Esta crónica é a quinta e última de uma série que tenho vindo a escrever sobre os clubes de futebol do meu bairro, Chelas, na freguesia de Marvila, em Lisboa. Ao investigar sobre a história destes clubes, descobri uma comunidade tão resiliente como talentosa e pessoas tão determinadas como orgulhosas das suas raízes. Onde o sonho da bola é só um pretexto para fazer história.

Esta última é a história de uma equipa que nasceu no coração do Bairro do Condado, mais conhecido como Zona J — já terá ouvido falar dele e aposto que pelas piores razões (mas é também o que quero ajudar a desmistificar: esta má fama). Falo do Torre Laranja Futsal Clube (Torre Laranja FC), oficialmente fundado em 2014. Mas, na memória dos moradores de Chelas, este clube tem raízes que remontam a tempos ainda mais longínquos. É que tudo terá começado com o Grupo Desportivo e Recreativo Torre Laranja, que marcou a juventude de muitos na zona.
Ouça aqui o podcast:
O clube que renasceu de uma tragédia
Vamos recuar até aos anos 90, quando os moradores foram realojados das suas habitações de autoconstrução, conhecidas como “barracas”, para prédios altos. No topo de alguns desses prédios estavam caixas de água coloridas onde surgiram as equipas de futsal. Cada uma organizada pela cor das caixas dessas torres. Está a ver onde quero chegar, certo? À torre laranja.
A torre laranja destacava-se entre as adversárias, respeitada nos jogos informais e nos torneios da região. Quem o diz é Adriano Pinto, de 43 anos, um residente de Chelas desde os tempos anteriores aos realojamentos e à construção dos prédios. O Adriano, além de ser o fundador do Torre Laranja FC, é também cofundador, juntamente comigo e outras personalidades do bairro, da Associação “Chelas É o Sítio” (que, aliás, inspirou o nome desta série: “Chelas É Futebol“).
Ele que lembra tempos áureos no topo daquelas torres.
Até que, em 1994, a história do futsal em Chelas foi abalada por uma tragédia.
Um acidente de viação em Santa Apolónia, quando um carro sobrelotado regressava de um torneio, tirou a vida a duas pessoas e deixou outra “em estado vegetal”: Zé, Tiago e Bruno Muje, da mesma família. O Bruno era companheiro de infância de Adriano, que lembra como este acidente deixou marcas profundas na comunidade. Os sobreviventes, Zé Coxo, Chico da Torre Verde, Chico da Tia Delmira, e Tino “Gato” — que ganhou o apelido por ter sido dado como morto, mas que milagrosamente acordou na morgue — ficaram marcados para a vida.
O impacto desta tragédia foi tal que o Torre Laranja deixou de existir e a comunidade perdeu o ânimo para continuar a praticar o futsal.
A dada altura, o Clube Recreativo e Cultural Marvila Jovem era dos poucos a esforçar-se para revitalizar a modalidade. Mas as feridas eram profundas e o tempo parecia ter parado na Zona J. Quase 20 anos depois, em 2013, Adriano chegou vindo de uma curta vida de emigrante em Espanha. E trazia um desejo: reativar o futsal no bairro.
Apesar do trauma que a geração dele carregava, as novas gerações já tinham recuperado a paixão pelo futsal. Mas enfrentavam um novo desafio: o campo onde Adriano cresceu a jogar estava sob ameaça de ser destruído para dar lugar a um parque de estacionamento. Para muitos, este campo não era apenas um local para jogar; era o ponto de encontro de uma comunidade. Mas, como tantas vezes acontece nos bairros marginalizados, o espaço público utilizado pelos jovens da Zona J era visto com desconfiança pelas autoridades.
Foi na tragédia que o futsal e o Torre Laranja voltaram à vida. Mais precisamente em 2012, quando o bairro sofreu outra perda dolorosa. Nuno Vilarinho, conhecido como Barbosa ou GQ no mundo do Hip Hop nacional, morreu num acidente de viação. E, para o homenagear, foi organizado um torneio de futsal amador, onde participaram equipas de vários bairros de Chelas e de outras zonas de Lisboa, incluindo jogadores profissionais no ativo e reformados. O torneio teve três edições.
Foi neste espírito que o Torre Laranja FC foi formalmente fundado, com o objetivo principal de formar jovens jogadores de futsal. O clube rapidamente se destacou, sendo o primeiro da zona oriental de Lisboa a receber a certificação da Federação Portuguesa de Futebol como entidade formadora na modalidade.
Hoje, é o clube de Marvila com mais atletas federados no futsal.

Um jogo de futebol ajustado às dificuldades da comunidade
O Torre Laranja FC conta atualmente com oito equipas de formação, desde os petizes até aos seniores, todas masculinas. Houve uma equipa feminina que esteve prestes a ser campeã da segunda divisão distrital, mas a pandemia de Covid-19 interrompeu a liga e deixou o campeonato por concluir. O projeto de futsal feminino, infelizmente, não continuou, mas as equipas mistas ainda são permitidas até ao escalão de iniciados.
O clube não cobra aos atletas pela formação, transporte, alimentação, equipamentos ou colónias de férias, reconhecendo as dificuldades financeiras das famílias do bairro. Esta gestão de proximidade — semelhante à do Chelas FC — também tem como motivação o reconhecimento do quão aliciante o mundo do crime pode ser para os jovens que passam o tempo livre nas ruas.
Um testemunho do sucesso desse trabalho do clube é que saem todos os anos alguns dos jovens do Torre Laranja FC para jogar em clubes maiores de Lisboa. Como o Benfica, Sporting e Belenenses.
Não é de estranhar, por isso, que o lema do clube seja “Porque acreditamos que é possível”. Reflete o espírito de perseverança e resiliência que caracteriza não apenas o Torre Laranja FC, mas toda a comunidade de Chelas.

Mas combater o estigma de ser de Chelas ainda é uma batalha. Nos jogos da sua divisão, é mandatário a presença de um polícia para cada 200 adeptos. O Torre Laranja chega a ter 10 polícias nos jogos em casa — um polícia por cada 20 adeptos. Uma medida que representa um custo significativo para o clube, que não tem fontes de rendimento.
Numa zona muitas vezes estigmatizada, o futebol e o futsal continuam a ser uma força de transformação e esperança.
Quando a Mensagem me propôs este desafio de contar histórias sobre a minha zona, sabia que queria falar sobre futebol, mas também que seria sempre sobre mais do que isso. Clubes centenários como o 3 de Agosto ou recém criados como o Pastéis são amostras da fertilidade de Chelas em gerar boas histórias. São várias aquelas que ainda estão por contar. Mas a minha zona não esquece os seus: homenageia e imortaliza a sua memória com dedicatórias em músicas ou grafittis nas paredes. Esta é minha.
Ouça outros episódios desta série, aqui:
Esta reportagem faz parte do Projeto Narrativas. Saiba mais aqui


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