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Ilustração: Lia Ferreira

Já não sou de directas mas talvez ainda seja verdade que os noctívagos olham para a noite com a mesma ilusão de eternidade com que os veraneantes encaram as férias grandes. A noite e as férias suspendem o tempo, pelo menos no princípio (até às quatro da manhã e durante os primeiros dez dias).

Depois parece haver uma aceleração compensatória, como se fosse preciso garantir que o Sol nascerá a horas e a máquina de ponto não terá nenhum sobressalto.

Também a expressão “férias grandes”, uma relíquia da infância e adolescência de quem não precisou de trabalhar no Verão, transmite uma ideia de extensão do tempo que incentiva a megalomania de planos para a magra quinzena de Agosto.

A minha megalomania, como a de tantos outros, é a das leituras de Verão.

Posso garantir que houve um tempo de longas tardes e noites de leitura, até que veio o amor, depois a música, o estudo mais exigente e o trabalho, a explosão de tentações concorrentes criadas pela tecnologia (fóruns, blogs, redes sociais, séries e filmes à la carte,  podcasts), as filhas e uma tendência tardia e ridícula para o empreendedorismo.

Leio ainda muito, mas cada vez mais por motivos profissionais e sociais; a leitura como deleite foi descendo posições na lista de prioridades. A julgar pela minha experiência nos transportes públicos, em que é raro deparar-me com um homem a ler um livro, este meu percurso foi banal.

Mas quando chegam as férias penso que ainda tenho 16 anos.

Os grandes leitores adultos que conheço são um grupo minúsculo e heterogéneo; inclui hedonistas, gente com tendências monásticas e até misantropos assumidos, que têm em comum opções de vida profundas para preservar o tempo de leitura. Ler a sério na idade adulta não é só uma actividade intelectual, pois requer uma disciplina e devoção de atleta de alta competição.

A noção exacta das exigências da leitura e da finitude fizeram com que as listas de livros,  filmes e álbuns que os suplementos culturais oferecem no fim do ano se tornassem ansiogénicas para mim, ao ponto de as ignorar há décadas.

Os balanços do ano têm uma dimensão técnica e impositiva, que só aumentaria o peso na consciência na directa proporção da espessura das novas lombadas a acrescentar à pilha de “obras incontornáveis” ainda por ler; o cânone é como a economia, tem de crescer infinitamente para satisfazer os editores dos “clássicos instantâneos” e a ambição dos académicos que tentam ressuscitar autores mortos “injustamente esquecidos”.

Curiosamente, as revelações das leituras de Verão não me provocam qualquer angústia, talvez por serem sugestões avulsas de amadores. Comecei por consultá-las com o snobismo e arrogância dos jovens, para topar as revelações descaradamente desonestas, mas hoje é com genuína curiosidade que as leio.

Pela vaidade de uns e a generosidade inocente de outros, a megalomania sincera que reconheço nuns quantos ou o bluff do inevitável arrivista do momento, estas listas são um barómetro do zeitgeist mas sobretudo um festival das nossas qualidades e defeitos.

Já é raro desconfiar das intenções das celebridades entrevistadas. Acredito que estão a ser sinceras na aspiração que partilham, apesar de saber que não lerão nem metade do que anunciam. Aceito até que as mais conscienciosas transformam a divulgação das obras que lerão num compromisso público que lhes disciplinará a leitura – os cínicos devem soltar agora um esgar de condescendência. 

Não deixo é de lamentar a previsibilidade das escolhas e por vezes divirto-me a imaginar emparelhamentos improváveis: Adriano Moreira a recomendar Chuck Palahniuk, Carolina Patrocínio a sugerir Peter Handke, Toy entusiasmado com Doris Lessing, Pacheco Pereira discorrendo sobre as virtudes de Gustavo Santos…

O plano para o Verão de 2022 parecia equilibrado: dois volumes magros, um com a prosa seca e rápida de Rubem Fonseca e outro de um Mário Claúdio surpreendentemente light, e ainda um livro mais nutrido de Djaimilia Pereira de Almeida.

Mas logo o demónio da megalomania inviabilizou o plano, matraqueando sem cessar: “Tens de acabar o Nuno Bragança!”; “E o Sinais de Fogo? Pensas que por ser uma obra inacabada te perdoarão a leitura interrompida?”; “É este Verão que abres o Lisboa – História Física e Moral, de José Augusto França?”

Foi este Verão. Comprei o livro (de 2008) há uns anos, atraído pelo binómio “física e moral”, primeiro inusitado e logo imprescindível, e também por ser uma grande obra de síntese de fim de carreira, um exercício que sempre me atraiu. Li o prefácio e as primeiras páginas do primeiro capítulo. Acabarei o livro nas férias?

Claro que sim. Este e os outros todos, os que comprei para as férias e os que estão por acabar. A soma estará acima das 2000 páginas mas Agosto é eterno.


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Vasco M. Barreto

É biólogo. Nasceu em Lisboa, cresceu nos Olivais Sul durante os anos 70 e 80, viveu uns anos no Lumiar e depois seguiu para Paris, onde se doutorou, e a seguir Nova Iorque. É casado e tem duas filhas. Árvores plantadas. Livro a caminho.

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