Quantos dos manjericos de Santo António nascem, de facto, em Lisboa? Numa pequena horta de Benfica, nascem centenas, mesmo por trás de um prédios e num terreno que tem os dias contados.

A entrada faz-se por uma pequena porta que se esconde atrás de carros estacionados, na Estrada de Benfica. Aqui, estende-se um vasto campo de talhões – uns cultivados e outros que entretanto perderam o uso. Este pedaço de terra passa despercebido, escondido entre prédios e vedações. Lá dentro, estamos em Lisboa, mas não parece.

Há cerca de 12 anos que Florinda Madalena cuida de uma horta em Benfica e colhe de tudo – hortícolas, fruta… e manjericos. Alimenta a terra para, depois, se alimentar dela.

“Adoro isto. Para mim, o campo é menos um comprimido que eu tomo.”

Por trás da Estrada de Benfica, e junto às Portas de Benfica, esconde-se um vasto terreno por urbanizar, com várias hortas. É aqui que Florinda Madalena cultiva, há 12 anos. Foto: Margarida Filipe

“Cada época tem as suas coisas”, explica, e nesta altura do ano o bulício aumenta. Os manjericos acrescentam azáfama ao rotineiro trabalho que as restantes espécies da horta requerem. Este ano, o movimento começou a 20 de fevereiro, dia em que semeou. São dias e dias de trabalho incessante e minúcia para que daqui possam sair centenas de manjericos, nascidos e criados em Lisboa e bem mais “redondinhos” do que os que se vendem, caros, aos turistas, conta. Chegou a colher mais de mil.

Este ano, o calor extremo que a primavera trouxe levou os manjericos a florir e desses, conta, nem toda a gente gosta. “Este ano vão ter de gostar. Houve muito calor e eles, coitadinhos, querem água e sol. Isto tem que ser com carinho aqui.”

Um altar na horta e a ajuda do Santo António

Na casinha que serve de apoio à horta, por entre vasos e utensílios, está montado um verdadeiro altar com dois dos seus amores – o Santo António e o Benfica.

“Todos os anos tenho aqui o meu altar do Santo António. Depois trago o São João e, depois, o São Pedro, que é o final.”

Com 62 anos e com um problema na coluna e nas pernas, Florinda acabou por abandonar recentemente parte da área de cultivo que se tem esforçado por manter ao longo dos últimos 12 anos. A horta que criou impressiona e a lista daquilo que aqui cultiva é extensa – tomate, cebola, curgete, feijão verde, milho, brócolos, alho francês, couves, nabiça ou espinafres, que ainda não nasceram. E mais. Por mais dores que tenha, dos manjericos não abdica. E, diz, conta com ajuda divina na sua missão.

“Às vezes digo: ‘vou desistir’; [mas] não consigo”. Todos os anos, os vizinhos fazem a pergunta: há manjericos? “Enquanto puder, vou fazendo, com a ajuda do meu Santo António.”

Tudo o que aqui tem – a imponente horta que criou no meio da cidade, escondida entre filas de prédios e atrás da Estrada de Benfica – Florinda deve-o à mãe e aos ensinamentos que, ao longo de três décadas, lhe transmitiu. Quando pega neste assunto, chora. Hoje, alimenta a sua casa com o que cultiva, mas também a de pessoas amigas e vizinhas. E mantém viva a tradição do manjerico, ícone das Festas de Lisboa.

A herança dos manjericos que cultiva (talvez não por muito mais tempo)

Há cerca de 12 anos, já a morar em Benfica com o marido, vinda do Sabugal, concelho da Guarda, Florinda Madalena começou a alimentar uma horta. E, ao longo dos anos, a força dos braços e a dedicação diária levou toda esta operação de cultivo a crescer.

O cultivo dos manjericos iniciou-se no momento em que a sua horta se expandiu. Para além do talhão municipal que trabalha, começou a cuidar do terreno de um senhor que já ali cultivava manjericos e que adoeceu. Teve que ultrapassar a desconfiança inicial do proprietário. Afinal, ‘o que percebia Florinda da terra?’. “Eu disse: ‘percebo, eu fui criada na terra’”. E assim foi.

A Câmara Municipal de Lisboa, com quem mantém um contrato anual de cedência de terreno rural, é a proprietária de uma das parcelas que aqui cultiva, e Florinda sabe dos planos que o município tem para aqui construir desde 2014.

Vive os dias na horta em contrarrelógio e sabe que, a qualquer momento, pode ser notificada da necessidade de abandonar a terra. Quando essa altura chegar, terá três meses para o fazer. Está em paz com a possibilidade, mas pede: quaisquer que sejam os planos da autarquia, “que deixem umas hortinhas urbanas”. “Para mim, era o ideal.”

“Carinho” e “festinhas” – a receita do bom manjerico

Toda a operação nasce a partir de um recipiente de esferovite – é o viveiro de centenas de manjericos todos os anos e o ponto de partida de um intensivo processo de crescimento. Ao fim de alguns dias, e após as plantas germinarem, Florinda pega na pá e transplanta-as, uma a uma, para outros canteiros. Com todo o cuidado para não danificar as raízes e mantendo intacto o torrão – isto é, a massa de terra que envolve as raízes.

Depois, há outros cuidados que, garante, ajudam no crescimento – faz-lhes festinhas diariamente e fala com cada uma das plantas.

São seres de muita luz e gostam do solo húmido. Por isso, o crescimento requer a dedicação constante de Florinda: os manjericos são regados várias vezes ao dia. Tem uma agenda preenchida, entre aulas de pintura e trabalhos manuais, mas se há compromisso ao qual não falta é à sua horta.

Na semana passada, quando a Mensagem visitou a horta de Florinda, já tinham saído da sua horta 200 manjericos. Seguem para vizinhos, conhecidos, amigos e floristas. Contava, no início da semana passada, que contava já tê-los todos despachados até dia 9 de junho. Até porque, após o Santo António, o interesse nesta planta aromática que é, também, protagonista das Festas de Lisboa, cai a pique.

Mas há um pequeno grupo de manjericos que não pode despachar. “Ficam para a semente.”

Antes de saírem da horta, o vaso é o passo final.

“Tem que se escolher sempre os maiorzinhos e depois fazer aqui umas festinhas, não é?”

Com a pá e “com carinho”, retira a planta de um dos recipientes – em cada, crescem 12 manjericos. O manjerico sai com o seu torrão e depois Florinda coloca-o dentro de um pequeno vaso de barro.

“Aqui, com esta terra que é toda crivada, vou, com jeitinho, aconchegar a terra.” Depois, submerge o vaso em água e aproxima o ouvido, com atenção. “Enquanto fizerem bolhinhas, ele está a precisar de água”, explica. “Ouve-se o barulhinho.”

Passa um pano pelo vaso e está pronto a seguir viagem.



Frederico Raposo

Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.

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