Há mais de 250 anos que a tradição se cumpre em Lisboa: nascem pequenos tronos em devoção a Santo António, personalizados pelos lisboetas, nas montras das lojas, à porta das casas, nas janelas, nas varandas, um pouco por toda a cidade. Chegam a ser centenas todos os anos, por esta altura – numa iniciativa que conta com o apoio do Museu de Santo António (Museu de Lisboa).
A base não é mais do que uma pequena escadaria de madeira, que se parece com um altar, enfeitada sem grandes regras – apenas, claro, que inclua o santo e que o resultado final fique à vista de todos.
Reza a história que esta ideia foi obra das crianças da cidade, que criativamente procuravam uma forma de angariar dinheiro para a reconstrução da Igreja da Santo António, depois do Grande Terramoto de 1755. Mais tarde, puseram os tronos a concurso: qual o mais belo trono de Lisboa?
Já não é assim.

Agora, a devoção é voluntária, livre de desejos de medalhas e tem o apogeu numa exposição de rua, obrigatória nos dias 8 e 9 de junho, que se pode prolongar por todo o mês. Uma iniciativa do Museu de Lisboa – Santo António (Lisboa Cultura) e na qual todos, individualmente ou de forma coletiva, podem participar. Depois, estarão todos à vista na mostra e no livro que é publicado no ano seguinte.
E, este ano, a Mensagem de Lisboa junta-se à tradição: o nosso ilustrador residente Nuno Saraiva e a equipa de jornalistas uniram-se para fazer nascer um trono… peculiar.
Até ao final do mês, a partir do dia 8 de junho, poderá ver e fotografar o trono Mensagem, na montra da loja Casa Pereira da Conceição, no número 102 da Rua Augusta. Nele, verá um Santo António feito pela artesã Julia Côta, e 19 figuras que compõem a imagem da Mensagem, inspirada em Fernando Pessoa (que nasceu no dia do Santo).







Os tronos que ajudaram a recuperar
a igreja no Grande Terramoto
por Álvaro Filho
Na primeira metade do século passado, a autarquia chegou a organizar concursos para eleger o mais belo trono de Lisboa. Mas se, oficialmente, a contenda já não existe, a rivalidade bairrista continua viva entre os moradores que, em junho, voltam a travar a “guerra dos tronos”.
Veja aqui vários tronos:
A tradição, afinal, remonta ao Grande Terramoto de 1755, que poupou muito pouco da Lisboa da época. Entre as estruturas que resistiram ao tremor de terra estava a Igreja de Santo António, que se manteve de pé, é verdade, mas a duras penas.
Para reconstruí-la, a população organizou peditórios e angariação de donativos, e os tronos, montados à porta de casa pelas crianças, tiveram um papel importante na mobilização dos moradores.

“Não há certeza se o dinheiro amealhado foi destinado à reconstrução da igreja ou gasto em guloseimas”, brinca o antropólogo Pedro Teotónio Pereira, desde 2014 coordenador do Museu de Santo António.
A direção da qual faz parte no Museu foi a responsável pelo resgate, por parte da autarquia, da tradição dos Tronos de Santo António. Não no antigo formato de um concurso, mas articulando a participação da sociedade, através da criação de um roteiro urbano, ligando os Tronos e de um registo histórico e fotográfico com a publicação anual de um catálogo em formato de livro.
No novo modelo, a exposição é aberta a quem se interessar e foi acolhida de forma ampla. “Há moradores, claro, mas há também tronos construídos em restaurantes, em lojas e bibliotecas, entre outros”, explica Teotónio Pereira.
Este ano, o Museu de Lisboa – Santo António lançou um livro onde constam os 197 tronos de 22 freguesias participantes em 2023.

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A legenda da segunda imagem contém um anacronismo. O fotógrafo Joshua Benoliel faleceu em 1932, o que invalida a datação da foto (anos 50). De facto, a imagem aparenta ser mais antiga.
Saudações!