceram, mas já não residia lá. O Sr. António avisou-me dessa mudança.

Quero apenas terminar esta crónica dizendo que essa noite readquiri a esperança. Nessa noite voltei a acreditar na vida e no meu semelhante.

É tão fácil sentir empatia, não acham? Não estou a dizer com isto que eu, como indivíduo, mereça empatia ou generosidade de alguém. O que estou a dizer é em nome de todos os sem abrigo. Aqueles que já foram e já não são, aqueles que ainda o são e ainda sofrem nas ruas e aqueles que eventualmente ainda cairão neste flagelo que ninguém merece, esperando eu que a nossa sociedade ponha um ponto final nesta condição de viver sem abrigo. É essa a empatia de que falo. Empatia social.

Essa empatia significa nós não permitirmos que outro ser humano viva onde nós não conseguimos viver. Não permitirmos que outro ser humano sobreviva de uma forma indigna que nós não toleramos na nossa vida. Seja quem for. Até pode ser um criminoso, porque até as prisões reúnem condições que os sem abrigo não têm nas ruas.

Quanto ao meu barbeiro, o Sr. António…

Quem sabe se ele não vai ler esta crónica aqui na Mensagem de Lisboa, esteja onde estiver? Sr. António, muito obrigado pela sua empatia e generosidade. Muito obrigado por me ter recebido na sua casa no estado em que me encontrou sem ter beliscado a minha dignidade como homem. Muito obrigado por me ter recebido como um ser humano num mundo onde me tratavam como um cão! Muito obrigado por nessa noite me devolver a esperança e a fé no ser humano.

Leia aqui mais crónicas de Jorge Costa.


Jorge Costa

Tem 54 anos de idade e nasceu em Lisboa, cidade onde sempre viveu. Na Mensagem, partilha a sua experiência da vivência nas ruas, sem teto para viver e para dormir. Foi sem abrigo durante 8 meses, até maio do ano passado. Escreve sobre esta “difícil experiência, indigna e quase desumana”.

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7 Comentários

  1. Só me ocorre dizer obrigado…
    Obrigado pelo murro no estômago…
    Obrigado pela lágrima no canto do olho …
    Obrigado pela esperança …
    Pela força !
    Um bem haja.

  2. Fantástica crónica, muito bem escrita, que deixa uma lágrima e um sentimento de gratidão pela vida que temos e uma tristeza por quem não a tem. Obrigada pela partilha, um bem haja!

  3. Obrigada pela partilha, de uma forma tão genuína e humana. Que a vida lhe sorria e que esta crónica possa mexer no coração daqueles que o têm adormecido por vezes.

  4. As suas crónicas nunca são maçadoras, nem compridas demais. A viagem de comboio em que as leio é que é demasiado curta!
    Muito obrigado, e acredite que, graças aos seus escritos, estou em processo para mudar a minha atitude face aos sem-abrigo.

  5. As suas palavras dão me esperança.
    Já não estou assustada. Venha de lá o que vier. Vivo um dia de cada vez.
    Obrigada Jorge.

  6. Caríssimo Sr. Jorge,
    Que grande descoberta, essas suas crônicas. Precisava tanto de algo real, de palavras vivenciadas e não fantasiadas. Bravos!

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