Às quatro e vinte seis da madrugada de 25 de Abril de 1974, a voz segura de Joaquim Furtado lê, aos microfones do Rádio Clube Português, e ao país, o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas (MFA). Quatro minutos depois, às quatro e meia, o arquiteto Manuel Augusto Araújo recebe um telefonema a avisar que havia movimentações militares na rua. Dirige-se de imediato com um amigo rumo ao lugar de onde o comunicado do MFA fora emitido: o Rádio Clube Português. Conhecia lá muita gente.

O testemunho de Manuel Augusto Araújo, hoje com 79 anos, é o terceiro da série “Lisboa que Amanhece”, que pediu o título emprestado a uma das canções mais bonitas sobre Lisboa, da autoria de Sérgio Godinho. Porque foi o que aconteceu naquele dia. Lisboa amanheceu e fez amanhecer o país todo.

Veja aqui o terceiro episódio

Uma missão na Penha de França

Manuel Augusto Araújo, arquiteto, designer e copywriter, então com 29 anos, morava num prédio da Penha de França, onde viviam vários destacados antifascistas, entre os quais José Manuel Tengarrinha, fundador e dirigente do MDP-CDE – que estava na altura preso em Caxias.

Manuel Augusto não só era antifascista como era militante do Partido Comunista Português (PCP). Cabeça a prémio. A casa sempre vigiada pela PIDE.

Não fazia ideia do quê, mas sabia que alguma coisa estaria para acontecer naquele 25 de Abril de 1974. Quando recebeu aquele telefonema, às 4h30 da madrugada, ficou ambivalente: não estava certo de que lado vinha o golpe militar.

Saiu de imediato para a rua.

“Fomos para o Rádio Clube Português, porque eu na altura trabalhava no Conceição Silva e tínhamos lá um programa, mas não conseguimos entrar porque a Sampaio Pina já estava ocupada por militares. Tinha tudo um ar simpático, o que nos deixou mais descansados (depois do Golpe das Caldas, a 16 de Março, constava que o Kaúlza de Arriaga ia fazer um golpe de extrema-direita)”.

Dali foi a casa, dar notícias à família e aos vizinhos e foi nessa altura que assistiu à primeira grande confraternização entre a população e os militares:

“Estava uma Panhard [marca automóvel francesa] empanada a travar o avanço da coluna militar que se dirigia para tomar o Quartel da Legião Portuguesa, ali na Penha de França, mesmo em frente a casa e, então, alegremente, a malta toda começa a empurrar”.

Desempanada a Panhard, Manuel Augusto Araújo e o amigo foram de carro para o Príncipe Real, desceram à Baixa, já a pé, e pararam numa espécie de quiosque ao lado do Café Gelo, onde muitas noites de boémia costumavam acabar, para beber um quarto de whiskey (“a que agora chamariam um shot”).

“Isto já ninguém nos tira”, o 25 de Abril de 1974

As ruas já estavam cheias e depois andaram por ali, Terreiro do Paço, Largo do Carmo, num movimento estonteante, como a euforia que se vivia. “O mais impressionante daquilo tudo foi o Carmo. Já estava interiorizado que não havia volta a dar, que aquilo estava acabado e tratava-se de perceber quanto mais tempo aqueles gajos conseguiam atrasar o momento decisivo de entregarem o poder. Foi uma alegria completa.”

Mas também houve desilusões naquele dia. “Quando, à noite, chego a casa, apanho com um balde de água fria ao ver na televisão aquela sinistra Junta de Salvação Nacional, o Spínola de monóculo a ler aquilo contrariado, o Galvão de Melo, o Diogo Neto, o Costa Gomes muito embiocado, o único que tinha um ar satisfeito era o Rosa Coutinho. Pensei: mas o que é isto?”.

Ainda assim, o que prevaleceu foi “a sensação magnífica de que isto já ninguém nos tira, este país cinzento, esta poeira toda que anda neste país, foi tudo varrido, o que vier a seguir logo se verá.”.

E o que se viu foi o povo a exigir a libertação dos presos políticos à porta de Caxias, contra as pretensões do General Spínola. “Foi vitória sobre a contrarrevolução e foi um alívio e uma alegria ver toda aquela gente libertada, acabaram-se as prisões políticas, o que era uma coisa fundamental neste”, lembra Manuel Augusto Araújo, que tinha entre os presos libertados muitos amigos e camaradas.

“A história não se repete, como dizia o Marx, mas às vezes rima, como nos lembrava Mark Twain, por isso há que manter os olhos bem abertos. E resistir”, remata.

“Lisboa que amanhece”: a série da Mensagem de Lisboa nos 50 anos do 25 de Abril de 1974

REVEJA OS OUTROS EPISÓDIO DA SÉRIE “LISBOA QUE AMANHECE”:


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.


Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 23, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. É fotojornalista e responsável pelas redes sociais na Mensagem.

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1 Comment

  1. A vida das pessoas é efémera. Mas as sementes que lançaram à terra vão florescendo…
    Importante trazer aos nossos olhos os relatos das colheitas!
    Obrigado
    Ccruz

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