Como vizinhos a tratar de um jardim público, um grupo de lisboetas guardou estes dias para cultivar um momento da nossa cidade. Esse momento, lisboeta e magnífico, de há 80 anos, durou então cinco semanas, de 13 de setembro a 20 de outubro de 1941.

Do momento, pouco ou quase nada se sabe. Quem? Jean Moulin, o herói francês. Quando? Aquelas cinco semanas. Onde? Lisboa.

Durante uma quinzena – um ciclo de cinema, uma exposição, uma homenagem no miradouro de S. Pedro de Alcântara, um catálogo sábio, um debate (com Pacheco Pereira e António Araújo, sexta, 8, na Casa de Imprensa), e o lançamento de um livrinho lindo (texto de João Paulo Cotrim, ilustrações de Tiago Albuquerque) que encerra a iniciativa, também na Casa da Imprensa, no sábado, dia 9.

Talvez pouco mais se venha a saber sobre aquele homem, aqui, naquelas datas. Como aliás seria de esperar. Ele, naqueles dias, era um clandestino experimentado, de passaporte falso, com óculos de aros redondos de que não precisava, Lisboa era passagem e o mundo vivia uma sombra terrível. Moulin tinha uma ideia grandiosa e para a levar a cabo a sua obrigação era esconder-se. Foi o que fez em Lisboa.

Jean Moulin

Jean Moulin foi um dos grandes protagonistas do século passado. Resgatou a sua França num dos episódios mais humilhante dela. Foi o chefe da Resistência francesa no interior, quando os nazis ocuparam o seu país.

A outra personagem desta crónica foi, breve mas decisiva, a nossa cidade. Foi aqui que Moulin decidiu o que tinha de ser decidido para que a França não fosse libertada de fora e como mera vítima. Mais tarde, quando os Aliados entraram em Paris, em 1944, já o país tinha soldados voluntários e eficazes. De partisans, homens e mulheres que tinham um lado determinado, eficaz e unido. A redenção aconteceu porque Jean Moulin os dirigiu.

O cartaz da iniciativa, em Lisboa

Foi em Lisboa que Jean Moulin decidiu que assim tinha de ser. É isso que agora se celebra.

A homenagem do punhado de lisboetas gratos – o editor João Paulo Cotrim, o político João Soares, o designer gráfico Jorge Silva, o jornalista José Manuel Saraiva e a historiadora Manuela Rêgo – é como o canteiro de sardinheiras que os vizinhos plantaram e regam numas escadinhas de Lisboa. Ou a nesga de Tejo que, aqui e ali, rompe de surpresa.

Jean Moulin em Lisboa, há 80 anos, alimenta-nos e ilumina-nos. Ainda bem que nos é contado.

Quando ele chegou a Portugal já trazia uma marca que parecia de navalha no pescoço. Em 1940, depois de invadirem a França, os nazis quiseram que Jean Moulin, préfet (governador civil) em Chartes, passasse para o lado deles. Recusou. Bateram-lhe e ele próprio, com um vidro, cortou a garganta para não trair, caso fraquejasse. Foi salvo in extremis e os alemães só lhe tiraram o cargo, não lhe entenderam a fibra.

O chefe militar da I Guerra Mundial, o velho marechal Pétain, aceitara subjugar-se aos nazis. A França estava ocupada e desmoralizada. No verão de 1940, Charles de Gaulle refugiou-se em Londres, de onde, pela rádio BBC, galgou a Mancha, lançando um apelo à resistência.

No interior, pequenos grupos, com poucas armas, sem estratégia, nem unidade – herança da violência política da década de 1930 – “não eram senão uma desordem corajosa”, dirá Malraux, o grande escritor de A Condição Humana. Por cada alemão abatido, a retaliação arrasava aldeias inteiras.

O ex-alto funcionário Jean Moulin passou um ano a saber, clandestinamente, quem lutava e onde, os patriotas comunistas, radicais e socialistas, monárquicos, católicos e até os da extrema-direita que não suportaram a humilhação de ver Hitler a olhar Paris da praça do Trocadero.

Depois, ele foi procurar quem poderia ajudar essas vontades dispersas.

As possíveis soluções não abundavam. No último grande país europeu ainda não ocupado por Berlim, os ingleses demonstravam uma resiliência admirável e tinham a vantagem de serem quase vizinhos. Os americanos, na grande guerra anterior, chegaram tarde, mas ditaram o vencedor. Em 1940/41, já era outra vez tarde e não se sabia ainda se eles queriam meter-se, de novo, numa guerra longínqua…

E havia ainda uma questão interna para os franceses do interior: seria De Gaulle o catalisador certo para unir os franceses? Ou os combatentes podiam prescindir desse apoio político e tratar diretamente com os fornecedores? O que a Resistência em França queria era simples, armas e dinheiro, ou precisavam também de um líder político?

A última Carte d’Identité francesa legal de Jean Moulin, em 1939.

Quando, no fim do verão de 1941, Moulin saiu de França, para regressar no mais breve tempo, estava ciente dessas necessidades – encontrar um país que desse armas e dinheiro, e apostar numa liderança política. Mas ainda tinha dúvidas sobre quem as resolveria. A sua estada em Lisboa iria transformar-se num destino. Não desses que os sinais de estrada indicam, mas dos que marcam os homens. No princípio do outono, despediu-se de Lisboa já sabendo o que queria.

Depois de Lisboa, Jean Moulin vai aceitar De Gaulle e, aceitado por De Gaulle,  tornar-se aquele que uniu a Resistência francesa, o comandante do exército da sombra, no maquis e nas cidades. Traído, será preso pela Gestapo, em Lyon, torturado até à morte, no verão de 1943, nem dois anos tinham passado sobre a sua estada por cá. Morto, torturado e sem falar, ele vai continuar a lutar, como as lendas que se acordam com a História. 

“ENTRA AQUI, JEAN MOULIN!”

Antes dos pormenores lisboetas possíveis, detenhamo-nos, já, na homenagem que consagrou o seu papel histórico: a cerimónia no Panteão de Paris, dezembro de 1964, com as cinzas de Jean Moulin (presumidas cinzas, pois nunca se confirmou a autenticidade).

O escritor André Malraux, então ministro da Cultura e também ele combatente pela libertação de França, inclinou-se sobre o púlpito e falou. Por trás dele, o féretro estava coberto por um imenso pano negro que dançava e ressoava ao sabor do vento do inverno – e esse foi o pano de fundo das palavras.

Na praça, uma multidão enregelada e solene. Na tribuna, entre tantos heróis da Resistência, povo que continuou desconhecido ou chegou a ministro, e De Gaulle, imenso, com o literal a disputar o mito. “Entra aqui, Jean Moulin…”, ordenou Malraux, sob as escadarias do Panthéon.

  

O discurso é uma peça literária grandiosa. Mesmo não conhecendo a língua, fica-se magnetizado pelo tom vibrante, sincopado e teatral de Malraux. Conhecendo as palavras, sabemos ao que a “grandeur” da língua francesa pode chegar.

Malraux fala à entrada do Panthéon, em dezembro de 1964, ao receber as cinzas de Jean Moulin. O discurso é uma peça literária grandiosa. Foto: Franceculture

O discurso descreveu os perigos a que se propôs o herói: “É o tempo das caves e dos gritos dos torturados com vozes de crianças…” E evocou o seu maior conseguimento: criar a unidade como convicção, porque “todos comprometidos com a mesma libertação ou com a mesma prisão.” 

Com Jean Moulin preso pela Gestapo, clama Malraux,  “o destino da Resistência fica suspenso pela coragem deste homem”… Torturado, “sem jamais trair um só segredo, ele que os conhecia todos”… A voz do discurso ora subia à cúpula do monumento da colina de Santa Genoveva, ora assentava nas pedras da praça – sempre grave.  A condição humana, tão bem descrita…

O longo discurso do gaullista Malraux, mais de 20 minutos, acabou numa frase exaltando os jovens para que a França se eternizasse com o exemplo de Moulin: “Hoje, juventude, pudesses tu pensar neste homem de modo a levar as tuas mãos à desafortunada face informe no seu último dia, aos seus lábios que não falaram; naquele dia, ela era a cara da França…”

De facto, quatro anos depois, em 1968, a juventude do Maio francês reclamou-se do herói. O maquis era um dos símbolos do levantamento. E não a despropósito: a palavra significando as matas ralas da Provença, onde mais se notabilizaram os maquisards durante a Resistência, soava bem aos estudantes, adeptos da causa do povo.

Malraux fez uma alusão à inépcia dos alemães, cuja soberba os levou a desdenhar do maquis porque “a Gestapo não acredita senão nas árvores grandes”. Por ironia, ele próprio, o grande escritor gaullista, irá ceder ao fascínio das grandes árvores ao titular o seu derradeiro livro político, Quando os Robles Se Abatem…, um lamento pela renúncia do Presidente De Gaulle depois do Maio 68.

Mas André Malraux estava certo. A França dos anos 40 foi feita por ambos, a unidade do modesto maquis e a das antigas e grandes árvores gaulesas. Naquele dia do Panthéon, Malraux foi Victor Hugo. 

O discurso do Panthéon complementava as novelas de Servidão e Grandeza da França – Cenas dos Anos Terríveis, de outro escritor, o poeta comunista Louis Aragon, publicadas logo a seguir à Libération, em 1945. Eis a esquerda e a direita, unas, graças a um ato redentor cometido nos dias mais sombrios da sua História.

Sem a Resistência, a França não se teria reencontrado com o seu passado e não teria futuro.

André Malraux calou-se, juntou as folhas dispersas do discurso, ah, como a França raramente deveu tanto à sua língua!, e o silêncio abateu-se sobre a praça gélida. Depois, ouviu-se Le Chant des Partisans.

O hino da Resistência tem música de Anna Marly, uma cantora francesa de origem russa, e letra de Joseph Kessel, jornalista, e Maurice Druon, futuro membro da Academia. Os dois das palavras juntaram-se a De Gaulle logo em 1940, vindos de Lisboa. E ela deixara Lisboa numa noite de março de 1941 e rumou a Londres.

Anna Marly, francesa de origem russa, também passou por Lisboa, para atingir Londres. Trabalhava na cantina das Forças Francesas Livres e seria a autora da música de Le Chant des Partisans, o hino da Resistência

Esta história está cheia de pontos comuns e Lisboa é um dos seus elos recorrentes.

Entre tantos, também Antoine de Saint-Exupéry passou por aqui em dezembro de 1940. Escreveu (em Carta a Um Refém, e reféns eram todos na Europa quase toda ocupada pelos nazis): “Lisboa pareceu-me uma espécie de paraíso claro e triste”. Ele foi para a América e graças a isso herdamos o encantamento de O Principezinho.

Saint-Exupéry, o aviador que tantas vezes sobrevoara os picos dos Andes à manete do seu teco-teco, teve um papel menor na Resistência. Não que lhe faltasse coragem. Não teve foi discernimento para entender que o dever e a glória passavam por Londres. Só nas vésperas da libertação de Paris, o experimentado piloto partiu para o combate e desapareceu no Mediterrâneo, num mistério, em julho de 1944.

UM HOMEM NO PORTO DE ABRIGO

Lisboa foi, pois, pedra de um caminho para muitos franceses que recusavam a ocupação do seu país. Mas venham, daí, conhecer o marco principal desse encontro, o mês e uma semana de 1941 com Jean Moulin na nossa cidade. 

Ele chegou a Lisboa com um passaporte francês em nome de “Joseph Jean Mercier”. O passaporte era falso, com carimbo de Grasse, cidadezinha no sul de França, mas tinha um visto autêntico. O cônsul americano em Marselha, Hugh Fullerton, dera-lhe um visto de “regresso” à Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde o tal “Mercier” seria professor.

Lisboa, pois, a pretexto de ir para a América…

O documento inglês, passado em outubro de 1941, em Londres, a Joseph Mercier, identidade falsa do passaporte com que entrou em Portugal. Como último endereço: “Lisbon”. Foto: Arquivo Jean Moulin

Moulin atravessou a fronteira franco-espanhola em Port-Bou. Poucos meses antes, fora ali que o filósofo judeu alemão Walter Benjamin se suicidou, ao saber que não o deixavam entrar por falta de documentos.

Moulin dormiu em Barcelona e em Madrid. Ei-lo no comboio até à espanhola Valência de Alcântara e, pelo Ramal de Cáceres, a atravessar a fronteira em Marvão, no comboio até ao Rossio. Pormenores entediantes, com esta nota, porém: o passaporte falso funcionava.

No Registo de Vistos em Passaportes, livro 22, guardado da Torre do Tombo, lá está o nosso “Joseph Mercier”. É o registo “20623” com data de “16 de setembro”, do francês de 41 anos (duas informações verdadeiras), com destino “América” – escreveu à mão o funcionário do Governo Civil de Lisboa, num cursivo difícil de ler.

Meses antes, ainda os registos dos estrangeiros apontavam sempre a idade e a fronteira de entrada. Mas para poupar no trabalho e nas páginas, no Portugal inundado de fugitivos, nem sempre aqueles dados apareciam. 16 de setembro foi terça-feira, no domingo não havia registos e os assentos no livro só se faziam posteriormente. E talvez por isso as biografias de Jean Moulin não são conclusivas, dão-no chegado a Portugal a 12 ou a 13 de setembro.

Certo é que, a 7 do mês seguinte, Joseph Mercier (tiremos-lhe as aspas, porque o nome já merece uma identidade própria) ainda estava em Lisboa. Foi  ao Governo Civil pagar 10 escudos para renovar o visto de estada. Há documento a comprovar, da PVDE, uma autoridade que ainda não era a PIDE, mas que iria mudar de sigla quando ela suspeitou que lhe chamavam, à socapa, “pevide”.

Ao fim de três semanas, a contactar americanos e ingleses, para decidir qual o melhor aliado, Joseph Mercier (Jean Moulin) foi à PIDE prorrogar visto. Foto: Arquivo Jean Moulin

Os pormenores podem ser importantes e não só ridículos. Vale a pena voltar às páginas daquele livro de Registo dos Vistos, o da entrada inicial em Portugal.

Por vezes a mesma nacionalidade aparecia sucessiva, sobretudo em grupos de alemães, cujo destino era quase sempre “América”, com o sinal de idem repetindo-se em várias linhas. Mas não, não era gramática abreviada, era indício de uma tragédia.

Muitos na Lisboa de 1941, aqueles alemães tinham demasiadas vezes nomes próprios como Isaac ou Ruth, e os de família terminavam em “stein” e “midt”… Judeus da Europa Central, fugindo. Procurando desesperadamente um destino. Qualquer, de preferência, longe.  

O nome seguinte ao do francês Joseph Mercier não é um qualquer. Também de um francês, o registo com número “20624” é de Henri Breuil, de 64 anos, de passagem para a África do Sul. Conhecido como abade Breuil, era arqueólogo e etnólogo, sábio de renome internacional pelos seus estudos em grutas pré-históricas. Era também um herói, tinha escrito uma carta a Pétain por causa da perseguição aos judeus e teve de fugir.

Portugal conhecia-o por trabalhos conjuntos com Leite de Vasconcelos, que acabara de falecer, e a Faculdade de Letras de Lisboa convidou o abade Breuil ficar por cá. Ficou ano e meio, antes de ceder ao canto de sirene das grutas sul-africanas. Entretanto, a coincidência de dois heróis em duas linhas. A de cima, com um homem que ia fazer História, a de baixo, com um abade que explicava a pré-História. Juntos, no mesmo dia, no acaso de milhares de nomes de um calhamaço burocrático de um país longe do país dos protagonistas.  

LONDRES OU AMÉRICA? A BBC, CLARO!

Apesar do que ficou assentado no registo, “América”, monsieur Mercier ainda não havia decidido o seu destino.

Ler os jornais locais é sempre avisado num político clandestino, estrangeiro e de passagem. O Diário de Lisboa, de 12 de setembro, anunciava que o seu repórter Félix Correia lançava o livro A Guerra Vai Acabar. Com um capítulo intitulado A Europa Contra a Rússia. Quer dizer, tudo corria de feição aos inimigos de Mercier, os alemães nazis.

O francês nem precisava de saber que o jornalista português era fascista e que cobrira a Guerra Civil espanhola elogiando Franco. Nem que Correia era também o recente diretor da revista A Esfera, paga pela embaixada nazi, em Lisboa.

Os êxitos dos alemães na frente leste, narrados no DL, naquela edição e nas seguintes, confirmavam a Mercier os ecos que ele trazia de Paris. As pequenas notícias sobre “desordens” em França – que no vespertino português eram sempre cometidas por “grupos comunistas” –, o francês sabia que eram, mesmo, irrisórias sabotagens e a custo de represálias tremendas.

Ainda do DL, um jornal que comparado com a maioria até nem era dos mais germanófilos, um título desanimador na edição de 13 de setembro: “Japão e Estados Unidos chegam a acordo para regular as suas relações.”

Citam-se aqui essas edições, para sublinhar como o recém-chegado recebeu, de chofre, notícias que só podiam desiludi-lo da esperança de a América vir a ser um aliado próximo.

O ataque japonês a Pearl Harbour, no Havai, em dezembro, teria talvez dado outra perspetiva. Mas estava-se em setembro e Jean Moulin precisava de se decidir com urgência…

Quem sabe se a decisão não lhe surgiu nos anúncios dos jornais de Lisboa? A página 3 do DL publicava quase todos os dias um grande anúncio da BBC, “A voz de Londres fala e o mundo acredita”. O anúncio descrevia os horários dos noticiários e a frequência das ondas curtas em que era transmitida.

O francês clandestino conhecia a importância da propaganda, pois ele fora um emocionado ouvinte do apelo de De Gaulle, no ano anterior. Na estada em Lisboa ele viu o semanário ilustrado London Calling, da BBC, e se calhar até o comprou, na livraria Bertrand, na rua Garrett, por 1$40 (mais barato que A Esfera, que custava 1$50 e também se fazia anunciar nos jornais).

Mas, em Lisboa, Joseph Mercier não ouvia a BBC, a emissão era em português e ele nem aparelho de rádio tinha para a sintonizar.

No já citado discurso do Panthéon, iria ser dito sobre os tempos da Resistência, quando esta começou a funcionar com eficácia: “É o tempo em que no campo interrogávamos o ladrar dos cães no fundo da noite.” E a litania insistia: “O tempo em que os paraquedas coloridos carregados de armas e de cigarros caíam do céu à luz das clareiras ou da meseta…” 

Aquelas frases, Jean Moulin nunca iria conhecer.

Sendo um homem sensível, encantador de mulheres e pintor de talento – apreciaria o lirismo de Malraux. Mas, sobretudo, o solitário que demandou Lisboa, focado em resolver a tragédia do seu país, leria naquelas palavras um plano de ação. A BBC podia ser a peça fundamental para o que ele se propunha, quando voltasse a França.

Se “no fundo da noite” se estava atento ao ladrar dos cães e se dos céus caíam paraquedas, era porque de um lugar longínquo, de forma planeada, se tinham enviado aviões e nas clareiras haveria gente alumiando fogos para balizar o lançamento dos paraquedas. Isto é, urgia combinar, com quem tinha uma BBC, e fornecia postos recetores e emissores para ações conjuntas.

O dilema com que Jean Moulin chegou à nossa cidade estava resolvido. Londres ou América? A BBC, claro.

Esta existia e com a pujança que a sua popularidade em Lisboa exibia. Já a rádio americana em ondas curtas, a Voz da América, essa, só iria ser criada e ia transmitir a partir do ano seguinte. O ano em curso, 1941, chegaria quase ao fim até os Estados Unidos resolverem entrar em guerra, quando o Japão o atacou.

Mas reparem, entretanto, como a ação determinada por Jean Moulin, a partir de 1942, da qual Malraux fará alusão no discurso do Panthéon, em 1964, têm como ponto comum a participação dos aviões na luta pela Libertação… Na exposição da quinzena que está agora na Casa de Imprensa, em Lisboa, há uma foto num hangar: durante o Front Populaire, governo francês de esquerda entre 1936-38, discursa Pierre Cot, ministro da Ar.

Em 1938, a França enviou aviões para os republicanos espanhóis combaterem os franquistas. Assinalados, à esquerda, André Malraux, de punho no ar, e, à direita, mais discreto, Jean Moulin, chefe de gabinete do ministro do Ar, que discursa.

O governo francês estava a fornecer aviões aos republicanos que combatiam os franquistas. Na foto, de 1938, à esquerda, André Malraux, de punho no ar e cigarro; à direita, mais discreto, o chefe de gabinete do ministro Cot, Jean Moulin. Se eles soubessem que um quarto de século depois, no Panthéon… Não é seguro de Deus esteja nos detalhes, mas a História está, nos detalhes que constroem grandes coincidências.  

A PENSÃO DE TODAS AS COINCIDÊNCIAS

Em Lisboa, Joseph Mercier hospedou-se nos dias iniciais numa pensão manhosa. O jornalista Fernando Sobral e a historiadora da cidade Manuela Rêgo, que fizeram dois belos textos para o catálogo desta quinzena dedicada a Jean Moulin, emprestam à pensão moradas diferentes. Ele, na rua da Padaria, que sobe para a Sé, ela, na rua Nova do Almada, que desce para a Câmara Municipal.

Controvérsia natural porque se segue um homem misterioso. E até útil, para tirarmos lições: que bom que se tenha aberto a caça a Jean Moulin por Lisboa fora! Um dos méritos desta iniciativa, já foi dito aqui, é pôr cidadãos a mostrar a cidade e a destapar os seus maravilhosos mistérios.

O primeiro encontro de Joseph Mercier foi no Terreiro do Paço. Estranhamente, o clandestino dirigiu-se a um gabinete de Ministério. Por indicação, talvez, de um pastor protestante americano que o ajudara a combinar o visto para Nova Iorque com o cônsul americano em Marselha, Mercier encontrou-se com o príncipe Alexander Markinsky. De origem iraniana, este tornara-se americano e alto quadro da Fundação Rockefeller.

Sobral justifica a presença dele no Terreiro do Paço: o gabinete era na Direção-Geral de Saúde e a fundação patrocinava uma escola de enfermagem para o Instituto Português de Oncologia. O príncipe vivia há décadas em Paris, nos últimos anos ajudara gente famosa a encontrar refúgio na América. Sendo amigo de Antoine Saint-Exupéry talvez até tenha sido ele, meses antes, a convencer o aviador a rumar para o Novo Mundo.

Para Jean Moulin, a conversa deve ter sido para acautelar a ida para Nova Iorque que – por decisão de Moulin (e o próprio ainda não sabia) – não iria ser necessária.

Lisboa não seria para Alexander Markinsky um lugar feliz. Nos anos posteriores à II Guerra Mundial, o príncipe virá a Portugal várias vezes. Tentou convencer o Governo português sobre as virtudes da Coca-Cola, da qual era representante na Europa e vice-presidente da empresa.

Nunca conseguiu, a água suja do imperialismo era a única causa comum que Salazar tinha com Moscovo. A primeira Coca-Cola vendida em Portugal, fora das colónias, será só em 1977.

Alheio a essas questões com bolhinhas (mas políticas: quando veio a Libération e um governo com gaullistas e comunistas, um dos primeiros diferendos entre a esquerda e a direita francesas, foi sobre a Coca-Cola em Paris), Moulin teve um problema. Qualquer que fosse a morada da sua primeira pensão lisboeta, esta era demasiado manhosa: roubaram-lhe a bolsa de toilette. Felizmente ele tinha escondido a pasta dentífrica, se também a tivessem levado, o clandestino ficaria sem uma arma importante.

No ano que passara com vida dupla, como Jean Moulin, ex-alto funcionário, e como “Joseph Mercier”, clandestino a tecer contactos com os diversos grupos da Resistência, ele fazia-se acompanhar por Antoinette Sasse, da alta sociedade parisiense.

Ele era organizado, como cabia a um prefeito e chefe de gabinete ministerial que já fora. Tinham-se conhecido num jantar no apartamento do ministro Pierre Cot, e tornaram-se amigos, ou talvez mais. A Ocupação dera-lhes uma causa, nela talvez também por sobrevivência, pois era judia.

Bom, o facto é que Antoinette e Jean se conheceram nesses tempos efervescentes, políticos e também artísticos. Ela era pintora, discípula do pintor fauviste Van Dongen, e ele era um bom aguarelista. Como desenhador de imprensa, com o traço moderno e rápido, tão anos 20 e 30 (que nós reconhecemos, por exemplo, em Stuart de Carvalhais nos jornais de Lisboa), Moulin participou no Salon des Humoristes de Paris, em 1931, e assinava Romanin.

A invasão alemã levou-o a reconstruir-se uma vida paralela. Moulin abriu uma galeria de pintura em Nice, a que chamou Romanin. Uma fachada para expor um modo de vida. Quando se passeava por França para se encontrar com os camaradas, ele levava Antoinette: dava jeito uma mulher bela e bem vestida, quando a polícia procurava façanhudos que não tomavam banho.

Nessas jornadas clandestinas, ele trazia consigo os seus documentos falsos, de Joseph Mercier. E a sua companheira escondia os documentos oficiais dele, de Jean Moulin, num fundo duplo da sua malinha de mão. Quando convinha, ele trocava-os.

Quando chegou a Lisboa, era “Joseph Mercier” para as autoridades portuguesas. Antes de viajar solitário, sem Antoinette para o ajudar na camuflagem e esconder-lhe os documentos legítimos, Moulin microfilmou a sua Carte de Identité verdadeira. Aqueles com quem se devia encontrar no exterior talvez precisassem da prova documental de que ele era Jean Moulin, o prefeito deposto pelos alemães. Essa microfilmagem tinha sido escondida na pasta de dentes…

Felizmente, o tubo não foi roubado. Joseph Mercier foi encontrar-se com os contactos britânicos em Lisboa. Pôde identificar-se, e ele mostrou-se capaz de dar crédito às suas relações com os grupos clandestinos em França. Os ingleses pediram-lhe que fizesse um relatório sobre esses grupos. E deram-lhe o conselho de mudar para outra morada mais segura, a Pensão Alentejana, porta 16, 1º andar, do Largo da Trindade.

No primeiro andar desta porta, a pensão de Jean Moulin, em setembro de 41. À frente, a fachada nobre do Teatro Trindade, onde Josephine Baker atuara, em abril. Ambos, ao serviço da Resistência

A morada de Jean Moulin em Lisboa, setembro de 1941: porta 16, 1º andar, do Largo da Trindade! Viesse ele à janela e tinha, do outro lado da rua (o largo, de facto, é uma rua, e estreita), a fachada mais nobre do Teatro da Trindade, o seu balcão em pedra e frontaria com medalhões de autores clássicos….

Ora, cinco meses antes, de 27 de março a 4 de abril, produzira-se, ali, um espetáculo de Josephine Baker, a Vénus Negra, a rainha do charleston.  

Baker, a célebre dançarina negra americana, ícone dos Anos Loucos de Paris, da dança provocadora e do jazz, já naturalizada francesa, tinha feito escala em Lisboa, dois anos antes, num barco a caminho de tournée em Buenos Aires e Rio de Janeiro.

Nessa altura, ela saiu para um breve passeio em Lisboa e almoçou num restaurante modesto do Bairro Alto. Ainda hoje, o Primavera tem pendurado nos azulejos, uma foto da diva com chapéu de larga aba, sentada à mesa da pequena sala.

Em março de 1939, Josephine Baker, passa por Lisboa, a caminho da América do Sul. No cais de Alcântara, de sobretudo, o jornalista Félix Correia, do Diário de Lisboa. No ano seguinte, ela será agente da Resistência francesa e ele, diretor do jornal A Esfera, pró-Hitler.

Dessa vez, 1939, houve excitação dos jornais portugueses com o fait-divers. Entrevistas, nomeadamente do já referido repórter Félix Correia, no cais de Alcântara, fotografado ao lado de Josephine Baker, de casaco de peles – ambos, jornalista e artista, sem saberem dos lados políticos opostos de cada um deles.

Mais interessante, até espantoso, é o que hoje se sabe sobre a segunda visita dela, em 194,1 e do seu espetáculo no Teatro da Trindade, ali ao lado da pensão que viria a ser de Jean Moulin.

Se Jean Moulin viera a Lisboa, clandestino, em setembro de 41, em nome da Resistência, Josephine Baker viera também, cinco meses antes, famosa e exposta em cartazes, trabalhar para a mesma Resistência.

Desde que a sua nova pátria fora ocupada pelo inimigo, Josephine Baker decidiu não atuar nas casas de espetáculos de França, como o Casino de Paris, onde ela fora vedeta e lançara J’ai Deux Amours (dois amores que eram, dizia a letra da canção, mon pays et Paris). Ao Casino, durante a  Ocupação, os alemães iam aplaudir os artistas colaboradores, Maurice Chevalier, Mistinguett…

Josephine Baker instalou-se em territórios do Norte de África e do Levante, onde havia tropas Aliadas, e cantava em Marraquexe, Cairo, Beirute, Damasco… Daquela vez em Lisboa, 1941, quando quase se encontrou com Jean Moulin, o espetáculo no Teatro da Trindade foi pretexto para vir entregar informações à espionagem inglesa.

 Em Lisboa a entrega dos segredos foi feita em A Barateira, alfarrabista… a 20 metros do teatro da Trindade. E da pensão onde Moulin iria hospedar-se.

Não era bazófia de artista, ela foi condecorada na Libertação, por feitos como resistente. E, agora, 2021, o presidente Macron anunciou que ela entrará no Panthéon, em novembro próximo. Josephine Baker e Jean Moulin, vão estar mesmo juntos, depois do quase encontro há exatos 80 anos, em Lisboa.

Há uma foto de 1946, finda a guerra, na praia de Biarritz, de Antoinette Sasse com o seu antigo mestre, o pintor holandês Kee van Dongen. Falam entre eles, mas com alguém de permeio. Talvez por isso sussurrassem se, por acaso, viesse à baila aquele quase encontro lisboeta, cinco anos antes.

Praia de Biarritz, em 1946, finda a II Guerra Mundial. No grupo à direita, Antoinette Sasse fala com o seu antigo mestre, o pintor holandês Van Dongen (de turbante). Fonte: Lumieres en Arts, France

“Sabes, fui amiga, íntima, companheira de Jean Moulin…”, poderia dizer ela. E ele: “Sabes, fui amante de Josephine Baker, quando ela chegou a Paris, com a sua fantástica Revue Nègre…” E ela poderia falar-lhe do museu que mandaria fazer ao amigo, em Paris. E ele poderia mostrar uma de tantas pinturas que fez à amante.

E mais outra coincidência (talvez): entre os pouquíssimos testemunhos portugueses da passagem lisboeta de Jean Moulin, esta Quinzena que lhe é dedicada desencantou a palavra já antiga de Jorge Reis (1926-2005), escritor vila-franquense que se exilou em Paris, ainda na década de 40.

Ele publicou A Memória Resguardada (ed. Lusophone, Paris, 1990), onde conta que, adolescente, se cruzou com um misterioso e gentil francês num alfarrabista lisboeta, A Barateira, em 1941. A dez passos (dez passos mesmo), da pensão de Jean Moulin e do teatro de Josephine Baker, no cimo do Largo da Trindade, 1941. E o francês quando soube que o jovem se iniciava como francófono, lhe oferecera Pierre et Luce, de Romain Rolland, o grande pacifista da Grande Guerra, a primeira.

O testemunho de Jorge Reis, entre fumos de ficção, recorda, citando o alfarrabista, que o monsieur gentil se chamava “Joseph Mercier” e morava “na pensão da esquina”. Dias depois, desvenda A Memória Resguardada, o jovem vila-franquense volta à capital e quem topa? “Sentado em S. Pedro de Alcântara, de caderno nos joelhos, a desenhar o pano de fundo – da Penha de França até ao mar da Palha”, esse mesmo, monsieur Mercier.

Sempre gentil, o francês assinou um “J.” (Joseph? Jean?) e um “M.” (Mercier? Moulin?” e arrancou a folha: “Tenez, c’est pour vous.” O jovem pegou nela, era para ele.  A folha, disse Jorge Reis no livro, desapareceu na voragem do exílio. O livro de Romain Rolland, ainda o tinha, escreveu Jorge Reis. Mas de papel a História não parece ter guardado, nem uma, nem outro.

Culta, inspirada em O Homem que Matou Liberty Vance, de John Ford – “Quando a lenda se torna realidade, publica-se a lenda”, lembram-se? –  a Quinzena lisboeta e a Casa da Imprensa lembraram-se de uma bela homenagem. Neste 5 de outubro, colocam uma lápide no lugar onde Jean Moulin se tornou lenda: o miradouro de São Pedro de Alcântara.

Fossem sempre os lisboetas atentos à sua Lisboa, alguém teria insistido, há poucas dezenas de anos, quando ainda era possível, em falar mais com Jorge Reis e o alfarrabista de A Barateira. Não tendo sido assim, fica a lápide a acicatar a lenda. É bom, também de lendas são feitas as cidades. E, quem sabe, se um dia aparece o velho livro querido de Romain Rolland ou uma folha de desenho assinada “J.M.”, com, ao fundo a Penha de França e o mar da Palha?… Publique-se.

O mês e uma semana que se deu Jean Moulin a Lisboa acabou, sem uma só foto dele na cidade. Ou será, com este tão belo exemplo dos carolas da Quinzena, vai aparecer uma? O que a História guardou é que ele, aqui, escolheu. Fez o relatório sobre os grupos da Resistência e deu-o aos ingleses. Estes entenderam que tinham ali um companheiro sólido e leal para acabar com maior perigo que a Humanidade conhecera, a besta nazi.

Na manhã de 20 de outubro, levaram Jean Moulin ao Cabo Ruivo e meteram-no no hidrovião para Poole, Inglaterra. O Tejo foi o último de nós a vê-lo. No Reino Unido foi tudo rápido de preparações. Encontro com De Gaulle e confiança recíproca. Sim, um seria o político; sim, o outro seria o organizador dos homens de armas. Só faltava convencer os outros franceses.

Imagem do livro editado agora, em Lisboa. Autor: Tiago Albuquerque

A 1 de janeiro de 1942, Jean Moulin, que com dois saltos aprendera a atirar-se de avião, regressava a França. Tinha conseguido o que queria? Homem de fazer, olhou à volta, sorriu e convenceu-se que sim. Estava num avião, tinha dois companheiros mais e um deles tinha um rádio transmissor e recetor. Fora isso que ele viera buscar. A glória veio por acréscimo, mas ele não deve ter pensado nisso.

O HINO E A CANÇÃO

Em janeiro de 1946, a medalhada e membro da Resistência Anna Marly deu um espetáculo em Lisboa. Isso proporcionou à revista Vida Mundial Ilustrada uma foto de capa um bocadito ridícula

Marly foi a autora musical de Le Chant des Partisans, o hino da Resistência, aquele que a BBC diariamente transmitia nas suas emissões para França, ouvidas na clandestinidade. O assobio que fazia parte da pauta ajudava a perfurar as interferências dos alemães a que as ondas curtas muitas vezes eram sujeitas.  

Le Chant des Partisans encerrou a cerimónia da entrada das cinzas de Jean Moulin no Panthéon, em Paris. E, aí, impressionou a beleza solene da música, própria do hino que aquele canto é. Transmitia o que Jean Moulin, desde o seu regresso a França, passara a ser, uma vontade coletiva, que, depois do seu sacrifício e morte, se fez mito.

O Jean Moulin do Chant des Partisans já é mais do que ele. Amigo, se tu cais, um amigo sai da sombra, em teu lugar… Na talvez melhor das interpretações, a de Yves Montand, tão bela, pronunciada com o francês dos homens do sul e do maquis, em contraponto das botas alemãs soando na pedra dos adros das aldeias mineiras do norte, é solene. É hino, cerimónia.

Mas Anna Marly foi também autora de um outro canto, muito diferente, La Complainte du Partisan. Não pela queixa (complainte) do título, mas porque o sujeito deixa de ser coletivo (des partisans) e passa ser individual, com aquele singular du partisan.

O hino, composto em 1941, passa a ser uma canção, composta em 1943. Um percurso inverso ao de Jean Moulin. Quem nos chegou a Lisboa, em setembro de 1941, é um solitário com o seu drama que pode ser medido por uma foto.

Jean Moulin, com a mãe, no ferry de Boulogne-sur-Mer, França, para Folsktone, Reino Unido. Foto: Direitos Reservados

A 15 de agosto de 1939, o prefeito Jean Moulin embarcou com a mãe, no ferry de Boulogne-sur-Mer para Folkstone. Era a primeira vez que ele atravessava o canal da Mancha e visitava a Inglaterra. Uma viagem de poucas horas, um passeio. No mês seguinte, rebentou a II Guerra Mundial. Ele iria duas vezes mais à Inglaterra, mas essas viagens já seriam uma aventura perigosa, papéis falsos e até saltos de para-quedas.

A vida de Jean Moulin transformara-se num pesadelo de partisan. Como aquele solitário que Lisboa viu chegar. Para uma viagem que podia feita em pouca horas, como em agosto de 39, com mão à volta dos ombros da mãe, uma volta por países, com olhares medidos à volta. A travessia de Espanha, em ruínas da guerra civil e governada por um ditador que ele combatera. “Vocês que sabem o que faço, apaguem a minha passagem”, diz a canção.

E “Mudei cem vezes de nome”… E, ao velho que o guardou no celeiro, “Os alemães levaram preso/ Morreu e não surpreso…” Foi esse o Jean Moulin que Lisboa conheceu, o amador de arte e de vernissages, o aguarelista que não deixou o seu testemunho sobre a luz de Lisboa. O mundano dos cafés de Montparnasse, que não teve lisboetas a contá-lo no dia a dia, não em evocações da lenda.

Esse é o Jean Moulin da queixa do partisan, um lamento pessoalíssimo. Por ironia, quem o cantou melhor foi em outra língua, nem a de Lisboa que o acolheu, nem a da letra inicial da Complainte du Partisan.

Tarde, para uma canção composta em 1943, Leonard Cohen cantou-a em 1969, em inglês e francês, numa prece que, a mim (permitam-me, no fim destas linhas, meter-me nesta história, de onde nunca saí) me pôs a ver Lisboa levar o braço aos ombros do nosso querido herói de passagem meteórica. Mas que ainda cá está.

Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

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11 Comentários

  1. Fico grato a todos, desde o autor, a todos que tenham contribuido para que eu tenha podido ler este excelente texto. Obrigado e bem-hájam!

  2. Excelente texto, excelente investigação, excelentes links que o pontuam na medida certa, excelente escrita. De uma sensibilidade infinita. Mas quem sou eu para escrever o que escrevo como quem classifica? Gostei do texto imensamente, é mais simples dizer assim.

  3. No meio de tantos “esquecimentos” que vão por aí, da Europa (ou da UE?) e seus parlamentos, é bom recordar Jean Moulin e o seu exemplo. E, a propósito da Libertação, porque não lembrar, também, os tão “esquecidos” combatentes de “LA NUEVE”? É que foi a primeira unidade a entrar em Paris. Dos 160 efectivos, 146 eram comunistas e anarquistas espanhóis, que na sua pátria se tinham batido contra o fascismo. O último desses valentes morreu há pouco do Covid. Saudações

  4. Obrigada, por ter enriquecido o meu conhecimento, de certos acontecimentos, que me passaram ao lado, a mim e, talvez, a muita gente.

  5. Um prazer sempre seguro, ler o Ferreira Fernandes. Também como escavador de passados, alimentador de memórias.
    Que privilégio, sempre que nos oferece nova matéria prima degustável com prazer e vagar, não descartável…

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