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Há mesas de mistura, microfones e muitos cabos de som. Há cadernos abertos com rimas escritas à mão. Um jovem junta sons num programa de computador. Outro está a abanar a cabeça, de headphones, enquanto os dedos batem numa mesa de criar beats. Três raparigas cantam sincronizadas, baixinho. As expressões corporais de todos não passam despercebidos. Há sorrisos e olhos fechados. Gestos com as mãos e pés a bater com ritmo. O que se vive aqui é paixão pela arte numa cave improvisada como estúdio de música da academia Next Level.

Este é um programa que, desde 2014, voou dos Estados Unidos para dezenas de países e aterrou agora em Lisboa durante duas semanas – trazido pela nova embaixadora americana Randi Charno Levine. Não para trazer o hip hop, porque esse já vive nas ruas da cidade e do país, mas para cruzar experiências entre entusiastas em início de carreira com profissionais de várias artes.

Afinal, o hip hop é rap, dança, DJ e graffiti.

Estes são os quatro pilares do que nasceu nos EUA nos anos 1970 e que se espalhou e criou raízes nos quatro cantos do mundo. É uma cultura em constante transformação e que sofreu imensas adaptações, criando várias identidades, sons, estilos e abordagens. Mas sempre unidos pela base.

“Temos aprendido imenso, conhecido pessoas – que é a melhor parte”, diz Nayr Faquirá, cantora e produtora de 24 anos, de Lisboa. Aos 17 entrou-nos em casa com o The Voice. Depois, lançou alguns singles e mais recentemente colaborou com Valete – um dos maiores rappers em Portugal. 

Ola Ruth e Nayr Faquirá são cantoras e estudaram música em Londres, mas conheceram-se na Academia Next Level. Foto: Nuno Mota Gomes

Nayr aproxima-se do microfone sem medos. A sala está em silêncio absoluto. E grava mais uma parte da música que ela e outros jovens têm estado a compor. Fá-lo, literalmente, de olhos fechados. Parece fácil. Mas nada foi de um dia para o outro: ela começou a cantar aos 7 anos e estudou música em Londres. 

Ao lado de Nayr está Ola Ruth, cantora e pianista vinda de Almada. Conheceram-se aqui na academia e perceberam que estudaram na capital inglesa em faculdades diferentes. Recordam essa experiência com os olhos a brilhar.

Afinal, um encontro como este que a Next Level está a proporcionar é inédito cá, mas algo mais normal em Inglaterra.

“Na faculdade onde estudei tinham os estúdios sempre abertos a todos”, diz Ola. Também Nayr conta como “a própria faculdade dinamizava imenso este tipo de encontros”. E tem pena de como “há muito pouco disto em Portugal, sobretudo não sendo pago e estando a lidar com profissionais internacionais”. 

A partilhar a sala está Diamond D, produtor e MC, vencedor de um Grammy com os The Fugees e nomeado para outros. Uma lenda do hip hop, que já colaborou com Snoop Dogg, Fat Joe, Jay-Z, entre outros nomes incontornáveis. Há um ano foi convidado para partilhar o estúdio com Dr. Dre – o Deus.

Sim, do nada, estes jovens estão no Gemini, ali no Bairro do Rego, a aprender e a partilhar inspiração com alguém que faz parte do movimento desde os primórdios e tem na bagagem décadas de experiência com alguns dos maiores nomes do rap e da produção de música. 

Muito ativo na sala está também Charles Burchell, mais conhecido como BLVK Samurai. É produtor, rapper e multi-instrumentista, com mais de 10 anos de atuações internacionais e a dar aulas em escolas e universidades pelo mundo. Uma vida dedicada a tocar, estudar e ensinar. 

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Academia Next Level em Lisboa. Vídeo: Nuno Mota Gomes

Trabalhar em comunidade é o ponto de partida

Entre as várias áreas e corredores há jovens concentrados. A escrever uma letra. A teclar sonoridades. A praticar a voz. Mas não fosse este um dos espaços do Jazzy Dance Studios e noutra sala bem equipada decorre uma aula de dança. Os espelhos, a música e rodas de praticantes sincronizados a puxar uns pelos outros. Rodopiam no chão, balançam os braços, chutam os pés.

O professor de dança Orb. Foto: Nuno Mota Gomes

A dinamizar a sessão está Orb, um MC e breakdancer com mais de vinte anos de experiência a atuar e a ensinar dança pelo mundo. E Hannah G-W, que começou a sua carreira como ginasta, antes de se tornar uma profissional e professora de dança de hip hop. 

Do lado de fora da sala, Junious “House” Brickhouse espreita a aula pelo vidro. Aquela é a praia dele, o diretor do Next Level que tem uma longa carreira dedicada à dança, folclore e administração de artes. Integrou a academia no primeiro ano como professor e gostou tanto que conseguiu ficar envolvido no programa. Os anos foram passando e os cargos também.

Junious dança desde que se lembra de existir e a mãe dele foi a sua primeira professora. É também um veterano militar norte-americano que serviu em várias guerras e isso ensinou-lhe “as consequências e o sofrimento de má diplomacia”.

Por outro lado, deu-lhe uma paixão e uma necessidade de combater o contrário. “Eu entendo o poder da arte e da identidade e como essas coisas se juntam. Eu quero isso para outras pessoas”.

Junious “House” Brickhouse é o diretor da Academia Next Level. Começou por ser professor de dança. Foto: Nuno Mota Gomes

Trabalhar em comunidade é o ponto de partida para isso, através da cultura do hip hop, que é global. Por todos os lugares onde passa percebe como as pessoas têm formas diferentes de viver esta arte, quando comparado com o estilo de como foi fundado.

“O nosso objetivo é descobrir essas histórias e formatos e perceber de que forma podemos juntar diferentes grupos”, diz Junious. 

Para quem está habituado a analisar movimentos sociais, Junious dá o simples exemplo de como o hip hop em Lisboa já é diferente do Porto, apesar das semelhanças.

“Se tivermos cerca de 200 artistas em Portugal, no topo, a trabalharem nos seus projetos individualmente, não haverá muita esperança. Mas se começarem a fazê-lo enquanto comunidade, as oportunidades vão aparecer.”

O diretor do Next Level garante que se nos EUA dissermos que não há muitas oportunidades no hip hop, toda a gente se ri. É uma mudança de mentalidade que já se espalhou por outros países da Europa, Ásia e África. E que está, finalmente, a chegar a Portugal.

“Num destes dias, tive a oportunidade de conhecer Sam The Kid. E o que ele quer são mais duzentos iguais a ele”, conta Junious, bem sorridente, acrescentando que também foi visitar o estúdio de Vhils e ficou impressionado: “Ele dá emprego àquela gente toda e está a fazer a diferença. Estes dois artistas são uns visionários que acreditam que o trabalho em comunidade irá trazer resultados”.

Para ele, atualmente há muito a ser dinamizado no nosso país e nos próximos anos iremos assistir à mudança. 

Um processo que não depende só do talento. E é isso que eles tentam também ensinar nesta academia. Para além das disciplinas principais, os participantes aprendem noções de empreendedorismo, gestão de conflitos e de comunidade, direitos de autor e até responsabilidade social. No fundo, a arte e o hip hop a terem um papel fundamental num mundo melhor.

Como o rap é uma aposta de muitos jovens

À porta destes estúdios passa um grupo carregado com latas de spray. Vão pintar as paredes do Kriativu, um espaço comunitário no Bairro do Armador, Zona M, em Chelas. Abriu há pouco mais de seis meses como lugar de criação para várias artes e o seu dinamizador é Nuno Varela, um dos maiores empreendedores do hip hop em Portugal, cuja história já contamos, aqui na Mensagem.

Nuno Varela, também conhecido como “O Padrinho”, é o mestre dos contactos, das ideias e de alguém que está sempre disposto a dar força ao outro. Anda por aqui, entre os corredores, a acompanhar a academia, a convidar amigos para virem assistir. Tenta que também outros tenham a oportunidade de colaborar, de se conhecerem. O networking é o que o move.

Ele que há um mês foi convidado para ir a Nova Iorque e Washington DC, onde está a sede da Next Level – um programa do Departamento de Estado americano que usa o hip hop para fazer diplomacia, e cujo lema é “Construir uma Comunidade através da Cultura Hip Hop”.

Lá, viveu um sonho. Foi a concertos de artistas míticos que o acompanharam na adolescência no seu walkman: assistiu ao ídolo Nas e Wu-Tang Clan, o grupo que tem tatuado na perna. Visitou os bairros onde tudo começou. Foi a Times Square à noite. Admirou arte urbana. Sentiu-se em casa.

Foi através de Nuno Varela que Goblin KN soube deste programa. Tem 25 anos e vem da Pontinha. Não gosta de meter rótulos naquilo que faz, pois sente-se à vontade para cantar em vários estilos. “Não me limito. Neste momento até tenho feito mais R&B, mas quero apostar no rap”. 

Goblin KN começou a escrever música aos 13 anos e a primeira vez que foi ao estúdio, quando lançou a primeira faixa, tinha uns 15, 16. Só conseguiu vir dois dias à academia, mas mesmo assim vê a experiência como algo pujante. E deixa um conselho: “podes levar mais ferramentas daqui, mas tens de trilhar o teu caminho que não é idêntico ao de ninguém”. 

Apesar de ter feito uma pausa nos estudos, tem confiaça no futuro. Goblin KN decidiu começar primeiro a trabalhar para ter dinheiro para investir na música, algo que “posso aprender tudo no YouTube”. Mais tarde, quer estudar gestão e negócios. Para fazer os dele. 

KD One Seven, 25 anos, acha que ainda existe uma desvalorização do que é ser músico e ainda é mais evidente no rap. Foto: Nuno Mota Gomes

Ao lado está KD One Seven, de 25 anos, natural do Cacém e atualmente a viver na Lourinhã. “A minha vertente é o rap, mas também quero entender melhor a produção e masterização”. Nestes dias aprendeu a criar rimas com outros métodos, sem ser apenas com base na inspiração. Há muitos truques e regras para explorar esta arte que tem muito de poesia.

E isso foi sobretudo graças às “dicas” de Mazzi, artista também do Next Level. É um MC nova iorquino que pertence à cultura underground do hip hop dos anos 1990 e também líder do coletivo musical S.O.U.L, que trabalha com artistas de todo o mundo para criar álbuns cujos lucros revertem para caridade.

Para KD One Seven, em Portugal ainda existe uma desvalorização do que é ser músico e ainda é mais evidente no rap. E apesar dos maiores artistas nacionais neste momento representarem isso mesmo, não tem dúvidas que existe uma perceção de marginalização em relação ao género. Isso contribui para que não haja tanto investimento e condiciona as oportunidades.

“Se formos a ver, o liricismo de Nas ou Sam The Kid era suficiente para dar aulas a pessoas de outros géneros musicais. E não é à toa que Kendrick Lamar ganhou um Pulitzer”, conta o jovem que sonha alto e ainda há dias atuou no Núcleo A70, em Marvila. Neste momento, está a a fazer o curso de produção de hip hop na escola profissional ETIC, em Lisboa. Depois, quer estudar marketing, por ser uma área tão transversal nos dias de hoje. 

Também a construir uma carreira está Tom Freakin Soyer. Tem 28 anos, vem de Almada, e já está dentro da cena há uns anos. Faz rap e produção – a forma como agarra numa MPC e cria batidas é impressionante e nem Diamond D fica indiferente. “Tem sido bué enriquecedor este dias e eles têm me ensinado muito sobre o que posso fazer com os meus beats «lá fora»”. É uma linguagem universal e isso é uma mais valia em relação a quem, por exemplo, só rima em português: “fica praticamente limitado ao nosso território”. 

“Quando eles usam o crioulo, estão realmente a expressar-se sobre quem são”

Junious “House” Brickhouse, o diretor do Next Level, aterrou em Lisboa pela primeira vez há um mês para preparar o evento e agora veio uma semana antes do arranque da academia. Teve então oportunidade de conduzir por Lisboa e arredores. Acredita que provou metade dos pratos tradicionais. Demorou-se a apreciar as fachadas dos prédios. Mas para ele, “o mais divertido foi entender a arquitetura das pessoas”. 

Por cada lugar da cidade tropeçava em História. “Como cidadão dos EUA, ter pessoas a dizerem-me que os meus ancestrais construíram esta cidade é muito poderoso”. E o Next Level, para ele, é muito isso. Mesmo que não falemos a mesma língua, temos experiências semelhantes para partilhar. 

Foto: Nuno Mota Gomes

Pegamos no exemplo da grande comunidade de Lisboa que fala crioulo. E de como há muitos jovens a explorarem isso mesmo na música, muitas delas hoje em dia a dominarem as rádios e plataformas nacionais.

“Quando eles usam o crioulo, estão realmente a expressar-se sobre quem são. Se não o fizerem, a cultura deles desaparece”, partilha Junious, acrescentando ainda que “quando oiço miúdos no hip hop a usarem gírias, eu apoio-os”. 

Junious tem rodado o mundo em viagens com a academia. E o que o move é encorajar os jovens a acreditarem na arte como uma representação de cultura – e não como entretenimento. “Só vão crescer de forma autêntica, se seguirem aquilo vocês são”.

A Academia Next Level foi organizado pela Embaixada dos EUA em Portugal e recebeu a visita da embaixadora Randi Charno Levine. Reuniu jovens de várias zonas do país que foram selecionados para participar. O programa decorreu essencialmente no espaço do Jazzy Dance Studio, no Bairro do Rego, em Lisboa, terminou dia 28 de outubro com uma atuação e apresentação das várias vertentes do hip hop que foram trabalhadas neste dias, no espaço do Jazzy em Santos.

O Next Level é uma iniciativa do U.S. Department of State, da University of North Carolina at Chapel Hill e do Meridian International Center.


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Nuno Mota Gomes

É jornalista. Adora escrever, fotografar e perder-se em pensamentos. Anda de mota, faz surf, viaja sempre que pode – e nem sempre para o estrangeiro. Agora fá-lo mais aqui, em Lisboa, onde nasceu. Um Interrail abriu-lhe horizontes, publicou um livro e muitas reportagens de viagens na Volta ao Mundo – onde se estreou na TV. Passou ainda por outras publicações e durante dois anos integrou o Diário de Notícias. Há quem diga que percebe de redes sociais. Tem 29 anos. 

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