“Aceita fazer um cartão da loja, senhor?” A cena é comum no dia-a-dia de qualquer centro comercial, em que um funcionário se esforça, no menor tempo possível, para apresentar todas as vantagens de aderir a um determinado produto ou serviço. No caso de Nuno Varela, estava diante de uma possibilidade que até então não tivera: adquirir – e pagar em parcelas – o primeiro computador.

Era para ter sido um passeio despretensioso com o filho, acabado de nascer, em 2006. Mas nascia também, naquele momento, um horizonte diferente para o jovem que aprendeu a lidar com uma vida difícil, mas não foi ensinado a desistir. Nos dias seguintes, os olhos curiosos encaravam o ecrã como os do seu bebé, ávidos por conhecer um mundo novo.

Para dar descanso à companheira, o tempo em casa tornou-se cada vez maior. Varela buscava uma ocupação e, no computador que se deu de presente, passou a escrever sobre rap.

“De uma forma muito amadora, eu criei um blog onde fazia notícias cheias de erros, com fotografias, mas pensava que aquilo era só para mim”, conta. Daí, resolveu mandar para um amigo, que mandou para outro, até que o trabalho passou a ter uma enorme repercussão.

Varela refugiou-se na cultura urbana do rap e do grafitti para superar a realidade difícil na infância em um bairro com problemas sociais. Foto: Rita Ansone.

O menino que cresceu entre a Azinhaga das Teresinhas e depois no bairro do Armador, em Chelas, começou a ficar conhecido. O que ele vira na infância – pobreza, tráfico de drogas, prisões e mortes – ficara para sempre como cicatrizes. Nesta fase, ele refugiava-se nas revistas de rap, no grafitti, encontrava inspiração em artistas internacionais. Só não imaginava que toda esta aprendizagem o levaria a ser, um dia, considerado um dos maiores expoentes do cenário cultural português.

O sonho de facilitar o acesso à informação

Aquele blog simples, cheio de “erros” que se tornaram acertos, foi a origem da Hip Hop Sou Eu, a maior plataforma de comunicação do país dedicada ao setor, com quase 200 mil inscritos no YouTube e outras dezenas de milhares de seguidores no Facebook e no Instagram.

Sempre atento ao avanço da tecnologia, o sucesso veio, segundo Varela, por estar em constante evolução e ter acompanhado as tendências de cada momento, passando por MySpace, Hi5, Orkut e várias redes sociais hoje em desuso, mas que movimentaram a internet por bastante tempo.

O canal passou a usar o espaço da internet para divulgar lançamentos de EPs, eventos, músicos e, assim, levou representantes do rap local a um outro patamar na carreira, conduzidos ao palco de grandes festivais. Varela profissionalizou-se, rodou o mundo a dar palestras e partilhar a sua experiência na promoção do hip hop. Em 2022, recebeu o prémio de Empreendedor Promissor e integrou a lista das 100 Personalidades Negras da Lusofonia, escolhidas pela revista Bantumen.

Varela tem usado de iniciativas digitais para mudar a realidade de jovens de Chelas. Foto: Rita Ansone.

Chelas é o sítio que o desafia a criar

Percorreu países como o Brasil, Estados Unidos, Angola, Polónia e Áustria e isso fez florescer nele a vontade de não usufruir de nada sozinho. “Estava em vários sítios a pensar: o rap trouxe-me até aqui e eu sou tão grato que é a minha altura de dar também às pessoas, de tentar formar outros Varelas”, explica.

A resposta a esta inquietação veio com os projetos sociais. Hoje, são incontáveis iniciativas que o têm como padrinho. “Padrinho”, aliás, é a alcunha com que foi batizado em meio aos colegas, como referência ao talento para unir e apoiar quem está ao redor.

Assim surgiu, em 2021, Chelas é o Sítio, uma associação criada por Varela e mais quatro amigos: o famoso rapper Sam The Kid e ainda Adriano Finuras (Associação Torre Laranja), Ricardo Gomes (Masterfoot) e Zé Silva (Chelas Cuts). O maior objetivo do grupo é fazer com que os vizinhos possam sentir orgulho do lugar onde vivem, uma Lisboa que a maioria dos lisboetas desconhece.

O digital ajuda a uma certa normalização, e são várias as ações que o grupo faz que passam por ele, no incentivo à cultura, na educação multimedia e de utilização de computadores, na proteção ambiental e no desporto. Fazem workshops, reivindicação de intervenções no espaço público, mais equipamentos urbanos e espaços verdes para os moradores.

A música, como é óbvio, não poderia ficar de fora. Além do suporte dado aos artistas do bairro, houve o convite para que o projeto fizesse curadoria para o Rock in Rio e o festival MEO Kalorama, sediado no Parque da Bela Vista, a poucos minutos das principais ruas de Chelas.

Buscar novas rotas, sem desviar de si mesmo

No ano de 2021, Nuno Varela fundou também o Kriativu, um espaço comunitário à disposição de quem quer exercitar os talentos artísticos, dar asas à criatividade e aprender novas técnicas de áudio, vídeo, fotografia e design – tudo o que hoje passa por ferramentas digitais. Há um estúdio, vários computadores, sala de podcast e empresta bicicletas para as pessoas do bairro passearem à vontade.

Varela: ” O rap trouxe-me até aqui e eu sou tão grato que é a minha altura de dar também às pessoas”. Foto: Rita Ansone.

Nesta zona, não há trotinetes elétricas e nem as bicicletas partilhadas da Gira, disponíveis em outros pontos da cidade. Por isso, criaram um sistema próprio para oferecer gratuitamente o serviço. A ideia tem atraído cada vez mais jovens ao local, assim como o trabalho de Wilson Lopes, que comanda o movimento BNC (Bringing New Colours). Ele restaura e personaliza pares de ténis, que ganham uma apresentação muito mais bonita – e sustentável.

Na divisão ao lado, uma equipa de jornalismo une-se para trazer as notícias mais relevantes da região. É a Gazeta do Bairro, uma plataforma de comunicação financiada pelo programa BIP/ZIP, da Câmara Municipal de Lisboa, e com a parceria da Mensagem de Lisboa, que aqui realizou o seu projeto Narrativas.

A publicação de um jornal de bairro tornou-se mais fácil com as ferramentas digitais, a divulgação e a presença nas redes. As informações são publicadas de acordo com o interesse dos moradores, como a inauguração recente da primeira clínica de proximidade da cidade, com serviços de enfermagem e consultas médicas gratuitas. A unidade de saúde, instalada bem perto da sede do projeto, foi destaque de uma das reportagens do grupo.

Para o coordenador da Gazeta, Gonçalo Moreira, que está no Kriativu desde o ano passado, esta é uma forma de os mais novos ocuparem os tempos livres com algo produtivo.

“Os jovens aprendem que é bastante importante estarem ativos e não terem aquela mentalidade de estar só na rua, sem fazer nada, ou a falar, fumar e beber. Eles vêm e estão sempre a trabalhar e criar conteúdos”, afirma.

Comunicação que fortalece os laços

Um dos exemplos de quem soube agarrar esta oportunidade é Ibrahima Fawler, de 19 anos. Ele diz que ganhou habilidades na escrita e muito mais consciência sobre as necessidades e preocupações de quem mora na localidade. E elege como o seu trabalho preferido a história da Associação Jorge Pina, que visitou para relatar o papel do desporto como ferramenta de transformação social.

O estudante Telmo Tavares, de 16 anos, é outro repórter comunitário. Residente do Bairro do Armador, ele conta com empolgação sobre o dia que pôde colocar em prática algumas técnicas de entrevistas para a produção de um vídeo.

“É um projeto incrível para Chelas, para tirar os jovens das ruas e distraí-los com atividades. Eu me envolvo com o site e faço posts para o Instagram. Estou aqui para aprender e o Varela está sempre a puxar por nós”, comenta.

Para Varela, os projetos são um é um convite para que os vizinhos se apropriem da narrativa contada sobre as suas vidas. Foto: Rita Ansone.

Está a puxar por eles para que, daqui a alguns pares de anos, possam levar à frente o plano de traduzir os sentimentos da comunidade em lugares além dos coloridos muros do bairro. A intenção de “formar outros Varelas”, que o fundador do Kriativu confessou ser uma missão, é um convite para que os vizinhos, selados pela irmandade, se apropriem da narrativa contada sobre as suas vidas.

E parece uma ideia ousada o suficiente para funcionar, como todas aquelas que empreendeu até agora.


Maíra Streit

Maíra Streit

*Nascida na Amazónia brasileira, Maíra Streit tem uma vida comprida para os seus 36 anos. Ao transgredir as próprias fronteiras, encontrou no jornalismo um território para a liberdade. Cultiva a sede de desvendar o mundo através do olhar do outro e tem um especial interesse por tudo o que acontece à margem das narrativas. Mergulha sempre que pode na cobertura dos direitos humanos porque sabe que, às vezes, é preciso partir-se para continuar inteira.

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4 Comments

  1. Uma matéria emocionante e bem redigida.
    E que venham outros Varelas, de sonhos e determinação!

  2. Fiquei a conhecer um pouco de uma pessoa que representa o seu mundo. Realmente precisamos de mais Varelas.
    Obrigado Nuno Varela e Maíra Streit.

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