Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecem muito distantes um do outro, e uma vez que a língua os une, resolveram estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.
Maio já se foi e morreu a Conceição Lima. Já há cerca de três meses havia morrido Maria Paula Meneses. Uma, poetisa e jornalista de São Tomé e Príncipe, a melhor destes tempos; outra, antropóloga e intelectual engajada de Moçambique, com a vida académica baseada em Coimbra. Não sei se compreendes, mas são dois golpes terríveis para países onde muito ainda está por ser escrito e estudado com profundidade e legitimidade.
Neste lado do hemisfério, a morte está ao virar da esquina; ela adormece no nosso umbigo e corre, de vez em quando, entre os intestinos. Damos por nós num caixão. É isso: morre-se ou vive-se na ambiguidade. Mas o amor empolga como nunca antes em qualquer nervo desta galáxia, palavras do poeta Heliodoro Baptista, adivinha, falecido aos 65 anos. A Conceição foi-se aos 64, a Maria Paula aos 62. É mesmo complicado passar dos 60 quando se é africano.
Ainda no sábado estive no velório do meu cunhado. Deixa-me explicar isto para um português compreender: ele era marido da minha prima, podia chamá-lo de primo. Mas é que primo, nas tradições do sul, não existe. Os filhos dos irmãos dos nossos pais são nossos irmãos. Primo é uma das sequelas da cultura portuguesa que nos resta.
Fui ao enterro, no Cemitério de Lhanguene. Faz tempo que não ia àquele lugar. Desde que fomos cremar a mana Betina – esta é só mana por afecto; o nome certo é Sra. Elizabeth Chicoco. O cemitério pareceu-me, realmente, um lugar sem vida: com árvores frondosas, enormes, verdíssimas, a fazer sombra ao que é visível nas campas. É certo que, nesta cidade onde moram os vivos, tudo é cinzento e, a esta altura do ano, as árvores estão despidas dos seus ramos.
Quando o pastor disse que o falecido era feliz por ter encontrado o caminho da luz para estar junto do Pai, tive a impressão de que realmente ali era o lugar do sossego. Havia uma lufada de ar fresco, com frangipanis, jacarandás, amendoeiras e tamarineiros a disputar o céu azul. A morte é mesmo sossego, fiquei a pensar. Numa cidade feita de barulhos, chapeiros, vendedores ambulantes, picaretas a furar o asfalto, marteladas e escavadoras nas obras, ali, onde repousam os nossos mortos, até há um sinal que proíbe o ruído das inevitáveis buzinas dos chapas.
E eu estava ali, consternado, pois claro, mas aliviado com tanta leveza ao redor. Ali, finalmente, a humanidade descansava do seu tormento.
Vejo, em Maputo, aos sábados, duas rotas de romaria: uma rumo aos cemitérios, outra rumo às festas, o que inclui as compras. Claro que a festa das compras acontece nos fins ou nos princípios de mês. O que sobra vai para os velórios, para as visitas do oitavo dia após o enterro ou para as missas do primeiro e do sexto mês. Velar os mortos é uma vocação própria desta cidade.
Não devia contar-te estas coisas moribundas. Mas a Suzy é que não deixou passar o espanto: em Maputo, a morte virou assunto corriqueiro. E as causas, sempre as mais obsoletas, como já te disse numa dessas correspondências.
A Suzy veio de Lisboa para fazer uma exposição das suas pinturas e esculturas. Sucede que todos os dias lhe chegava aos ouvidos, através de amigos, familiares e conhecidos, a notícia de mais um velório a que era preciso ir. Ela assustava-se: aqui morre-se com tanta facilidade.
No âmago do meu susto, também influenciado por escrever-te estas cartas, pus-me a fazer comparações entre Maputo e Lisboa. Dei-me conta de que, em cerca de dois anos desta amizade, nunca me disseste que ias ou vinhas de um velório, ou que lamentavas a morte de alguém que te era amigo, familiar ou próximo. Lisboa será apenas uma morgue cheia de amores antigos? E pessoas mortas de verdade, existem? Vão a enterrar ou simplesmente viram peças raras que tornam Lisboa uma cidade-museu? De tal forma que os cemitérios têm também sido locais de lazer, com visitas guiadas e todo o pacote turístico. Desculpem-me, mas não pago por uma visita a um jazigo onde se guardam ossadas.
Morte à parte, Lisboa tem o charme das tascas. É verdade que vão sendo menos visíveis no emaranhado da globalização, mas lá fui eu garimpando até encontrar uma em Alcântara. Fui lá com a Kátia, a Eltânia e o Ronaldo. À entrada havia uma tigela com figos para petiscar enquanto se esperava por uma mesa. Quando ouvi chamarem menino a um homem de oitenta e tal anos, senti-me em casa. E o sorriso da dona Margarida, a expor os vazios entre as gengivas que dizem tanto das andanças da sua vida, impossível de esquecer.
Em Maputo custa-nos dar nome aos sítios onde se come à tradição. Tudo se resume a barracas. Queres encontrar as coisas e as gentes da terra na sua forma mais genuína? Vai às barracas do Museu, ao Mercado do Povo, ao Mercado Janet. Levei-te ao Janet, lembras-te das mulheres que vendem carvão e do cheiro forte a sangue das galinhas degoladas e depenadas? Era para lá que íamos quando passávamos pela Colômbia, perdidos de propósito naquele estranhamento ao território à la Escobar. Deves saber, afinal, que não são as praias paradisíacas, nem do futebol nem da música, nem das mulheres, nem dos homens que se roubou o no à Colômbia para um quarteirão no centro da cidade de Maputo.
Ali está a Maputo a cair de velha, podre, uma espécie de elite falida, apodrecida, a desenrascar-se na decadência histórica e a amaldiçoar o futuro. Quem diria que a nobre Sommerschield cairia na depressão?
Enquanto isso, o povo parece já não se entreter com os atrofiamentos dos órgãos genitais. Os homens, digo eu, já não andam a matar por acharem que o seu pénis é menor do que era à nascença. Mesmo assim, a Sara Jona, que é uma matriarca que viveu e ainda vive, revelou-me o truque para escapar ao roubo: basta levar um alfinete comigo. Xipenete. É isso. Já que o “roubo” do pénis acontece por uma espécie de truque mágico – basta um toque -, o combate também deve ser feito no mundo mágico: um alfinete guardado nas calças ou algures junto do corpo.
Não te vou revelar se levei a sério o conselho, até porque feitiço revelado perde o efeito.
Apesar dos pesares, o povo andava feliz e a satirizar os discursos políticos. Acreditas que até o Conselho de Ministros reuniu para debater o assunto? Que houve governadores a dirigirem-se a multidões sobre o tema?
Oh, Ana Bárbara, foca-te na tarefa de fazer política com atrofiamento de órgãos genitais. Esquece lá isso de escrever romances, esquerdalhas, extrema-direita, animais, pessoas. Só atrais os “heróis do teclado”. Alertando sobre o roubo dos órgãos genitais, abres os telejornais e fazes o povo feliz. Se aceitares, conto-te também sobre os ratos que fizeram um governador pisgar-se do palácio residencial.
Perguntaste-me sobre a participação online em Moçambique; está aí a resposta. Há mais lovers do que haters; há mais gente ávida por rir do que por odiar. Os imbecis existem em toda a parte, mas aqui são abafados por artistas da dobragem que satirizam os discursos disparatados dos nossos dirigentes.
Antes mortos de rir do que de fome e de fúria.

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