Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecem muito distantes um do outro, e uma vez que a língua os une, resolveram estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

Hoje Lisboa vestiu calções para ir à rua. Isto está pior do que Maputo: céu azul, sol em brasa, suor na testa. Falta demasiado tempo para o Inverno. Mas é também dos melhores meses de Lisboa: o fumo das sardinhas assadas começa a pairar por aí, e as colunas já batem com Ruth Marlene, Quim Barreiros e por aí fora. É o mês dos Santos, portanto: os bairros enchem-se disto, e quase consegui levar o Mélio a um arraial, mas depois a vida real contrariou-me a alegria de viver – o cansaço de dois bebés venceu-me todas as noites. Ainda consegui, imagina tu, levar o Mélio ao sushi, com os bebés e a Cátia. Ele foi simpático perante o peixe cru, agora tradicional de Lisboa: “é estranho”.

A tua percepção da morte assemelha-se, aos meus olhos, à de um velho. Durante muito anos, morava a minha avó com o Pedro, sempre que me via, perguntava: “Tem morrido gente em Vizela?” Um sim ou um não nunca dava mais do que um encolher de ombros. E, na infância, sempre que ela dizia o nome de alguém que tinha morrido e eu percebia que não ia ao funeral, ficava chocada. A morte parecia-me uma coisa em grande. Una, indivisível, uma tragédia. Então cumprimentara-o um dia e não ia despedir-se? À medida que os anos passaram, não tive outro remédio senão envelhecer. E até para mim a coisa se banalizou. Entre os Pedrosas, já não temos grande espaço para mortes esperadas ou inesperadas: o mais velho é neste momento o Pedro, a mais nova é a Maria, e só pelos dois minutos que a separam do David. No último funeral a que fomos, claro que eu disse ao Pedro: o próximo és tu. Isso não me agrada nada porque faria de mim a chefe de família. Ele volta e meia goza, do alto do seu trono de Líder Hierárquico e Etário dos Pedrosas, mas desde que não seja eu está tudo bem. Não tem benefícios nenhuns, e só implica o trabalho de ligar ao Natal a uma tia-avó de quem pouco se sabe. É um tipo de trabalho que lhe encaixa melhor.

Ora, depois da tua descrição sobre as cerimónias de velórios na família, não tive como não ver o contraste com a minha. Não entendas o lado Pedrosa como um lado representativo português. Nisto, diferimos muito do lado Martins, que é mais parecido com a minha última crónica no Expresso. Entre os Pedrosas, tudo é pragmatismo. Falei disso com o Mélio, contei-lhe que eu e o meu primo tínhamos tido o segundo telefonema:

– Sim?

– Sim?

– Olá.

– Olá. Olha, o meu pai morreu.

– Ui, ok.

Ya… Xau.

– Xau.

E eu sinto que ando a traumatizar o pobre do rapaz, Quive, que tu pelo menos já vais mais habituado. Somos avessos a demonstrações de sentimentos – o lado vimaranense da família adora-o. Talvez por isso queiramos manter a distância entre Vizela e Guimarães. Mas uma coisa que se vê em qualquer funeral em Portugal é esta frase que é uma mão cheia de nada: “Se precisares de alguma coisa, já sabes.” Não há registo de alguém ter perguntado que tipo de coisa, ou sequer o que é que já saberia. Dizemos que sim, sim, claro que sabemos, e apertamos a mão ao próximo. Se tivermos muito azar, temos de dar dois beijinhos.

Todos os velórios da minha família foram feitos em capelas que pertencem à Igreja católica. Isto quer dizer que chegava sempre um padre para atirar uma água benta, dizer umas palavras inúteis e encaminhar o povo para a missa. Nem sequer entrei nas últimas, fiquei à espera de seguir para o cemitério. Mas sempre me irritou a tanga, o discurso vazio do filho que parte para junto do Pai: eu só via gente a ir para longe dos filhos. Bem tento, mas não consigo entender a religiosidade entre gente que já tenha lido mais do que dois livros, e olha que andei nove anos na catequese, e passei muitos sábados a ver episódios da Bíblia em VHS e, Deus me perdoe por admiti-lo em público, até já ajudei na missa, e cantei lá aos domingos com o meu grupo de escuteiros. Ainda eu era criança e já questionava tudo, e já via o absurdo das fábulas, e já me custava compreender porque é que tanta gente entregava o cérebro e o coração ao ópio. E tu? Tiveste alguma instrução religiosa? Quase te imagino de camisa abotoada até ao pescoço, à moçambicano, só para ir à missa. Aqui, eu e os meus amigos, obrigados a ir para lá, encontrávamos um cantinho onde pudéssemos jogar tazzos à vontade.

Claro que me lembro de termos ido ao Janet, não tanto pelas galinhas degoladas e depenadas quanto pelas bancas cheias de carvão e pelas senhoras que achavam que aquilo ia dar casamento. Mas admito que também pelo cheiro do sangue das galinhas, e pelas barracas umas em cima das outras onde se comia… frango? Já não me lembro bem. Lembro-me de que o sol me ardia na cabeça, que a terra do chão estava seca, que tudo se misturava no ar. Também me lembro do teu ar quando te disse que queria ir à Colômbia, depois de me teres dito o que era e que era perto, como se alguma vez uma justificação dessas me fizesse aproximar-me em Lisboa. Devemos ser outra pessoa quando estamos fora de casa: até o que nos repulsa passa a exótico, ou a oportunidade em mil anos, ou a mero querer ver – aqui, deve haver coisas que eu não quero ver e pronto. Chama-se Colômbia ao bairro da Colômbia por lá se vender cocaína, disseste-me tu. Eu nunca vi cocaína na vida. Nunca vi quase nada. Quando vim morar para Lisboa, ficava escandalizada com as vendas de marijuana junto ao Rossio. Depois, soube que eram orégãos em pó a fingir que eram droga. Nunca fumei nada e nunca sequer tive curiosidade. Não gosto da ideia de que haja coisas que me façam sair de mim, que me mandem no corpo. E, assim sendo, não gosto de nenhum vício, que me soa a prisão dentro de mim. Poder-se-á dizer que sou viciada em jiu jitsu ou em ginásio, mas isso parece-me outra coisa: é o meu corpo a ir para fora. Acho que li A lua de Joana na hora certa, e ainda por cima li-o várias vezes depois disso. Já o leste? Total best-seller em Portugal, voava muito pelas mãos das crianças na minha altura. Se não o tiveres, diz-me, e eu ofereço-o às tuas filhas. Toma já um spoiler (e não lhes contes): um rapaz fuma um charro e, conversa puxa conversa, acabam por morrer de overdose todos os miúdos do prédio. Descobrimos tudo isto a ler o diário da Joana. Nós e os pais. Aliás, fechamos o diário com eles e é assim que percebemos que também ela disse adeus à vida, e que todo o livro consiste em pais que lêem as palavras da filha que está morta. Se isto não é o maior medicamento anti-droga, não sei o que poderá ser.

Quanto ao alfinete que impede que órgãos genitais sejam atrofiados em Moçambique, só me resta repetir-te a frase: vocês não têm que fazer? Já não há problemas a sério para resolver aí? Tu dizes isto sobre tudo em Portugal, lembras-te? Até sobre as touradas. Eu nunca me tinha deparado com essa perspectiva. Aliás, ainda há dias voltei a falar sobre isso. Mas pelo menos não pomos Conselhos de Ministros a discutir hipotéticos truques de magia, nem Presidentes de Câmara a fazer comícios sobre magos pérfidos que dão cabo do corpo à multidão. Não posso responder ao teu apelo, mas quero na mesma saber a história dos ratos que fizeram com que um governador se pisgasse do palácio residencial. Adianto-me já e manifesto solidariedade: eu também me teria posto a andar, e provavelmente teria ido directa ao aeroporto para me pôr a muitas milhas.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *