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As ruas de Lisboa não são apenas lugares de passagem. São também lugares de homenagem. Percorrer Lisboa significa percorrer a história da cidade, do país e até mesmo do planeta. Mas, como já se sabe, a história nem sempre preservou a memória de todos: ou melhor, de todas.

Aquilo que já se esperava foi confirmado por dados: o cientista de dados Manuel Banza reuniu as ruas de Lisboa recorrendo a dados da Câmara Municipal de Lisboa e concluiu que, em praticamente 5 mil ruas, apenas 5% são topónimos femininos, contrastando com os masculinos, que perfazem 44%.

Foto: Manuel Banza

O mesmo foi feito para os jardins – 7% são topónimos femininos, 36% masculinos. Para as escolas – 14% femininas, 43% masculinas. E hospitais – 11% femininos, 54% masculinos.

O objetivo de Manuel Banza é que “haja uma ação voluntária de reequilíbrio, dando mais nomes de mulheres a ruas, e talvez esse seja o primeiro passo para ajudar a aumentar o reconhecimento do papel desempenhado pelas mulheres na nossa História e nas nossas cidades”, explica no seu site.

“Foi precisamente por isso que decidi fazer uma análise que tente mostrar a desigualdade que existe, atualmente, na distribuição de ruas com nomes de mulheres, quando comparada com ruas com nomes de homem.”

Neste mapa, a vermelho as ruas com nome de mulher:

“Olhar para os números é sempre fundamental”, diz Patrícia Santos Pedrosa, arquiteta e investigadora do Centro Interdisciplinar em Estudos de Género (ISCSP, ULisboa). “Passamos a ter factos, e os factos são claros”. Ou seja, não há igualdade.

As freguesias de São Vicente, Carnide e Campo de Ourique são as freguesias que mais nomes de mulheres têm em percentagem do total. Não há propriamente uma explicação para isso.

Quando as mulheres passam a ser ruas

Os resultados deste estudo vão ao encontro de um outro trabalho, realizado na cidade do Porto por João Bernardo Narciso e Cláudio Lemos: também nesta cidade, 44% das ruas levam topónimos masculinos.

Em 2018, o Público fez esta análise para o país inteiro, e concluiu que apenas 15% das ruas tinha nomes próprios de mulheres.

Para perceber o que aqui se passa, há que percorrer a história das cidades.

Em Lisboa, a toponímia foi formalizada no tempo do Marquês de Pombal – até lá, as ruas eram simplesmente conhecidas por nomes que os populares lhes davam. Nada formal. Entretanto, a partir do século XIX começaram a homenagear-se figuras ilustres. Mulheres? “Só rainhas, santas, pontualmente algumas personagens anónimas ligadas a algumas profissões”, diz Patrícia Santos Pedrosa. Manuel Banza confirma: “Muitos dos nomes de mulheres são nomes de santas ou de rainhas, mais do que nos homens em percentagem de cada género”.

É o caso da maior rua com nome feminino, a Rua Maria Pia, a primeira circular de Lisboa, em Campo de Ourique – Alcântara, que homenageia a Rainha Maria Pia de Saboia, mulher do Rei D. Luis I, conhecida pelas suas obras de caridade.

Entre as anónimas, há o caso de figuras como a Ferrugenta, do Beco da Ferrugenta. Quem era? Leonor Maria, uma moradora local e padeira de Sua Majestade, e que terá enviuvado de um homem com o apelido Ferrugento. Uma mulher conhecida pelo nome do marido.

Ou a Triste-Feia, que Appio Sottomayor descrevia assim numa comunicação nas Jornadas de Toponímia de Lisboa: “Da mulher que foi a Triste Feia não se sabe o nome exacto nem, rigorosamente, o tempo em que viveu. O que se sabe ao certo é que foi o povo, foram os seus vizinhos, quem imortalizou as suas características. Diz a tradição que ali moraram três irmãs, sendo duas delas raparigas normais e com o viço próprio dos verdes anos; a terceira, porém, possuía feições tão pouco agradáveis à vista que os rapazes que passavam em busca de conversadas fugiam comentando: ‘que focinho de porca!’, ‘que medonha seresma!’. Claro que as irmãs casaram e ela ficou sozinha, vendo chegar a velhice e agravar-se a fealdade. Mas, ao que rezam as crónicas, a simpatia nada tinha a ver com os atributos físicos. Assim, muita gente vencia a relutância por um ser tão feio e conseguia entabular conversa e até quase travar amizade. Mas a vida da pobre era passada quase sempre sentada à sua porta, numa melancolia doente. O certo é que morreu – e ninguém a esqueceu. Ficou o sítio conhecido pelos desagradáveis atributos da mais notável moradora. E Triste Feia se manteve até hoje, sem o designativo de rua que não precisa”.

Só a partir da República é que este cenário começa a mudar, tal como esclarece Manuel Lopes, o apaixonado pela toponímia sobre o qual a Mensagem já escreveu.

No Estado Novo, chegam a homenagear-se 55 mulheres ao erguerem-se novas placas toponímicas: entre elas, estão Marie Curie, Florbela Espanca, Maria Amália Vaz de Carvalho…

Mas há uma alteração depois do 25 de Abril. “Com ruas como Natália Correia, Catarina Eufémia ou da arquiteta Maria José Estanco. É óbvio que se começam a valorizar outros perfis”, confirma Patrícia Santos Pedrosa. “Há uma alteração de paradigma”.

Nas ruas de Lisboa, dominam os topónimos masculinos.

Para Manuel Lopes, a grande mudança deu-se com a presidência de Jorge Sampaio na Câmara. Mas não foi suficiente.

Até porque, tal como mostra o estudo de Manuel Banza, a evolução ao longo dos anos da toponímia feminina em Lisboa não tem sido significativa – uma preocupação que já foi expressa pelo Bloco de Esquerda em reunião de Câmara, este ano.

É que dar topónimos femininos, numa cidade dominada por ruas de homens, não é apenas uma homenagem, ou uma forma de dar a conhecer o seu contributo: funciona também como “um modelo para os mais novos”, explica a arquiteta Patrícia Santos Pedrosa. “Amplia o que poderá ser o mapa de modelos de mulheres, ajuda a imaginar-nos outras coisas que não o que os estereótipos de género configuram”.

E é precisamente por isso que Patrícia Santos Pedrosa considera importante que a Assembleia Municipal, a Câmara e a Comissão de Toponímia de Lisboa se comprometam, a partir de agora, a atribuir apenas topónimos femininos. “Para garantir que há uma micro compensação pelos séculos e séculos de esquecimento”.

Manuel Banza, o autor do estudo, chega mesmo a dizer em relação ao trabalho realizado: “Isso pode inspirar outras mulheres. Na luta pelos seus direitos e a alcançarem sucesso nas suas carreiras e vidas pessoais. Passando o testemunho para as próximas gerações”

Para Banza, o objetivo desta análise foi quantificar esta desigualdade e tentar que se inicie o debate que é o mais produtivo, o de pensarmos em nomes de mulheres que tiveram um papel importante na cidade ou no país e que ainda não existam nas ruas de Lisboa.

Que sugestões têm? Que mulheres deveriam ter uma rua com o seu nome? Insira nesta tabela:


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 26 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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