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Em tempos que já lá vão, liam-se em casa da minha família dois jornais: o Diário de Notícias, de que a minha mãe sugava absolutamente tudo, incluindo as páginas da necrologia, o biorritmo e as farmácias de serviço; e o Diário de Lisboa, o vespertino que o meu pai trazia ao fim da tarde do escritório (quando não ia logo para a borga, claro) e do qual nos lia – e ai de quem não ouvisse até ao fim! – as célebres Redaçcões da Guidinha, de Luís de Sttau Monteiro.

O primeiro desses jornais tinha um caderno de anúncios central que foi mudando ao longo dos anos, mas que, quando eu já tinha autorização para o folhear, exibia páginas divididas em colunas que diziam «Precisa-se» e «Oferece-se» quando se tratava de empregos, e «Arrenda-se» e «Vende-se» quando o assunto eram casas.

Tanto quanto sei, era também através desses anúncios que se arranjavam empregadas domésticas internas (quantas vezes vindas de aldeias remotas fugindo ao trabalho do campo) que faziam a lida da casa e tomavam conta das crianças, ou mulheres-a-dias que iam engomar a roupa num dia certo; e a minha mãe contou-me que, quando uma candidata se apresentou em casa de uma vizinha para responder às perguntas da praxe (saber fazer croquetes e almôndegas era obrigatório!), caiu o Carmo e a Trindade, porque ela reconheceu imediatamente o dono da casa na fotografia sobre o móvel da entrada e, sem medir as consequências, disse à senhora que às terças engomava numa casa ao Chiado onde a patroa, ainda jovem, tinha uma fotografia igualzinha àquela… Seria por acaso sua filha? O pior é que não era.

O meu pai, apesar de boémio, tinha, pelo menos, a inteligência de não dar fotografias suas a ninguém; contudo, numa madrugada em que chegou de sapatos na mão para não fazer barulho, a minha mãe deixou-o meter-se na cama e tapar-se a pensar que ela não dera por nada e só depois acendeu a luz, olhou para ele e apagou novamente a luz. Quando o meu pai lhe perguntou o que fora aquilo, ela respondeu, castigadora: «Era só para ver se eras tu.»

Mas, voltando aos anúncios, também apareciam propostas de casamento, geralmente de «senhoras sérias» que procuravam «cavalheiros com boas intenções», e conta-se que foi por causa de uma delas que Agustina Bessa-Luís encontrou um marido para a vida.

Porém, com o andar dos dias, essas tentativas aparentemente inocentes de achar uma cara-metade – ou, em alguns casos, uma forma de sustento – transformaram-se em publicidade a um certo tipo de companhia mais especializada, com ternura enlatada e massagens à mistura, sendo «massagens» obviamente um eufemismo para o que todos sabemos.

E, assim, o caderno central tornou-se uma verdadeira galeria de fotos, muitas delas a cores, de seios, soutiens, ligas, rendas pretas, plumas vermelhas, coxas e nádegas viradas para o leitor, ilustrando pequenos textos com moradas e telefones, em que quem se oferecia era sempre uma jovem meiguinha e dócil, ou uma gata atrevida e experiente capaz de levar às nuvens o mais tímido dos machos.

Foi esse caderno extremamente «enfeitado» com partes de raparigas e mulheres que, durante um festival literário, pousei ao meu lado num sofá enquanto lia o resto do jornal, quando apareceu Eduardo Lourenço, que tomou inadvertidamente nas suas mãos aquelas páginas para se poder sentar.

Foi-as passando então sem pressa, um tanto incrédulo – quiçá esperando que aquilo acabasse logo para dar lugar a alguma notícia ou artigo interessante – mas, vendo que era sempre mais do mesmo, olhou para mim e disse-me, categórico:

– Caramba, mas isto é o maior bordel portátil da Europa!


Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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