A mulher sempre foi o género do desassossego, por natureza. Criada para fazer companhia ao sozinho Adão, não conseguiu resistir à tentação do proibido. Concebida a pedido de Zeus como presente (envenenado) para os homens, era afinal o tormento eterno da Caixa de Pandora. E assim tem sido hoje, na espuma e nas entranhas dos dias.
Ainda no princípio da minha carreira como professora universitária a tempo inteiro, engravidei (mais cedo do que tinha previsto, mesmo assim aos 38 anos). Nunca soube se aquela barriguinha que já se vislumbrava foi a razão para, naquele final de ano letivo, a instituição não requerer mais o meu contributo. No entanto, outra universidade (católica, por sinal) acolheu-me sem se importar com o facto de eu esclarecer que entre um semestre e outro estaria 42 dias em casa (na altura, o mínimo da licença). Pelo contrário, a pessoa que estava à minha frente, um homem com poder de decisão, não só celebrou a minha maternidade como confiou na minha capacidade profissional.
Quando tive o meu filho, no dia 24 de dezembro, não antecipava o compromisso materno que teria daí em diante. Mas também nunca me passou pela cabeça ficar em casa 3, 6 ou 9 meses: vivia com recibos verdes e na altura era impossível. E também não queria. Quem usufruiu da restante licença de maternidade foi, na verdade, o pai, e foi muito bom para ele e para mim.
Daí para a frente, o meu desassossego incomodou muitos(as): os que me perguntavam como tinha sido possível “abandonar” o meu filho tão pequenino (na verdade, só me ausentava três horas quatro vezes por semana); depois, por que motivo não lhe dava um irmão (estava a ser “egoísta”); por último, como era possível ter-me separado com ele tendo seis anos (estava novamente a ser “egoísta”).
Em todas estas micro críticas, a minha identificação resumia-se a mulher-mãe, mulher-cuidadora. Tal como as pessoas com deficiência são reduzidas à sua deficiência, as pessoas em situação de sem-abrigo são reduzidas à sua (ausência de) casa e os ex-reclusos são reduzidos ao crime que cometeram.
A história é feita de mulheres desassossegadas. Em Lisboa, os seus feitos ficaram eternizados na toponímia, em monumentos ou em memórias. Por exemplo, o Miradouro de Santa Catarina homenageia Catarina Alexandria, que foi condenada à morte por proteger os cristãos.
Na Graça, o busto de Sophia de Mello Breyner transporta-nos para a sua poesia rebelde, a Casa Angelina Vidal, na Rua de São Gens, tem o nome de uma feminista que defendeu as mulheres operárias e, claro, a Rua Natália Correia homenageia uma das mais importantes escritoras portuguesas. Foi também em Lisboa, em Arroios, que uma mulher votou pela primeira vez, em 1911. Carolina Beatriz Ângelo, primeira mulher cirurgiã, defendeu o direito ao sufrágio feminino, ao divórcio e a uma educação igualitária para as mulheres.

O século XX foi ávido em desassossego feminino também nos seus tempos disruptivos: depois da I Guerra Mundial, os famosos clubes de guerra que se estabeleceram na Rua das Portas de Santo Antão replicavam os estilos de capitais europeias, onde mulheres dançavam, fumavam e se divertiam. Nos anos de 1940, quando o Porto de Lisboa era o único porto livre da Europa no Atlântico Norte, milhares de refugiados concentraram-se em Lisboa e as pastelarias, sem espaço para os receber, começaram a criar esplanadas. A primeira a fazê-lo, a Pastelaria Suíça, foi palco de escândalos aos olhos dos lisboetas: mulheres estrangeiras fumavam, bebiam e falavam descontraidamente numa esplanada.

Curiosamente, na sua carta de princípios, os membros do movimento Movimento de Acção Ética (MAE) – que coordenou o livro, apresentado há dias pelo ex-primeiro ministro Pedro Passos Coelho, intitulado Identidade e Família – apresentam-se como uma “iniciativa cívica de pessoas desassossegadas nestes tempos de acentuada erosão ética”.
Mas o que mais parece é que ainda hoje, século XXI, há um grupo de homens mais fragilizados por este desassossego feminino. Uma das propostas que o grupo de António Bagão Félix (economista), Paulo Otero (jurista), Pedro Afonso (médico psiquiatra) e Victor Gil (médico) diz querer fazer é a de criação do estatuto “mulher dona de casa”, a ser apresentado em maio, à partida com o propósito de proteger a mulher que está em casa a cuidar dos filhos. Por que motivo não há um estatuto semelhante para o homem? “Porque há coisas que só as mulheres podem fazer”, afirmou à comunicação social Paulo Otero.
Pois há. A história está cheia de exemplos de coisas que só as mulheres puderam fazer. Para poder votar, levantar a voz, trabalhar, amar outras mulheres, divorciar-se ou ser livre. Mas vai-se a ver e não são estas coisas que estes homens querem: querem, sobretudo, sossego feminino. E é por isso que no manifesto se apropriam de uma qualidade feminina e do simbolismo que foi dada à palavra “desassossego” por Fernando Pessoa através do seu heterónimo Bernardo Soares.
Apropriam-se porque sabem que, no fundo, recordamos o valor simbólico e discursivo dessas palavras. E também sabem que andamos tão impacientes e distraídas que não nos apercebemos de que as palavras são as mesmas, mas os significados são outros.
Por aqui, a ética feminina continuará a sossegar, sim, no desassossego.

Agradecido pelo seu texto….na continuidade de outras palavras escritas por outras sempre jovens mulheres….vergo gratie a minha querida Natália Correia…!!
Concordo totalmente com este maravilhoso escrito. Foi para mim chocante o sentido depreciativo que se adivinha neste estatuto.
Pessoas como a autora são a prova viva da desconexão com a realidade atual de Portugal que tem estas iniciativas medievais.
Dra Dora Santos Silva, infelizmente em pleno séc.XXI ainda há muitos homens e algumas mulheres que pensam, que há trabalhos que são para as mulheres. Eu em 1985 estava a acompanhar a minha esposa numa visita ao ginecologista. Mas acompanhei apenas porque a seguir havia outra consulta no pediatra para o nosso casal de gémeos. Enquanto a minha esposa estava no consultório eu tive que mudar as fraldas aos meus filhos, houve tantos comentários silenciosos, que foi à funcionária do Dr.que respondeu. ” se a maioria das mulheres soubessem tratar dos filhos como este senhor o mundo seria bem melhor” pois em pleno século XXI eu acho que em nada melhorou. Agradeço aos maravilhosos pais que tive, que sempre nos educaram com base na célebre frase ” todos diferentes todos iguais “
Adorei o texto. Muito motivador para mulheres como eu sou…muito enfraquecida por esta “roda viva” em que vivemos…o texto inspirou-me e muito! Grata pela partilha e carinho!!