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Quem passar pelo 14A na Avenida Rovisco Pais, perto da Alameda, vai reparar na mudança. Onde dantes havia uma papelaria, agora surge um letreiro azul: “Livraria Miosótis“. Numa pequena montra, brilham os livros. E há quem espreite para ler os títulos em exposição.

Lá dentro, sente-se de imediato esse cheiro familiar a livros. Livros novos de capa imaculada, livros antigos conservados em vitrines, encadernados para se esconder a passagem do tempo. Por detrás do balcão, um casal simpático.

Ela tem os cabelos encaracolados e usa óculos de armação grossa. Ele tem um ar compenetrado, o cabelo e a barba já grisalhos. Chamam-se Adelaide e Stevan Nikolic e são os guardiões da Miosótis, a nova livraria de bairro perto do Arco do Cego.

“Miosótis é uma flor que tem um significado muito ligado à lembrança”, começa por explicar Adelaide Nikolic, estendendo o pulso para mostrar a tatuagem de um miosótis. “Para nós, enquanto livraria, miosótis é a recordação dos livros que ficam na memória”.

Foi, pois, a recordação dos livros que uniu Adelaide e Stevan e que levou à fundação da Miosótis. É a história de uma tradutora que se apaixonou pelas palavras que traduzia, e do autor que se rendeu a essa tradução.

Uma história de amor e de livros

Numa das prateleiras de madeira dos anos 1960, que Adelaide e Stevan conservaram da antiga papelaria que ali existia, surge um livro escrito por Stevan: Fim-de-semana em Faro.

É uma edição publicada pela Adelaide Books, a editora que os dois fundaram em 2017, sob a chancela da revista literária independente Adelaide Literary Magazine. A editora começou por ter sede em Nova Iorque mas desde 2019 estendeu-se a Lisboa.

Stevan Nikolic nasceu na antiga Jugoslávia, no seio de uma família que trabalhava na indústria da impressão, e por isso apaixonou-se desde muito cedo pelos livros e pelas palavras. “Cresci a ver os livros a serem impressos”, recorda.

O livro que uniu Adelaide e Stevan e o miosótis que Adelaide tatuou no pulso. Foto: Rita Ansone

Mais tarde, mudava-se para Nova Iorque, mas a sua vida continuaria a ser feita de livros. E da busca pela sua história. Foi o Pentateuco de Samuel Gabon, o primeiro livro alguma vez impresso em território português (é de 1485), que o levou a Faro.

A inspiração da cidade fez nascer Weekend in Faro, um livro sobre um norte-americano à procura dele mesmo, que chegou às mãos de uma tradutora portuguesa, Adelaide.

Adelaide procurou as palavras na língua nativa para contar a história daquele que viria a ser o seu futuro marido. Só que ela ainda não o sabia.

Adelaide traduziu a primeira obra de Stevan. Foto: Inês Leote

Conheceram-se mais tarde nos Estados Unidos e desde então andam de lá para cá, sempre ligados aos livros. Não só aos novos livros que vão publicando, afinal o lema da editora que criaram é “não publicamos clássicos, criamos clássicos”, mas também dos antigos, até mesmo de edições raras que hoje expõem na sua livraria a troco de pequenas fortunas.

Numa vitrine, há obras que chegam a valer mais de mil euros, exemplares raros de livros que conseguiram escapar a fogueiras ou a lápis azuis. “O que tem valor arranja sempre forma de perdurar”, diz Stevan.

Uma edição antiga (e em mirandês!) da Mensagem de Fernando Pessoa. Foto: Rita Ansone

Na livraria, que é a primeira e única loja física da editora, há também muita literatura infantil, livros escritos por alguns autores norte-americanos com os quais a Adelaide Books trabalha e outros de autores portugueses, na sua maioria iniciantes.

Uma livraria que é quase “uma mercearia”

É também um espaço de encontro, com um quadro de ardósia onde as crianças podem desenhar. Por estar muito perto do Colégio do Sagrado Coração de Maria, já são algumas as crianças que todos os dias vêm rabiscar.

Os jovens do Instituto Superior Técnico são também facilmente atraídos pelos livros na montra, mas não é só a juventude que arregala os olhos perante os livros. “Na semana passada, uma vizinha veio para aqui trabalhar porque não tinha Internet”, conta Adelaide.

E até há quem peça para ali guardar as suas encomendas. “É quase como se fôssemos uma mercearia”, diz a tradutora. Uma mercearia de histórias.

Para além da ardósia, a Miosótis tem ainda uma sala de exposições, onde até ao final de agosto se expõem os quadros da pintora ucraniana Marita Vaskova, que Adelaide passou a conhecer graças a um artigo da Mensagem. São as cores de Lisboa que dão vida ao espaço.

“Gostei muito do espaço, é novo, muito fresco e vibrante”, diz a própria Marita Vaskova, de visita à sua exposição. “Os quadros precisam de ser vistos. É bom saber que há pessoas a olhar, é essa a energia de que um artista precisa”.

Os planos não ficam por aqui: Adelaide gostava de transformar a livraria com lançamentos de livros, concertos, workshops. Mas, para já, assiste com um sorriso à adesão das pessoas.

E porquê Lisboa para abrirem a primeira livraria, e não Nova Iorque? “Lá a vida é um pouco mais difícil, não só em termos de preços, é muito competitivo”, desabafa. “E era isto que nós queríamos: não sermos demasiado formatados, sermos uma lojinha de vizinhança”.


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Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 25 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

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