Receba a nossa newsletter com as histórias de Lisboa 🙂

Foi no Rossio que se conheceram Baltasar e Blimunda, do Memorial do Convento. Foto: Inês Leote

Foi no Rossio que os olhares de Blimunda Sete Luas e de Baltasar Sete Sois se cruzaram pela primeira vez. O Rossio, lugar real e efervescente da cidade de Lisboa, está marcado pela História. Mas está também marcado por uma outra dimensão: a ficção.

Aconteceu no rebuliço de um auto-de-fé, ocasião de festa para muitos, de terror para outros, como para Sebastiana de Maria Jesus, mãe de Blimunda, ali condenada ao degredo.

Mas, apesar do triste destino de Sebastiana, foi nesse dia que se escreveu “o início de uma das mais marcantes histórias de amor da literatura portuguesa”. A história de amor do Memorial do Convento.

É talvez a obra de Saramago de que Isabel Araújo Branco, professora e investigadora da FCSH-UNL, mais gosta. Ela que, em 2017, se propôs a criar um roteiro literário pela Lisboa de Saramago.

Isabel Araújo Branco passeia pelas ruas das personagens de Saramago. Foto: Inês Leote

Um roteiro por uma cidade “percorrida pelos pés e pelos olhos, mas vivida pelo coração e habitada pelas recordações pessoais e pela memória histórica”, escreve Isabel.

E que abrange quatro áreas:

  1. Alfama, Castelo, Baixa, Bairro Alto e Chiado
  2. Arroios, Penha de França e Alto do Pina
  3. São Sebastião da Pedreira
  4. Zona Oriental (Belém, Cemitério dos Prazeres)

Isabel optou por se focar na primeira área, recriando os passos de Ricardo Reis, Baltasar e Blimunda, João Mau-Tempo e Raimundo Silva.

Os passos das personagens que ganham ainda mais força neste ano em que se celebra o centenário do seu criador:

Deambulações de Ricardo Reis

Faz chuva no Chiado, no Largo de Camões, onde Isabel segura um guarda-chuva e procura os passos de Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa que, durante algum tempo, Saramago não sabia que era fruto da imaginação do ortónimo. Ao descobri-lo, o escritor transformou-o numa “dupla ficção”.

Nascia, assim, O Ano da Morte de Ricardo Reis.

O ano é o de 1935 e Ricardo Reis acaba de chegar a Lisboa do Brasil. Fernando Pessoa morreu há pouco tempo, o fascismo cresce nas ruas e Ricardo aloja-se no Hotel Bragança, na rua do Alecrim, onde virá a conhecer a sua paixão, Lídia.

Em deambulações, Ricardo Reis passa pela estátua de Eça de Queirós e por uma série de estabelecimentos que ainda hoje se mantêm.

“É curioso que ainda temos muitas marcas da cidade dessa época pelas quais passamos todos os dias”, diz Isabel Araújo Branco.

Uma delas é a estátua de Eça de Queirós, claro, onde se inscreve: “Sobre a nudez da verdade o manto diáfano da fantasia”.

E Ricardo Reis reflete:

“Sobre a nudez forte da fantasia o manto diáfano da verdade, e este dito, sim, dá muito mais que pensar, e saborosamente imaginar, sólida e nua a fantasia, diáfana apenas a verdade, se as sentenças viradas do avesso passarem a ser leis, que mundo faremos com elas, milagre é não endoidecerem os homens de cada vez que abrem a boca para falar”.

O ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago

É por estas ruas que segue o heterónimo, passando do Largo de Camões para a Calçada do Combro, até chegar ao miradouro do Alto de Santa Catarina.

Mais tarde, Ricardo Reis aluga uma casa com vista sobre o Tejo e a Margem Sul, de onde vê navios e fragatas. “É ali que ele testemunha a Revolta dos Marinheiros de 1936”, conta Isabel. “Ele sabe que se trata de uma revolta de esquerda que corre mal, os marinheiros são rapidamente vencidos”.

Segue-se para o Bairro Alto, chegando à rua O Século, onde Ricardo Reis assiste ao “bodo dos podres”. “A população tinha este hábito de vir receber pela altura do Natal bens de algumas empresas, como do jornal O Século“, explica a investigadora. “É uma passagem importante pois mostra a relação das pessoas com a autoridade e os poderes”.

“O polícia avançou três passos, de braços abertos, como quem enxota galinhas para a capoeira, Vamos lá, quietos, não queiram que trabalhe o sabre, com estas persuasivas palavras a multidão acomodou-se, as mulheres murmurando como é costume seu, os homens fazendo de contas que não tinham ouvido, os garotos a pensar no brinquedo, será carrinho, será ciclista, será boneco de celulóide, por estes dariam camisola e livro de leitura”.

O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago

Ziguezagueando pelas ruas, o destino seguinte é a Brasileira do Chiado, que ainda hoje resiste (e é a sede emocional da Mensagem), por onde Ricardo Reis ouve as conversas alheias.

Daí desce-se pela rua António Maria Cardoso, onde ficava a sede da PIDE, e onde o heterónimo de Pessoa é interrogado.

Onde as histórias de Saramago se cruzam

E finalmente, o Rossio.

É aqui que Ricardo Reis assiste à celebração da passagem de ano de 1935 para 1936, onde Baltasar e Blimunda se conhecem e ainda onde, anos mais tarde, Baltasar será queimado num auto-de-fé, ao lado do dramaturgo António José da Silva, também conhecido como O Judeu.

“Para os lados do Teatro Nacional, o Rossio está cheio. [. . . ] finalmente o ponteiro dos minutos cobre o ponteiro das horas, é meia-noite, a alegria duma libertação, por um instante breve o tempo largou os homens, deixou-os viver soltos, apenas assiste, irónico, benévolo, aí estão, abraçam-se uns aos outros, conhecidos e desconhecidos, beijam-se homens e mulheres ao acaso, são esses os beijos melhores, os que não têm futuro”.

O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago

Baltasar e Blimunda emergem pois pelas ruas, cruzando-se com a história de Ricardo Reis. Pelo Terreiro do Paço, onde ficava o Palácio Real, ouvem-se ecos do criador da passarola, o padre Bartolomeu de Gusmão, nessa praça onde Baltasar e Blimunda assistiam também às touradas.

“A praça está toda rodeada de mastros, com bandeirinhas no alto e cobertos de volantes até ao chão, que adejam com a brisa, e à entrada do curro armou-se um pórtico de madeira, pintada como se fosse mármore branco, e as colunas fingindo pedra da Arrábida, com os frisos e cornijas dourados.”

Memorial do Convento, José Saramago

Por ali também emerge uma outra personagem, de um outro universo: o seu nome é João Mau-Tempo e vem do livro Levantado do Chão.

Personagens que viajam de livro em livro

Isabel para no Museu do Aljube. Ali ficava a prisão que albergou presos políticos de 1928 a 1965. E que albergou, nessa outra dimensão (a da ficção), João Mau-Tempo, esse homem ribatejano que, assim que libertado, procura abrigo nas ruas desconhecidas de Lisboa, encontrando-o numa casinha em Alfama.

Como se chama o homem que o acolhe? Ora, chama-se Ricardo Reis.

É que o cruzamento dos mundos destas personagens não acontece só nas ruas de Lisboa: acontece também entre livros.

João Mau-Tempo surge ainda nas páginas do Memorial do Convento. “Surge no episódio da epopeia da pedra, em que se dá voz àqueles que não a têm”, conta a investigadora.

A antiga prisão do Aljube, hoje um museu. Foto: Inês Leote

As ruas serpenteadas por João Mau-Tempo são também as ruas de todos os dias de Raimundo Silva, o protagonista da História do Cerco de Lisboa.

Raimundo, um revisor literário, mora no bairro do Castelo, na rua do Milagre de Santo António. Às refeições, dirige-se à leitaria A Graciosa. Da janela de sua casa, vê os “telhados avermelhados, a Sé, o Tejo e, ao longe, os sapais de Pancas e Alcochete”.

Neste que é um livro que reescreve, claro, a história do cerco de Lisboa, os cenários passam, pois, pelas “ruas quadriculadas da Baixa, o Arco da Rua Augusta, as ruínas do Carmo, a Graça, o Campo de Santa Clara”…

Para lá da ficção: a Lisboa de Saramago

Mas Saramago não nasceu nestas ruas chuvosas de Lisboa. Nasceu, sim, na Azinhaga, no Ribatejo, lugar que guardou sempre com carinho. À Azinhaga e àqueles que lá o acolhiam: os avós Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha.

Foi aos dois anos de idade que Saramago (a alcunha do pai que o funcionário do Registo Civil decidiu registar nos documentos oficias) se mudou para Lisboa com a família. Tempos difíceis, marcados pela morte do seu irmão mais velho, Francisco, de apenas quatro anos.

Lisboa tornou-se cidade de muitas casas: durante anos, o pequeno José passou pela Picheleira, pelo Alto do Pina, pela rua Morais Soares, pela Mouraria.

Tudo casas sem livros.

Como é que Saramago descobriu, então, as palavras?

A resposta está nos livros escolares, que lhe abriram horizontes. E na procura pelas histórias que ele próprio levou a cabo, descobrindo um lugar que mudaria a sua vida para sempre: a biblioteca.

Na altura em que trabalhava como serralheiro mecânico numa oficina de reparação de automóveis, Saramago passou a frequentar durante o período noturno a Biblioteca Galveias. O gosto pela leitura – e pela escrita – aprimorou-se aí.

E também o gosto pela História da cidade para onde se mudara em pequeno.

“Saramago escreve uma história alternativa à historiografia oficial”, explica Isabel. “Não dá voz aos reis, aos duques, mas sim à maioria da população”.

Foi essa a Lisboa que recriou nos seus livros.

Essa Lisboa que se foi transformando, como conta o próprio em Palavras para Uma Cidade:

“Em nome da modernização levantam-se muros de betão sobre as pedras antigas, transtornam-se os perfis das colinas, alteram-se os panoramas, modificam-se os ângulos de visão”.

Mas uma Lisboa que se foi também conservando a mesma: “(…) o espírito de Lisboa sobrevive, e é o espírito que faz eternas as cidades”.

E essa Lisboa que sobrevive, sobrevive também graças às memórias dos seus livros, e das suas palavras:

“Arrebatado por aquele louco amor e aquele divino entusiasmo que moram nos poetas, Camões escreveu um dia, falando de Lisboa: ‘…cidade que facilmente das outras é princesa’. Perdoemos-lhe o exagero. Basta que Lisboa seja simplesmente o que deve ser: culta, moderna, limpa, organizada – sem perder nada da sua alma. E se todas estas bondades acabarem por fazer dela uma rainha, pois que o seja. Na república que nós somos serão sempre bem-vindas rainhas assim”.


O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz dantes pagava-se com anúncios e venda de jornais. Esses tempos acabaram – hoje são apenas o negócio das grandes plataformas. O jornalismo, hoje, é uma questão de serviço e de comunidade. Se gosta do que fazemos na Mensagem, se gosta de fazer parte desta comunidade, ajude-nos a crescer, ir para zonas que pouco se conhecem. Por isso, precisamos de si. Junte-se a nós e contribua:

Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 26 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

Inês Leote

Nasceu em Lisboa, mas regressou ao Algarve aos seis dias de idade e só se deu à cidade que a apaixona 18 anos depois para estudar. Agora tem 21, gosta de fotografar pessoas e emoções e as ruas são o seu conforto, principalmente as da Lisboa que sempre quis sua. Não vê a fotografia sem a palavra e não se vê sem as duas. Agora, está a fazer um estágio de fotografia na Mensagem de Lisboa.

Entre na conversa

2 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *