Na Sociedade Filarmónica Alunos Esperança, por esta altura, num ano normal, eram reuniões, algazarra, vontade de vencer e a ansiedade em preparar a época mais importante do ano: os santos populares e as marchas. Agora é o silêncio que reina. O colorido resiste no verde das paredes e som, mesmo, apenas do barulho dos carros a passarem lá fora. Francisco Ferreira é o Zé das Marchas – assim é conhecido no Bairro o coordenador da Marcha de Alcântara – e aproveitou uma manhã de folga para vir à coletividade.

É o segundo ano consecutivo que a Marcha de Alcântara não sai à rua. O ano mudou, mas a pandemia ainda é uma realidade. A Câmara acabou de cancelar os arraiais, e as Marchas Populares voltam a não descer a Avenida da Liberdade no 12 de junho. A tradição volta a não se cumprir.

Francisco Ferreira, o coordenador da Marcha de Alcântara: mais um ano sem descer a Avenida Liberdade. Foto: Líbia Florentino.

Mas há mais, além do centro, é toda uma cadeia de vida que está suspensa: os bairros não se revelam, os marchantes não se reúnem, as bifanas e as sardinhas no pão não se comem, a bela cervejinha não sai e a música não invade a cidade. A multidão recolhe-se e não há afetos. Aos lisboetas, só restam as memórias desta celebração interrompida.

É a Sociedade Filarmónica Alunos Esperança (SFAE) que organiza a Marcha Popular de Alcântara. Nesta coletividade, que fez em abril 171 anos, guardam-se os troféus, as medalhas e os elementos de grande valor simbólico que enaltecem a Marcha. São muitos, alguns deles  dispostos em prateleiras bem acima nas paredes, resultado de horas de reuniões, de metros de adereços feitos, de incontáveis figurinos criados, muitas músicas, letras pensadas e cantadas, de intermináveis coreografias dançadas, horas de ensaio, e acima de tudo, do orgulho pelo Bairro que transcende o peito dos marchantes. 

Mário Ferreira, ensaiador e cenógrafo da Marcha: mesmo sem o desfile, o trabalho não pára. Foto: Líbia Florentino.

Em 2014, a Marcha de Alcântara conquistou o prémio de melhor coreografia e figurino, conquistando o segundo lugar, a repetir o feito de 20 anos atrás. Em 2018, o prémio de cenografia foi também para a Marcha de Alcântara e a sua participação em 2019 valeu-lhe o quinto lugar.

Mário Ferreira é o ensaiador e cenógrafo da Marcha de Alcântara. É ele que faz os adereços, pensa nas marcações e  ensaia os marchantes para brilharem e homenagearem Alcântara. Mal acaba uma marcha e Mário começa logo a trabalhar para a do ano seguinte. E assim foi até 2019, quando não houve tempo a perder para se pensar na marcha seguinte, a de 2020. 

A comissão reuniu, as ideias foram postas em cima da mesa e o tema foi escolhido. Em dezembro alguns materiais já estavam comprados. Começou-se a preparar o arco, a escolher tecidos e a desenhar aqueles que mais tarde, pensavam eles, viriam a ser os figurinos. Vontade, espírito e atitude não faltavam.

A letra da canção que embalou o último desfile na Liberdade, em 2019

A reunião de apresentação do tema aos marchantes estava marcada para a véspera do dia em que foi decretado o estado de emergência. Acabou por não se dar. Uma semana depois receberam a comunicação da EGEAC, responsável pela realização das Festas de Lisboa, de que estava tudo suspenso até ordem em contrário.

Também a EGEAC informou que o tema já pensado para o ano de 2020 poderia manter-se para o ano seguinte, ou para quando fosse possível dar continuidade à celebração da tradição. Aquilo que já estava começado devia ser aproveitado. “O arco de 2020 não está acabado. Está a 50%. Mas agora também há mais tempo para o trabalhar”, conta Mário. 

Se o tema vai manter-se? Sim. Se pode ser revelado? Não. Por enquanto está no segredo dos deuses. Não fosse o segredo a alma do negócio. 

Assim como aconteceu em 2020, a tradição também não se repete este ano. Foto: Líbia Florentino

O que é garantido é que 2021 será mais um ano em que as vozes não ficam roucas, os pés com bolhas, os adereços não se completam, não se aprende e ensaia uma nova coreografia, não se estudam as letras e se cantam as músicas até estarem na ponta da língua, se maquilham os rostos e se vestem os corpos pelo amor que têm por Alcântara.

Para minorar o prejuízo económico, a Câmara Municipal de Lisboa decidiu atribuir, a cada entidade organizadora das Marchas, 15.000 euros, valor correspondente a metade do subsídio habitual.

Uma Marcha que se mantém viva

A união e o amor pela Marcha vão muito além da adrenalina vivida e sentida pela Marcha no mês de junho a honrar o Bairro. O almoço de natal dos marchantes é costume e, já em 2020, dias antes da reviravolta que levara a vida, Francisco conta que ainda gozaram o Carnaval em Torres Vedras e foram, juntos, almoçar para a Lourinhã.  A partir daí, as coisas mudaram. Os ajuntamentos foram proibidos e as saudades preencheram os pensamentos dos marchantes. 

Joana Nogueira, marchante da última Marcha. Foto: D.R,

De vez em quando Francisco cruza-se com marchantes no bairro e o tema da conversa não podia ser outro senão o da Marcha: “Quando é que a Marcha volta?”

 No grupo do Facebook, é notória a vontade de manter o espírito dos marchantes e as memórias da Marcha vivas. Os posts são puras manifestações de saudades e desejo de voltarem a reunir-se por amor ao Bairro.   

Em 2020, não houve Marcha, mas foi celebrada na mesma. “A ideia de se fazer a t-shirt foi para que as pessoas da Marcha não se esquecessem dela, uma vez que não ia haver por causa da pandemia. Tem um arco-íris, o símbolo de que vai ficar tudo bem, 2 manjericos, a figura de Santo António e o nome do nosso bairro”, diz Francisco revelando as costas da camisola que dá corpo ao lema desta Marcha: “Apesar dos Bairros não cantarem; Apesar de não haver arraiais; Na noite de Santo António; Alcântara não morre mais”.

O amor à Marcha 

Rosário Balbi foi a costureira responsável pela confeção dos figurinos, desenhados pelo figurinista Renato Godinho, que vestiram a Marcha de Alcântara em 2019. Apesar de “já andar nas Marchas há muitos anos”, só em 2019 é que Rosário vestiu a Marcha do seu bairro de coração. A boa experiência ditou que embarcasse com a Marcha na aventura seguinte, a de 2020.

A trabalhar na máquina de costura, Rosário conta que já tinham começado a fazer os protótipos, a pensar nos materiais e a fazer experiências: “Íamos avançar quando arrebentou esta pandemia malvada.” Não avançou e este ano também não.

Para a costureira, é sempre uma época de trabalho muito intenso, mas dá-lhe muito gozo ver o seu trabalho desfilar no pavilhão Altice Arena e pela Avenida da Liberdade. Este ano há menos noites passadas em claro e mais descanso para as principais ferramentas de trabalho de Rosário, as suas mãos.

No entanto, é com muita nostalgia que recorda o quanto vibra com a intensidade com que todas as pessoas envolvidas vivem a Marcha. Rosário remata: “Vir a Lisboa ver as Marchas é como ir ao Brasil ver o Carnaval.”

Joana Nogueira marcha por Alcântara desde 2016. Filha de pai marchante e sobrinha de marchantes também, Joana chegou a ir ao Pavilhão Carlos Lopes ver as Marchas a atuarem. Descreve a Marcha de Alcântara como bairrismo, espírito de sacrifício, união e camaradagem entre todas as pessoas que envolvem esta equipa. Com o aproximar-se do mês de março, mês de arranque dos preparativos, as saudades apertam.

Joana recorda que o ano passado sentiu muita falta da sua rotina. Dos longos dias e semanas de ensaios, do tempo dedicado ao longo de três meses para Alcântara arrasar e da adrenalina do espetáculo. Agora o tempo sobra-lhe e a pergunta quando chega a casa passou a ser “O que é que vou fazer agora?”.

No ano passado, a equipa da Marcha de Alcântara vestiu as camisolas e no dia 12 de junho desceram a Avenida. É importante não deixar morrer tradições como esta. Assim tentam.“2022 é de Alcântara”, conclui Joana.

A esperança do regresso mantém-se.


*Joana Mendes é estudante da Universidade Nova de Lisboa/FCSH e está a fazer o seu estágio no projeto Correspondente de Bairro. Ribatejana, veio para Lisboa para estudar e matar algumas curiosidades sobe o mundo: era a menina dos porquês. E continua curiosa, para descobrir realidades, conhecer e contar histórias. Este texto foi editado por Álvaro Filho.

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2 Comentários

  1. Adoro as marchas e o Santo António de Lisboa. Belo artigo a descrever a marcha de Alcântara! Parabéns

  2. Adoro as marchas, este artigo tocou-me principalmente por ser de Alcântara e estar muito bem escrito, parabéns Joana Mendes. A minha marcha é linda.

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