Da última vez que fui a uma casa de fados, estava presente o letrista e encenador Tiago Torres da Silva, que é uma das pessoas que melhor conhecem os novos intérpretes da canção de Lisboa.

Subiu então ao palco um artista relativamente jovem chamado Jonas Lopes, de que eu nunca tinha ouvido falar e que cantou alguns fados com letras muito modernas e, se assim posso dizer, uma voz mais operática do que fadista.

Esclareceu Tiago Torres da Silva que Jonas Lopes é uma das metades de um duo que se apresenta publicamente como Jonas&Lander (sendo a outra metade Lander Patrick, que foi seu colega no curso de dança do Conservatório), duo esse responsável, entre outros projectos, por um espectáculo chamado Bate-Fado – um híbrido de concerto e dança, em que o corpo, dialogando com a voz e as guitarras, tenta recuperar o acto de “sapatear o fado”, uma velha prática que, com o passar do tempo, se perdeu.

Efectivamente, hoje pode parecer estranho falar-se de fado dançado; mas, tal como outras correntes musicais urbanas (o tango, o flamenco…), o fado começou realmente por ser acompanhado com movimentos sensuais do corpo – herdados provavelmente das danças religiosas dos escravos – que atraíram os portugueses e outros europeus, embora os mais conservadores os achassem “indecentes”.

Diz-se até que, no Interior do Brasil, nos princípios de 1800, a dança favorita dos negros se chamava justamente “fado”; e que, sendo dançada por pares, era – escândalo dos escândalos – a mulher quem convidava o homem para se lhe juntar. Seja como for, o costume transitou para Portugal – na memória de marinheiros, de escravos e da arraia-miúda – quando a Corte regressou à Pátria no final das Invasões Francesas.

A boémia lisboeta, evidentemente, não prescindiu desta dança “ondulosa como uma vaga”. Nas palavras deliciosas de Tinop (Pinto de Carvalho) publicadas na sua História do Fado, de 1903, o bate-fado é descrito como incluindo “pancadinhas nas coxas”, meneios de ancas e “requebros obscenos”, contando-se entre os seus muitos praticantes (a que não escapa um padre e um actor de teatro conhecido por José da Bolacheira) a famosa Severa e o Conde de Vimioso. Presume-se, pois, que o romance entre ambos terá começado com fado dançado.

Conta ainda o historiador que as figuras dos batedores de fado mais excitantes (sobretudo mulheres, bem entendido) se encontravam reproduzidas em caixinhas de fósforos e (não resisto a citar), “pela petulância de suas atitudes, simbolizam maravilhosamente o produto inflamável de que são o ornamento”. E acrescenta que vinha muita gente de longe só para ver dançar estes “convivas alegres desse terno banquete do amor venal”. Bendito Tinop mais a sua prosa!

Se dançar o fado parece nos dias de hoje manifestamente impensável, fique a saber que houve tempos em que os bailaricos de fado eram apreciadíssimos e muito comuns. E que, pelos vistos, ainda há quem, em pleno século XXI, tente recuperar o hábito.


*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Maria do Rosário Pedreira

Nasceu em Lisboa e nunca pensou viver noutra cidade. É editora, tendo-se especializado na descoberta de novos autores portugueses. Escreve poesia, ficção, crónica e literatura infanto-juvenil, estando traduzida em várias línguas. Tem um blogue sobre livros e edição e é letrista de fado.

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